Sexta, 05 de junho de 2026, 09:57h
Home Cultura e turismo
No município de Turuçu, desde a sua emancipação, o mês de fevereiro é marcado pelo início da colheita da pimenta, cultura que conferiu à cidade o título de Capital Nacional da Pimenta Vermelha.
Conhecida por Vila Arthur Lange ou Vila Lange, a pequena localidade, motivada pelo crescimento populacional e o franco desenvolvimento econômico proporcionado pelo curtume de peles e couros, respirava ares de emancipação. Em 1995, um grupo de moradores mobilizou-se e conquistou o direito de realizar um plebiscito, que apurou votação favorável à emancipação política do distrito.
O cultivo da pimenta sobrevivia em meio à criação de gado e às lavouras de arroz e soja. Contudo, os produtores locais se limitavam a vender a pimenta - depois de desfiada em moinhos rústicos e seca ao sol na pedra - para compradores de indústrias de São Paulo.
A mudança de rumo na história da pimenta começa precisamente no ano 2000, na gestão de Selmira Fehrenbach, segunda prefeita do município. Disposta a modificar a matriz agrícola, ela sonhava em agregar valor à pimenta, produto exclusivo de Turuçu na região.
Após contato com a extensionista da Emater, Dalgisa Philipsen, a chefe do Executivo desafiou a profissional a criar algum produto para agregar valor à pimenta vermelha. Dalgisa, por sua vez, para dividir a missão, procurou o professor Marcelo Peter, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que na época fazia doutorado e estava trabalhando com pesquisas no Colégio Agrícola Visconde da Graça.
Do trabalho de Dalgisa e Marcelo resulta então a primeira geleia de pimenta, produto que serviu como base para a cadeia produtiva das agroindústrias pimenteiras.
Geografia
Surge então um novo cenário, a geografia do município começa a mudar. As áreas baixas de Turuçu, à direita da BR-116 em direção a capital, local denominado colônia Azevedo e Vila Fetter tem a paisagem alterada, destacando a pimenta entre o arroz, o gado e a soja. No entanto, não permaneceu por muito tempo em razão da antracnose.
A região de terras baixas tornou o fungo da antracnose fortalecido pelas mudanças climáticas intensificadas pelo calor e pelas chuvas, gerando mais umidade no verão, período em que amadurecem as vagens das pimenteiras.
Com a experiência negativa de colheitas frustradas e prejuízos financeiros, dezenas de produtores abandonaram a cultura ou diminuíram a área de plantio. De 200 hectares plantados no final do século XX, restaram apenas 70 hectares em 2004, segundo dados da Embrapa Clima Temperado.
BR-116
A pimenta finalmente atravessa a BR-116 em direção às colônias São Domingos, São João, São José, Santa Clara, Corrientes, Palmeira, Picada Flor, Passo do Lagarto e outras localidades.
Terras mais altas, menor índice de umidade e o interesse de outros produtores, dentre outros fatores, fizeram com que o plantio deixasse de ser extensivo. A pimenta passou a ser cultivada em pequenas áreas, com possibilidade de rotação, consorciada com outras culturas.
A partir de então, início dos anos 2000, entra em cena a implantação das primeiras agroindústrias e também o sistema cooperativo, além da participação efetiva da mulher na cultura da pimenta.
Casa da Pimenta
A Casa da Pimenta foi aberta em 21 de abril de 2005. Na época, era a loja onde turistas compravam produtos, tanto in natura quanto industrializados. Atualmente, sua finalidade continua a mesma.
Fundada em 2007, a Cooperativa das Atividades Agroindustriais Artesanais dos Agricultores Familiares de Turuçu (Cooperturuçu) se uniu a casa.
Mulher
Raquel Scheunemann Ollermann é filha de produtores rurais e tinha como meta cursar Odontologia, até o dia em que o encanto pelo campo foi mais forte. “O interesse pelo cultivo de plantas, participando do processo desde o plantio da semente, acompanhar o crescimento, observar o nascimento dos frutos e depois colher, me despertou uma paixão”, afirma a jovem produtora.
Já Vera Tuchtenhagen traz no DNA o empreendedorismo. Atual presidente da Casa da Pimenta - Cooperturuçu, sucedeu sua mãe, Verônica, no cargo, mas seguem juntas nos negócios da família.
Graduada em Química de Alimentos, Vera tem satisfação do trabalho que levou os produtos da Sabor da Colônia, a agroindústria da família, aos grandes centros consumidores do país.
Variedades
Atualmente são produzidas as seguintes variedades: Dedo de Moça, Biquinho, Jalapeña, Malagueta, Habanero, Bhut Jolokia, Cumari, Trinidad, Caiena e Carolina Reaper, sendo essa última a pimenta mais forte do mundo, conforme a escala de Scoville, que é usada para medir o grau de ardência ou pungência de plantas Capsicum.
Colheita
A colheita ainda é feita manualmente e acontece de fevereiro até o início de maio, demandando a mão de obra humana.
Na colheita, a pimenta é medida em latas. Uma lata tem 7 quilos e depois de seca rende 1 quilo. Quem trabalha colhendo recebe por quilo colhido, lembrando que, quando a pimenteira está carregada é possível colher boa quantidade de pimentas.
A maior parte da produção é destinada às agroindústrias do município, que nas últimas décadas cresceram em número e consumo. Atualmente mais duas estão em construção.
Na propriedade de Raquel, 60% da produção é da variedade Dedo de Moça e os 40% restantes se dividem em outras variedades. Ela atende boa parte da demanda do mercado fora do município com a venda do produto in natura.
Além das agroindústrias, outro mercado consumidor de pimenta são os frigoríficos que produzem embutidos e utilizam a pimenta como tempero.
Pioneirismo
A chefe do escritório municipal da Emater de Turuçu, a médica veterinária Alessandra Storch, lembra que Turuçu foi pioneiro ao instalar a primeira máquina desidratadora de pimenta da Região Sul. Criada com tecnologia social da entidade, o equipamento foi instalado na agroindústria Sabor da Colônia, uma das pioneiras em processamento de pimenta.
A Emater atua em parceria com a prefeitura, auxiliando o produtor em todas as etapas, desde o início do processo de industrialização até a formulação da tabela nutricional dos alimentos. A prefeitura e Emater contam com a colaboração da Embrapa, que contribui para a fitossanidade dos produtos através de pesquisas e análises que permitem identificar doenças e fungos que atingem a plantação.
Turismo
A pimenta impulsionou a agricultura familiar e a criação das agroindústrias. Deu início ao cooperativismo no município e incentivou a produção de morango, sendo pioneira na região com o plantio de morango fora do solo.
Mas a pimenta foi o produto que, através da Casa da Pimenta, na margem da BR-116, colocou Turuçu no roteiro turístico da região. Ali, chefes da gastronomia nacional desembarcam para conhecer e comprar as pimentas produzidas em solo gaúcho.
A Casa da Pimenta foi o caminho para que, hoje, as iguarias possam ser encontradas em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e em outros grandes centros do país e fora dele.
O turismo e a pimenta são, sem dúvida, algo único na cidade, onde um seguirá contando a história do outro.
Redator: Tradição Regional
Fechar X
Fechar X
Av. Imperador Dom Pedro I, 1886, sala 1 - Bairro Fragata - CEP: 96030-350 - Pelotas/RS
E-mail: [email protected] / Telefone: (53) 3281 1514
© Todos os direitos reservados