S�bado, 13 de junho de 2026, 10:46h




Galerias

Especiais

Jornal Tradição

II Caderno Especial Fenadoce 2019 2019/06

Receitas

Tabule

Assine


Home Cultura e turismo

Cultura e Turismo

04-05-2018

Especial JTR: Graniteiros resistem ao tempo e à tecnologia em Capão do Leão


Foto: JTR Ferramentas são fabricadas por eles mesmos com mola de trem de um ferro mais resistente que o comum

Um sentimento de nostalgia inunda a paisagem do Cerro do Estado, em Capão do Leão, despertado pelo “tec tec” das ferramentas dos graniteiros, propagado através da mata. Descendo uma trilha mata a dentro, é possível encontrar um pequeno grupo, de três homens, que foram receptivos ao convite para conversar e contar suas histórias. São eles, Osvaldo Peres Dutra, de 75 anos, Delamar Maciel, de 70 e Paulo Roberto Soares Joaquim, de 50. Eles fazem parte de um grupo reduzido de graniteiros leonenses que ainda vêem a atividade como uma alternativa lucrativa.


Segundo eles, ainda há outros, poucos, pelo menos 30, mas já foram em maior número, remanescentes de uma profissão, que teve o seu auge com a exploração das pedras para a construção dos molhes do Cassino, em Rio Grande. Em pedaços, cortados pelas hábeis mãos dos graniteiros, uma verdadeira muralha de pedra foi transferida do Capão do Leão para Rio Grande, em vagões e caminhões. O que sobrou desta muralha, hoje se esconde sob a vegetação.



O vigor físico e o bom humor do grupo levam a crer que quebrar pedras, além de um bom exercício, é também uma ótima terapia. Maciel se concentra na retirada de moirões que irão reforçar os alambrados das estâncias de Santa Vitória do Palmar e outros municípios. “Já foram mais de dois mil só para Santa Vitória”, conta. Aposentado, a atividade ajuda a complementar a renda. “Extraio uns seis moirões por dia e vendo a R$ 30 cada um, o que garante um ganho de R$ 180 por dia”.


Maciel, que já se aventurou em outras atividades, pois foi agricultor e mestre de obras, chegou à conclusão que cortar pedras é o que sempre quis fazer. 


A conversa fácil nos mostra que quebrar pedras não é para qualquer um. É preciso conhecer cada parte da pedra e identificar onde está a trincante, o pioda, a seda, entre outros termos usados pelos graniteiros, na hora do corte. A experiência também lhes permite identificar qual pedra se presta ou não ao corte. 


Algumas se esfarelam já na explosão para a sua separação do bloco, diz o experiente Osvaldo Peres Dutra, que quebrou a sua primeira pedra, aos 13 anos. No entanto, eles garantem que não utilizam dinamite nas explosões, apenas pólvora é suficiente.


Conforme ele, o pai morreu com 36 anos, atropelado por um caminhão e deixou cinco filhos e a esposa grávida. “Eu fiquei no lugar dele para sustentar a família”, diz. Neste tempo todo, só parou de cortar pedras quando precisou servir o Exército.  De acordo com ele, é preciso entender de pedra para cortá-la e também saber usar as ferramentas certas, como o ponteiro, ponchote, escopo, recaladeira e maceta grande e pequena. Cada uma tem a sua função para garantir a uniformidade do bloco. Aliás, as ferramentas são fabricadas por eles mesmos, com mola de trem, que segundo contam, é de um ferro mais resistente que o comum.


Também usada em construções de prédios, visíveis em todos os recantos do município, a pedra aos poucos vem sendo substituída pelo concreto e tornando a atividade cada vez menos atrativa, o que lamentam. Além disso, os órgãos ambientais estão cada vez mais rigorosos com a liberação das pedreiras. O mais jovem deles, Paulo Roberto Joaquim, está há 14 anos na atividade e acredita que esta é a última geração de graniteiros. Segundo ele, não há qualquer interesse entre os jovens pela atividade.


O Cerro do Estado recebeu este nome por causa da instalação do Departamento Estadual de Portos, Rios e Canais (Deprc) para a exploração da pedreira visando à construção dos molhes. O local, hoje habitado por meia dúzia de famílias, tem um ar bucólico e os sinais de que já foi uma localidade pujante estão por toda a parte. 


Os velhos guindastes utilizados para levantar as pedras repousam sobre os trilhos enferrujados, a maioria escondida sob a vegetação. Os galpões de madeira e alvenaria utilizados como depósitos estão vazios e deteriorados pelo tempo. Uma pequena igreja, construída com pedras, em homenagem à Santa Luzia, a protetora da visão e dos graniteiros, é um dos poucos prédios que ainda recebem atividades. O local pertencente a uma comunidade católica realiza missas periódicas. Também são realizadas celebrações de Natal e chegada do Papai Noel. 


A pedra está presente em toda parte, em trilhas, muros, pisos e também em uma capelinha enfeitada com conchas de caramujos do mar e flores, que abriga uma pequena imagem da Santa protetora. Os moradores são os guardiões do patrimônio que o Estado deixou à mercê do tempo.


