Quinta, 02 de julho de 2026, 14:18h
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Cresce o gosto pelo futsal entre as meninas, que disputam gol a gol um território antes reservado ao público masculino
Com vinte campeonatos anuais, Canguçu conta com a impressionante marca de 300 equipes, fazendo do município um dos principais pólos de futebol amador do RS
A primeira trave quase sempre é de madeira. Os pés infantis, não-raro descalços, pisam a grama e a terra batida num sincronismo que todo brasileiro aprende desde cedo a executar. Mas o privilégio já não é apenas masculino. Na capital latino-americana da agricultura familiar, o futebol amador ganha nuances de paixão absoluta: em cada escola, em cada comunidade religiosa, em cada ponto de encontro de amigos há um campeonato em andamento. Ao todo, vinte competições deste esporte acontecem no decorrer do ano. Muitas são realizadas simultaneamente, fazendo com que os atletas mais apaixonados – e talentosos – participem de até três torneios por final de semana.
A origem para o fenômeno que torna Canguçu um dos maiores pólos de futebol amador do Estado pode estar na miscigenação étnica. Descendentes de alemães, italianos, portugueses, espanhóis, negros e, em menor escala, indígenas formam a população canguçuense. Em comum, além da forte ligação com a terra e a atividade agrícola, compartilham um apurado gosto pela prática esportiva, incentivada pelos familiares antes mesmo dos primeiros passos na escola.
Nas comunidades formadas por descendentes de pomeranos, as mulheres passaram a ter mais espaço nas competições. Uma explicação para isso é o fato de que nessas colônias a divisão do trabalho não é norteada por aspectos tradicionais de gênero: homens e mulheres dividem a tarefa de cuidar da lavoura. Essa partilha de afazeres do cotidiano chegou também aos gramados e quadras de futebol há alguns anos, se espalhando rapidamente por todo o município.
No Campeonato Municipal de Futsal, organizado pelo Núcleo de Esportes da Prefeitura, oito equipes femininas – da cidade e do interior – protagonizam disputas equilibradas e emocionantes. Na opinião do diretor do núcleo, Lúcio Campos, a participação feminina nas competições tende a crescer. “As partidas estão cada vez mais equilibradas e o nível técnico das jogadoras tem crescido muito”, afirma, destacando que várias atletas canguçuenses já disputaram campeonatos em equipes de outras cidades.
Uma dessas jogadoras é Franciéle da Silva, que já jogou duas temporadas pelo Esporte Clube Pelotas/Phoenix. A atleta, de 21 anos, também participou de competições pelo Cruzeiro e atualmente joga no Trianon, tradicional clube de Canguçu. Fran, como é conhecida, acredita que apesar dos avanços o preconceito ainda é uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas mulheres que se dedicam ao futebol. A estudante de Letras (UFPel) precisa encontrar tempo para todas as atividades: trabalho, treinos, faculdade e competições. “Muitas de nós estudamos à noite. Tem equipes que vêm do interior e acredito que também seja difícil para se deslocar até a cidade”, analisa.
Ela é uma das jogadoras inscritas no Municipal de Futsal, disputado as terças e sextas-feiras à noite, e reclama do horário dos jogos. “Os dias e horários não são favoráveis”, opina, argumentando que deveria haver uma competição feminina que se adequasse melhor ao cotidiano das atletas, a maioria estudantes. Fran acredita que os clubes e empresas precisam investir mais na modalidade esportiva, inclusive financeiramente, e não apenas emprestar o nome como ocorrem em muitos casos. Contudo, ela reconhece o esforço de equipes e instituições que valorizam o esporte e o potencial das jogadoras. “Um belo exemplo é o Trianon, equipe onde tenho a oportunidade de jogar. Estamos com uma grande expectativa de crescimento. Não só nós, jogadoras, mas também a direção e o nosso treinador, Ricardo Porto”, elogia.
Outro exemplo citado é o do Clube Aliança. Segundo Franciéle, o grupo realiza treinos de futebol de campo feminino aos finais de semana e tem proporcionado oportunidade de crescimento às atletas. “Quando falo em oportunidade, não é largar uma bola no meio de campo e seja lá o que Deus quiser. É preciso ter um projeto, formar uma base e, aí sim, pensar em um campeonato de qualidade”, define.
Três mil atletas amadores
Natural de Palmeira das Missões, Lúcio Campos sempre foi um apaixonado pelo futebol, esporte que chegou a jogar profissionalmente em sua terra natal. Há 14 anos em Canguçu, ele define que encontrou no município um espaço privilegiado para prosseguir sua caminhada no meio esportivo. Cristal, Cruzeiro, Remanso, Posto Branco e Três de Outubro foram algumas das equipes locais onde Campos atuou. “Primeiro como atleta. Depois, conforme a idade foi avançando, virei treinador”, relata o diretor de esportes, que é conhecido como um técnico motivador dos times por onde passa.
Coordenando o Núcleo de Esportes há um ano e meio, ele ainda se surpreende com a efervescência do futebol amador no município. O grupo coordenado por Campos já catalogou vinte competições de futebol, fut-7 e futsal que ocorrem anualmente em Canguçu. Os campeonatos são disputados por um número surpreendente de times: entre 250 e 300 equipes. “Podemos dizer, sem medo de errar, que Canguçu tem cerca de três mil atletas amadores”, afirma.
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