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Imponente casarão foi palco da história e hoje guarda parte da riqueza de tempos passados do Rio Grande do Sul
Fazenda do Sobrado, um dos quarteis generais da Revolução Farroupilha, guarda a história gaúcha em São Lourenço do Sul
Entrar na Fazenda do Sobrado é como voltar no tempo. Tempo em que Bento Gonçalves, Giuseppe Garibaldi e tantas outras figuras lendárias povoavam o casarão que ainda hoje guarda a história épica da luta gaúcha pela liberdade. O prédio, perfeitamente preservado, está a 1 km do Centro de São Lourenço do Sul e é uma página viva da história da epopeia farroupilha.
Construído em 1790, o sobrado pertenceu a dona Anna Joaquina Gonçalves da Silva, irmã do general e presidente da República Riograndense, Bento Gonçalves da Silva. De estilo português, o casarão foi construído com tijolos feitos a mão pelas escravas e telhas de barro e sangue das charqueadas moldadas nas coxas dos escravos. “Os historiadores ainda indagam o fato de ser um sobrado, que não era comum. Talvez pela altura que facilitava a visão da Lagoa que era a grande estrada da época”, conta dona Ivany Serpa, atual proprietária da Fazenda e uma guardiã da história do importante casarão que foi a primeira casa construída onde hoje é São Lourenço do Sul e um dos primeiros sobrados no Rio Grande do Sul.
Don’Anna vivia na casa com o marido, José Lourenço do Costa Santos, e as três filhas. E a estância, em posição estratégica, acabou tornando-se importante cenário da Revolução Farroupilha. As margens do Rio São Lourenço, à época chamado de Arroio Grande, e a 800 metros da Lagoa dos Patos, o sobrado foi também um quartel general. “Aqui aconteciam grande reuniões do comando da guerra. Por sua localização, era um ponto estratégico na região”, conta dona Ivany. O local também era ponto de encontro da família de Bento Gonçalves. “Bento vivia com a esposa Caitana e os filhos na Estância do Cristal, onde hoje é o município de Cristal, e suas irmãs vivam, uma onde hoje é Camaquã, outra em Pelotas, e Don’Anna aqui. Então o sobrado era no meio do caminho e acabou tornando-se o ponto de encontro da família. Eram sete mulheres, além das crianças, e elas queriam, precisavam se encontrar, conversar durante os dez anos da guerra”, explica Ivany, relembrando que a casa era também onde muitas vezes, os homens da família reencontravam seus amores. “Don’Anna também promovia festas, ela tocava piano e todos dançavam. Daí a origem do Sarau, que nada mais é que uma reunião dançante em família”, detalha Ivany.
Defesa e refúgio para as tropas
O sobrado viveu durante a Guerra dos Farrapos também momentos de tensão. Garibaldi percebeu que a ligação do rio com a Lagoa era estratégica. Sem profundidade, o rio não poderia ser navegado pelas embarcações imperiais, o que facilitava o refúgio das tropas farrapas. “Ele construiu três pequenos lanchões aqui, para navegar no rio e esconder-se dos inimigos. Como o sobrado era alto, era possível ver os inimigos na Lagoa. E se o alto comando estava na fazenda e entendia que não era o momento de confronto, eles pegavam os lanchões e iam rio adentro, pois os imperiais não tinham como ir atrás”, conta Ivany. O sobrado era também um grande farol. Don’Anna costumava deixar um lampião ou vela acesos em uma das janelas para guiar os navegantes da Lagoa. E quando eles entravam no rio, a iluminação era apagada para não chamar a atenção dos imperiais.
Importância do casarão para São Lourenço
Tido como um homem de grande fé, o marido de Don’Anna, José Lourenço da Costa Santos, era devoto de São Lourenço. Ele tinha no sobrado uma capela ao santo de sua devoção e foi em homenagem ao primeiro morador local que na fundação, o município recebeu o nome de São Lourenço do Sul. Vem também da família farrapa o primeiro deputado lourenciano. Casado com Tereza, uma das filhas do casal, José Inácio de Oliveira Guimarães foi deputado constituinte. Também pela importância histórica, São Lourenço é o padroeiro do município e seu nome foi dado ao rio São Lourenço, que passa em frente ao casarão farrapo e que margeia a cidade.
Em perfeito estado de conservação, o sobrado, há 50 anos, pertence à família Serpa, que recebe visitantes para turismo rural, visitação ao casarão e também para festas, como casamentos, aniversários, além de reuniões e convenções. O grande casarão ainda guarda alguns artigos perfeitamente preservados, como o piano de Don’Anna. A imponte construção já foi cenário para filmes e minisséries, entre eles, A Casa das Sete Mulheres, da Rede Globo.
Mais do que um grande prédio, o casarão é um guardião que permanece vivo resguardando a história que tanto orgulha os gaúchos. “É muito bom viver aqui. Tem uma energia muito boa, perece ser uma casa com alma, é uma casa que tem história”, orgulha-se dona Ivany Serpa.
Redator: Tradição Regional
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