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10-03-2016

Batuque e tambor marcam velório de Naná Vasconcelos


Foto: Sumaia Villela/Agência Brasil No velorio de Naná Vasconcelos, além de flores estavam uma bandeira de Pernambuco, do Santa Cruz e e um estandarte do bloco de rua Galo da Madrugada

"Mesmo se eu morrer, não quero ninguém chorando, quero muito batuque, muito barulho, porque, se vocês fizerem silêncio, vou pensar que vocês estão dormindo e vou fazer como em casa, com minha esposa. Quando ela está dormindo, faço barulho para ela acordar. É a cigarra". Essa frase foi atribuída a Naná Vasconcelos pelo mestre Chacon Viana, da Nação do Maracatus Porto Rico, do bairro do Pina, Recife, que ouviu a brincadeira em uma reunião preparativa para o carnaval deste ano - o último de Naná. E assim foi atendido o desejo do artista: o tambor tocou e a saia rodou em frente à Assembleia Legislativa de Pernambuco, onde o corpo está sendo velado desde o início da tarde.


Naná jaz no centro do plenário da Assembleia, ladeado, todo o tempo, pela esposa e produtora Patrícia Vasconcelos e a filha Luz Morena, de 16 anos. Sobre o caixão, uma bandeira de Pernambuco – o músico nasceu no Recife – e uma do Santa Cruz, time de futebol pernambucano. Mais de uma dezena de coroas de flores colorem o espaço, e um estandarte do bloco de rua Galo da Madrugada guarda, do segundo andar, o velório do percussionista.



A família e os amigos usaram écharpes para homenagear Naná, uma peça que sempre fez parte de seu figurino. O próprio Naná vestia uma azul que trouxera de Israel. Patrícia Vasconcelos e a filha permaneceram serenas, apesar da tristeza. “A gente foi muito feliz e vai ser muito difícil, mas a gente sabe que muita gente vai dividir essa dor. O mundo está triste pela partida material, mas a música vai ficar”, se consola a esposa Patrícia.


Siga os sonhos
Luz Morena disse guardar as melhores lembranças do pai. E os melhores conselhos. O homem que seguiu seu sonho mundo afora, ao fazer música em vários países e com muitos parceiros de peso, não poderia desejar diferente ao destino de Luz. "Ele me chamou na UTI e disse para eu seguir meus sonhos", lembra a jovem, que pretende estudar design de moda no exterior. A outra filha, Jasmim Azul, mora nos Estados Unidos. A família não sabia se ela conseguiria chegar a tempo.


Além da écharpe, outra coisa que todos usavam era a palavra “humildade” para se referir ao artista. “Ele deixava claro que não tinha mestre ou melhor. O mestre estava no céu. E fez com que todas as nações tivessem uma só voz”, recorda Chacon. O maracatu do Pina, como dezenas de outros, tocava há 15 anos na abertura do carnaval do Recife, comandando por Naná Vasconcelos.


Humildade
Vestido todo de preto e com o capacete da moto preso à cintura, Edelvan Barreto, que trabalhou por 20 anos com Naná, contou que a característica mais marcante de Naná, além da humildade, era a generosidade em repassar seus conhecimentos. “Ele queria ensinar para as pessoas o que ele aprendeu sozinho, que é a música”, explicou, citando um dos ensinamentos do percussionista: “o primeiro instrumento é a voz, o segundo é o corpo. O resto é consequência”.


Naná Vasconcelos deixou conhecimento e também músicas inéditas, que vão compor um novo álbum que o músico pretendia lançar ainda este ano. Edelvan se lembra de uma delas. "A música Amém Amém, essa mensagem que ele deixou para essas pessoas que estão vivendo essa guerra, a peleja do dia a dia. O amor supera tudo". O artista pernambucano compôs mesmo internado, até os últimos dias de vida. Ele também faria uma turnê, em abril, na China, Japão, e Coréia do Sul.


Últimas homenagens
A Assembleia Legislativa de Pernambuco está aberta para quem quiser prestar as últimas homenagens a Naná Vasconcelos. Como fez a professora de culinária Zezé Melo, de 73 anos, moradora do Recife. “Ele sempre prestigiou muito o estado, representou Pernambuco muito bem. Espero que venham todos se despedir dele”, pediu.


A família estuda limitar a entrada durante a noite, a partir das 20h, para que as pessoas mais íntimas e os parentes possam ter mais privacidade. Amanhã, às 8h, a previsão é que a Assembleia seja reaberta ao povo. Uma missa de corpo presente será celebrada no local por volta das 9 h. Depois, o corpo de Naná Vasconcelos segue em cortejo para o Cemitério de Santo Amaro. Grupos de maracatu anunciaram que vão acompanhar o cortejo fazendo o que Naná sabia de melhor: a música.


Melhor percussionista
Juvenal de Holanda Vasconcelos, ou Naná Vasconcelos, nasceu no Recife em 2 de agosto de 1944. O pai, músico, lhe passou o gosto pela arte – e o filho começou cedo. Aos 12 anos já se apresentava em bares e participava de grupos de maracatu locais. Aprendeu primeiro a tocar bateria. Depois, berimbau. E não parou mais: ao longo da carreira, uma das características da sua percussão era usar qualquer objeto que produzisse um som interessante para compor seus trabalhos.


Naná começou a ser conhecido nacionalmente ao mudar para o Rio de Janeiro, na década de 1960, e tocar com o mineiro Milton Nascimento e o também pernambucano Geraldo Azevedo. Quando morou nos Estados Unidos e na França fez diversos trabalhos, inclusive trilhas sonoras para filmes, o que lhe rendeu, por oito vezes, o Grammy, um dos maiores prêmios de música do mundo. Entre as parceiras ao longo da carreira estão B.B. King e Ella Fitzgerald.


Fruto do aprendizado informal da música, sem nunca ter cursado nível superior, em dezembro de 2015, o artista recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).


Redator: Agência Brasil



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