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10-05-2019

Pelotas: Yolanda Pereira e a beleza atemporal da memória


Foto: Victória Salomão/JTR Acervo sobre Yolanda Pereira está exposto no Clube Caixeiral

No centro histórico de Pelotas, o tempo é híbrido. Paralelepípedos seculares encontram-se com o asfalto e modernos prédios dividem quadras com museus. A arquitetura do lugar não tem só valor de abrigo e mobilidade, mas também de ilustração do que é imaterial: a memória. Na última quinta-feira (9), o Clube Caixeiral, fundado em 1879, hasteou sua bandeira e abriu suas portas à comunidade com seu acervo sobre a “senhorita” Yolanda Pereira, Miss Universo 1930, sendo justamente palco de encontro entre a história do século passado e a contemporaneidade - um público orgulhoso, com câmeras e smartphones em punho para registrar a ocasião.


Na Sala de Honras do clube, Yolanda foi apresentada ao público através de um monumento de seu busto, fotos de sua época de Miss Caixeiral, capas de jornais da década de 1930 que seu rosto estampou já como Miss Universo e também elementos interessantes, como uma correspondência que recebeu do então presidente Getúlio Vargas. Mas foi dias antes, na terça (7), que a cidade, em 2019, reencontrou-se com ela, mais precisamente, com uma cápsula de objetos que deixou para o futuro. 



“Como a Yolanda foi apresentada à sociedade pelo Clube Caixeiral, nós não poderíamos deixar passar em branco esse momento em que a cidade vive essa espera para ver o que há na ‘cápsula do tempo’ da Miss. Então, a diretoria determinou em reunião que era hora de celebrar essa mulher que levou o nome da cidade para o mundo. É a primeira vez que expomos esse material”, explica o presidente do clube, Victor Siqueira, sobre a ideia do projeto.  


A “cápsula do tempo” trata-


se de uma urna enterrada em 1931 pela Miss, na ocasião de inauguração do monumento em sua homenagem na praça Coronel Pedro Osório, em ato promovido pelo clube e jornal Diário Popular, para deixar enterrado sob ele objetos que marcavam a história de Yolanda como a mais bela jovem do mundo.  Os planos à época era desenterrá-la na década de 1980, entretanto, foi somente nesse mês que isso ocorreu. 


A iniciativa de resgatar essa história partiu do arquiteto e mestrando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Guilherme Almeida, fascinado pelo passado pelotense e pela irreverência de Yolanda. Depois de ler um almanaque de 1932 levantando os principais fatos de 1931, Almeida tomou conhecimento da cápsula e descobriu que ela ainda não havia sido desenterrada e, por isso, estava na praça. Pesquisador e defensor do patrimônio como memória, o arquiteto então fez um dossiê sobre o material em abril de 2018 e encaminhou à prefeitura. 


“Estou desde o ano passado com essa pesquisa para desenterrar a ‘cápsula do tempo’ e esse mês foi o momento propício, em função das obras de paisagismo que estão sendo feitas na praça Coronel Pedro Osório. A obra está sendo feita em segmentos e essa semana foi a vez justamente da parte onde estava a caixa. Como já iriam arrumar o entorno do monumento, a prefeitura e a Secretária Municipal de Cultura abraçaram a minha proposta”, explica. 


A urna foi encaminhada para o Executivo e um grupo de restauradores do Museu da Baronesa está responsável pelo manejo. Ainda não foi possível a abertura, mas hoje (10), os profissionais realizarão um raio-x no material. De acordo com almanaque da época, a caixa deve conter um exemplar do jornal Diário Popular do momento, um Almanaque de 1931, uma foto da Miss assinada por ela e a forma de moedas que seriam produzidas em sua homenagem.  


A Miss Yolanda Pereira 


 “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza”, diz Vinícius de Moraes nos primeiros versos do Soneto da Mulher Ideal do século passado. Eternizada em livros e músicas, a máxima do poeta é contraditória: insere-se em um poema que exalta um padrão de “mulher ideal” e contesta a sociedade da década de 1930, de ode à beleza física feminina. Assim como a transgressão poética da “senhorita” pelotense, Yolanda Pereira, que na mesma época desfilava com a faixa “Miss Universo 1930”. 


A contravenção poética de ambos é peculiaridade de uma boa arte e nomes que permanecem na história.  Se Vinícius anteviu certo empoderamento feminino, Yolanda personificou não só isso, mas um protesto nacional: foi a primeira Miss Universo, através de um concurso criado por brasileiros, como protesto ao International Pageant of Pulchritude (Desfile Internacional de Beleza), então único concurso internacional da época. 


Além disso, na vida privada, Yolanda tomava, para a primeira metade do século XX, atitudes irreverentes para uma mulher: dirigia o próprio carro, praticava esportes e usava de um raciocínio rápido e intelectual em suas entrevistas. 


Redator: Tradição Regional



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