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Cultura e Turismo

08-08-2014

“Alambrados” é a grande vencedora do XVIII Festival Canguçu da Canção Popular


Foto: Cláudia Peres Música Alambrados conquistou o primeiro lugar e o prêmio de melhor conjunto vocal

Participantes avaliam o festival como um dos únicos no RS a valorizar a multiplicidade de vertentes musicais


Um rock de Canguçu, uma bossa de Pelotas. Um samba de Porto Alegre, outro de São Lourenço do Sul. Todos, entre si, competindo (ou melhor, “mostrando a arte”, como enfatizam os participantes). A miscigenação que nasce de um multifragmentado mosaico de gêneros musicais é a marca do Festival Canguçu da Canção Popular (Fecanpop), que realizou no último final de semana sua 18ª edição. Outra característica, entretanto, vem ganhando voz entre músicos, jurados e demais participantes: a ideia da arte como ferramenta de transformação social e a afirmação de que o festival não é um espaço de competição.



Giancarlo Borba, que fez parte da comissão julgadora, é um dos que pensa assim. “Todos que estavam lá tinham apenas um objetivo: a arte”, opina o arte-educador popular, licenciado em Música pela UFPel. “Ninguém estava lá por dinheiro. Nem organizadores, nem comissão avaliadora, e muito menos os participantes, que ganhavam uma ajuda de custo simbólica”, conclui.


Tal sincronia não poderia deixar de atrair músicos como o pelotense Marco Gottinari. Defensor da ideia de conexão entre os seres, a natureza e o universo, o artista já se tornou uma figura conhecida no festival. Ele subiu ao palco do evento nos últimos três anos para levar ao público uma mensagem que fala em transformação da sociedade. Em 2012, com a música Carrossel, conquistou o primeiro lugar. No ano seguinte foi a vez de avaliar os participantes como membro da comissão julgadora e realizar o show de encerramento. Este ano o pelotense, natural da Colônia São Manoel, teve duas músicas classificadas na triagem: Verão (em parceria com Tatiana Pureza e Júlio Casarin), e Mundo Novo, com letra e melodia do próprio Gottinari. O músico se encantou com o clima dos bastidores e com a relação entre os participantes. “Esse festival foi o mais harmonioso que já participei. Havia um clima de não-competitividade incrível. Era todo mundo ensaiando junto e todo mundo torcendo para que a música do outro grupo saísse bem”, descreve.


Entusiasmado, o artista foi mais longe e chegou a sugerir para a organização que o festival deixe de oferecer premiação em dinheiro para os primeiros colocados. “Apenas uma ajuda de custo para todos”, defende, argumentando que a iniciativa reduziria ainda mais qualquer possível rivalidade . Outra indicação inovadora se refere à possibilidade de cada grupo participante apresentar no palco duas músicas ao invés de apenas uma, como acontece em todos os festivais do Estado. O cantor, que teve as duas músicas classificadas para a final no domingo, conquistou o segundo lugar com Mundo Novo, uma canção que, como outras tantas de Gottinari, conclama a plateia a despertar para um novo tempo: “O mundo que desperta precisa de você. Então cante, dance, ame”, diz um trecho da letra, que foi concluída especialmente para participar do Fecanpop.


Em primeiro lugar ficou a composição Alambrados, um tema social que percorre o território sulino antes mesmo dos arames, das posses saqueadas do pampa guarani. A música transita em busca de uma pureza humana que se perdeu na ferocidade das guerras e na invasão que os europeus chamaram de descobrimento. Depois, a canção deixa de lado um possível lirismo para se transformar em canto libertário: “Não existem alambrados que aprisionem velhos sonhos, nem a alma libertada dos índios que viviam aqui”. Alambrados foi escrita por Valder Valeirão, com melodia de Rodrigo Santos. A composição contemplada com o prêmio máximo foi uma das várias inscritas pelo município de Pelotas e classificadas para a final.


