Quinta, 02 de julho de 2026, 02:02h
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Filme de David Michôd olha com pessimismo para o futuro dos humanos
Os primeiros minutos de The Rover – A caçada, já deixam claro que o filme se passa no futuro. Nesse mundo catártico, vemos um homem ter seu carro roubado por uma gangue, decidindo perseguir os ladrões pela Austrália em uma espiral de violência.
Esta não é a primeira vez que o diretor David Michôd enfrenta o caos social, procurando as suas razões. Em 2010, por caminhos semelhantes, o cineasta chamou a atenção mundial com o excepcional Reino Animal. Aqui, no entanto, ele leva ao máximo sua teoria de uma sociedade onde a violência se entranha cada vez mais, implantando a frieza humana em seus habitantes.
As referências críticas são muitas, e incluem a dominação norte americana (na Austrália futurística, os vendedores frisam que só aceitam dólares americanos), ao distanciamento entre as pessoas e ao sangue derramado como algo usual em um meio naturalmente violento. O que chama a atenção, no entanto, são as entrelinhas do roteiro, assinado por Michôd em parceria com o ator Joel Edgerton. São nos longos silêncios, no que os personagens observam, que boa parte da mensagem pretendida pelo diretor alcança seu êxito, ainda que parte desse silêncio seja quebrado em uma cena na delegacia, aproximadamente na metade do filme. Momento bonito, mas um tanto didático.
Felizmente, apesar disso, sobram momentos de pura inspiração, que permitem o protagonista, vivido por Gye Pearce, brilhar, através dos olhos marejados, cansados e desiludidos de Eric. È, provavelmente, seu maior momento desde 1997, quando protagonizou Los Angeles – Cidade Proibida. Mas é Robert Pattinson que rouba o filme para si. Se em 2012, ao atuar em Cosmopolis, ele mostrou que possuía talento (e que não era o inexpressivo visto na saga Crepúsculo), aqui o ator mostra que o acerto de dois anos atrás não foi obra do acaso, ou um fato isolado. A construção de Rey é feita em ritmo cadenciado, onde, aos poucos, Pattinson insere pequenos cacoetes que ilustram e aumentam sua perturbação e alienação, além da afeição genuína e fraternal que cria por Eric.
O final do filme expõe a violência da sociedade como uma doença, onde pequenos valores se perdem, e de onde talvez não se possa sair. O otimismo que falta ao olhar de David Michôd sobra, em segurança artística, ao narrar a saga de dois homens em uma caçada, se firmando como uma das grandes obras de 2014, complementada por excelente fotografia e trilha sonora.
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