 


Um pouco da história do Cerro do Estado 


*Fonte: Blog Capão do Leão História e Cultura, produzido pelo professor historiador Joaquim Lucas Dias dos Santos e mantido pelo leonense Arthur Victória Silva


 


O governo estadual resolveu dar início aos trabalhos na construção dos molhes, em 1890, com recursos próprios. Levou oito anos para começar a obra e mais de sete de trabalhos, na construção de apenas 95 metros do molhe leste. As pedras nesta época vinham de uma pedreira em Itapuã, próximo a Porto Alegre, a 260 quilômetros de distância. O esquema de trabalho não resistiu muito tempo e os engenheiros desistiram.


Em 1905, com a obra orçada em 18 mil contos de ouro, tendo como liderança o engenheiro americano Elmer Corthel, que tinha melhorado a Barra do Mississipi nos Estados Unidos, trouxe um grupo de capitalistas americanos e propôs ao Governo a criação de uma empresa que constituísse, em seis anos, um porto marítimo e abrisse um canal de 10 metros de calado, entre a lagoa e o oceano, em troca da exploração deste por 70 anos. A companhia denominou-se “port of Rio Grande”. Mal começaram as obras e os capitalistas nortes americanos desistiram.


Em 1908, o projeto saiu do papel com a “Compagnie Française du Port de Rio Grande do Sul”, passando a ser uma das dez maiores obras hidráulicas do mundo. Na verdade, para bancar uma obra de tal envergadura, a companhia era constituída por um consórcio de firmas francesas. O contrato previa mil dias úteis de trabalho para a realização dos molhes.


A primeira providência dos franceses foi pesquisar na região onde havia granito. As reservas mais próximas estavam em Capão do Leão e Monte Bonito. Os franceses construíram 128 quilômetros de ferrovias, só para transportar o granito.


Em 1911, começou a colocação de pedras na Barra. Para cada um dos molhes, trouxeram da França um gigantesco guindaste chamado de “Titan”, com capacidade de levantar um vagão inteiro de pedras de 30 toneladas.


Após dificuldades ocasionadas por ressacas e tempestades, os molhes ficaram prontos, consumindo quatro milhões de toneladas de granito no mar até 1915, o molhe leste, com 3.940 metros e o oeste com 4.012 metros, os dois com três metros acima do nível do mar. Os molhes são duas linhas convergentes com 725 metros de distância entre as pontas, onde estão localizados os faróis de sinalização à navegação.


A história do Cerro do Estado e seu desenvolvimento está diretamente ligada à construção dos Molhes da Barra do Rio Grande, que se denominou assim devido ao Estado encampar a área para a exploração do granito. A partir de 1908, o local passou a ter outra dimensão com a chegada de um grande número de homens para construir a infraestrutura desejada pela companhia francesa, inclusive uma usina termoelétrica para abastecimento de energia para todo o complexo montado na pedreira, principalmente para o funcionamento dos guindastes, importados da França na década de 10, juntamente com duas locomotivas Maria Fumaça.


Com o término da construção dos molhes da barra rio-grandina, a companhia francesa abandonou a exploração das pedreiras, mas ali permaneceu a maioria dos operários contratados, muitos com filhos nascidos no local e que passaram a trabalhar para outros patrões.


 


Redator: Tradição Regional



Outras notícias desta editoria

Comentários (0)





Fechar  X

Especial JTR: Graniteiros resistem ao tempo e à tecnologia em Capão do Leão





O Jornal Tradição Regional não se responsabiliza pelo conteúdo do comentário e se reserva ao direito de eliminar, sem aviso prévio ao usuário, aqueles em desacordo com as normas do site ou com as leis brasileiras.


Serão vetadas as mensagens que:


  • Não tratarem do tema abordado na notícia;
  • Sejam repetidas as enviadas pelo mesmo leitor, ainda que com outras palavras;
  • Tenham intenção publicitária, de propaganda partidária, eleitoral ou comercial;
  • Tenham conteúdo ou termos obscenos ou ofensivos;
  • Incentivem racismo, discriminação, violência, medo ou outros crimes;
  • Promovam participação de correntes, spams ou lixo eletrônico.


As opiniões expostas não representam o posicionamento do Jornal Tradição Regional, que não se responsabiliza por eventuais danos causados pelos comentários. A responsabilidade civil e penal pelos comentários é dos respectivos autores. O usuário tem ciência e concorda expressamente com a prerrogativa de restringir quaisquer conteúdos que violem ou que possam ser interpretados como violadores às disposições do presente instrumento.

Enviado com sucesso!

Em breve, o Jornal Tradição
Regional entrará em
contato com vocé.

ok

Fechar  X

Especial JTR: Graniteiros resistem ao tempo e à tecnologia em Capão do Leão


Enviado com sucesso!

ok


Jornal Tradição Regional - O elo da notícia até você.

Av. Imperador Dom Pedro I, 1886, sala 1 - Bairro Fragata - CEP: 96030-350 - Pelotas/RS

E-mail: [email protected] / Telefone: (53) 3281 1514

© Todos os direitos reservados