Organização


Premiado em vários festivais nativistas no Estado, o canguçuense Alan Redü foi um dos organizadores do evento. Ele destaca que, na primeira noite de Fecanpop ocorreu o (possivelmente) primeiro show de chorinho no município. A consagração veio pelo aplaudidíssimo Sovaco de Cobra, grupo da cidade de Pelotas. Redü considera que durante os dois dias em que foram realizadas as apresentações, o festival desenvolveu um papel importante não apenas para a cultura e o turismo, mas para a economia local, através da procura por hotéis e restaurantes. O evento também situa o município como referência cultural entre os artistas. “Este festival projeta o nome de Canguçu para todo o Estado e até fora dele”, diz o organizador, citando o exemplo da edição de 2013, quando foram inscritas músicas de Santa Catarina. “E este ano tivemos a inscrição de três músicas do Chile”, complementa.


Durante cinco meses, os integrantes da comissão organizadora precisaram se dividir entre as tarefas do cotidiano e a preparação para o festival. As reuniões começavam ao clarear do dia, na Casa da Cultura. Ali eram definidas as metas e os caminhos que cada um trilharia para confirmar o sucesso de um evento mais tarde consagrado pelo público, que lotou o Cine Teatro nas duas noites. O encantamento de olhares curiosos (que possivelmente viam pela primeira vez o Fecanpop) foi compartilhado também por quem já está acostumado aos festivais. “Participo do Fecanpop ininterruptamente há sete anos. Primeiro como músico e nas três últimas edições como membro da comissão organizadora. E cada edição tem sido única”, avalia Redü, que em 2013 propôs a criação do Troféu Júlio Nogueira de Melhor Intérprete, para homenagear um talentoso músico canguçuense já falecido.


Confira a entrevista com Giancarlo Borba, um dos jurados deste Fecanpop:


Jornal Tradição Regional – Qual a tua avaliação sobre o XVIII Fecanpop?


Giancarlo Borba – Confesso que estou ainda emocionado e agradecido por ter feito parte desse momento. Um evento de alto nível realizado com poucos recursos, porém com gente empolgada e com vontade de ver acontecer...tudo lindo, trabalho sincronizado, todo mundo de cara alegre... Todos que estavam lá tinham apenas um objetivo: a arte! Ninguém estava lá por dinheiro, nem organizadores, nem comissão avaliadora e muito menos os participantes, que estavam lá com uma “ajuda de custos” simbólica. 


JTR – O nível das composições concorrentes foi bom?


GB – O que mais me chamou a atenção foi a diversidade das canções participantes. Cada uma tinha uma característica diferente, todas com muita qualidade dentro do seu estilo, o que acabou fazendo com que tivéssemos grande trabalho em avaliar, pois tínhamos que trabalhar focando individualmente em cada canção dentro do seu universo e não comparar com as outras. Principalmente na última noite, onde os artistas estavam mais relaxados e vieram com uma “pegada” muito boa, o nível estava altíssimo!


JTR – Qual foi a característica mais marcante do Fecanpop? 


GB – Pra mim o mais marcante continua sendo a diversidade das canções e a vontade de todos envolvidos em “fazer acontecer”. Não se viu nada de “politicagem barata” por lá. Em momento algum a Prefeitura utilizou o evento para se promover. Tudo entregue com confiança nas mãos dos organizadores. Dava pra ver o brilho nos olhos de cada um a cada momento do Festival. Então o mais marcante pra mim é ver todos trabalhando desligados do “dinheiro”, apenas pela música de qualidade...


JTR – Considera válida a iniciativa de manter um festival que recebe tanta diversidade musical? 


GB – Pra mim este é o ponto forte desse Festival. Nenhum outro no Estado recebe músicas assim! Ali todas são consideradas “música”, sem divisões em “linhas disso” ou “linhas daquilo”. Fecanpop é uma exceção, e um festival de grandíssima qualidade que deve servir de exemplo para vários Brasil afora. 


JT – A decisão quanto aos vencedores foi fácil?


GB – Não foi nada fácil, não! Desde a primeira noite já vínhamos discutindo as qualidades de cada canção.  O fato de haver tanta diversidade fez com que tivéssemos muito trabalho, mas no fim chegamos a um consenso e temos certeza de que foi tudo muito justo, e que no fim todos foram vencedores por fazer parte desse belo momento. Por exemplo, quando fomos escolher o “melhor instrumentista”, não fizemos uma análise ampla sobre quem foi mais virtuoso ou coisa assim, mas trabalhamos na linha de quem naquele momento fez mais diferença na música apresentada. Confesso que tivemos trabalho pra isso.


Festival 


O Fecanpop, que tem mantido uma rara capacidade de renovação a cada ano, retornará no inverno de 2015. Até lá, haverá o tempo necessário para que as construções poéticas e melodias ganhem novas formas, novas molduras e novos rostos. É o ciclo da arte, que na capital da agricultura familiar também aprendeu a respeitar as leis da natureza, em uma miscigenação entre o suor do plantio e o gosto diante dos frutos da colheita.


Jurados:


Cardo Peixoto, poeta, instrumentista e intérprete; Daniela Brizolara, intérprete, poetiza e compositora; Giancarlo Borba, cantador, artesão e arte-educador popular; Gil Soares, instrumentista; e Maurício Raupp Martins, poeta-escritor.


Comissão Organizadora:


Alan Redü, Ítalo Dorneles, Jonas Silveira, Vanderlei Oliveira e o secretário de Cultura, Elisnei Pires.


Premiações


1º lugar (troféu e R$ 1 mil): Alambrados


2º lugar (troféu e R$ 400): Mundo Novo


3º lugar (troféu e R$ 300): Fênix


4º lugar: (troféu e R$ 200): Oito Cordas


Melhor Intérprete: Jeferson Soares, por Fênix


Melhor Letra: Torrão, de Marília Flôor


Melhor Melodia: Mundo Novo, de Marco Gottinari


Melhor Conjunto vocal: Alambrado


Melhor Arranjo: Oito Cordas


Melhor Instrumentista - Troféu Júlio Nogueira: Alzevir Maycá, por Oito Cordas


Música Mais Popular - votação popular: com 34 votos, Trilhos


Classificadas para a final (farão parte do DVD):


Verão


Letra: Tatiana Pureza, Marco Gottinari e Júlio Casarin


Melodia: Tatiana Pureza


Ritmo: Bossa (Canguçu)


Lua Viva


Letra: Danizio "Xiru" Gonçalves


Melodia: Andriego Garcia Von Laer


Ritmo: Bossa Nova (Canguçu)


Alambrados


Letra: Valder Valeirão


Melodia: Rodrigo Santos


Ritmo: MPB (Pelotas)


Albor


Letra/Melodia: Sulimar Rass


Ritmo: Rock (Canguçu e Pelotas)


Trilhos


Letra/Melodia: Gabriel Timm


Ritmo: Popular (Pelotas)


Sempre se quer um grande amor


Letra/Melodia: Luiz Bachilli Neto


Ritmo: Samba (Porto Alegre e Pelotas)


Torrão


Letra: Marília Floôr


Melodia: Cubano


Ritmo: Canção (Canguçu e Arroio Grande)


Fênix


Letra/Melodia: Jeferson Soares


Ritmo: Rock (Canguçu)


Teu Olhar


Letra: Cleia Dröse


Melodia: Fernando Teixeira


Ritmo: Samba (São Lourenço do Sul)


Mundo Novo


Letra/Melodia: Marco Gottinari


Ritmo: MPB (Pelotas)


Oito Cordas


Melodia: Alzevir Maycá de Maicá


Ritmo: Instrumental (Pelotas)


Teu Gosto


Letra/Melodia: Gilmar Barbosa Sacramento


Ritmo: Canção – MPB (Pelotas)


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