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Cultura e Turismo

20-09-2013

O orgulho de carregar no corpo a tradição


Foto: Laís Soares/JTR É em Piratini que fica a maior fábrica de bombachas do País, a Shamsa

Alguns povos são reconhecidos pelo jeito característico de falar. Uns puxam pelo “r”, outros pelo “s”, ou ainda existem aqueles que misturam gírias e expressões regionais às conversas cotidianas. Existem também tribos que independente de onde vão deixam marcas de seu costume, cultura e tradição.


Mas que povo é esse que vive sua herança histórica seja nas roupas, nas bebidas ou na gastronomia, e que independente de estar no seu habitat natural compartilha seu mate amargo até mesmo com estranhos? Que pessoas são essas que vestem sua indumentária completa, verão ou inverno, e saem às ruas de peito estufado, cabeça erguida e orgulho no rosto, por vestir o espelho da tradição e as marcas de uma luta perdida em 1845 e ganha ao longo dos últimos 168 anos.



Que povo é esse, capaz de se destacar de forma tão marcante em um País como o Brasil, diverso em etnias, culturas, dialetos e gastronomias? Que não só hoje, 20 de setembro, se farda com camisa, bombacha, bota, lenço e chapéu, e sai as ruas para festejar a força de um povo que lutou pelo que acreditava e desde lá mostra a garra para conquistar seus objetivos?


Que pessoas, entre as mais de 200 milhões que vivem no Brasil, carregam tantas heranças juntas e podem ser reconhecidas não só pelo jeito de falar e de se portar, mas também de se vestir? Estamos falando de ti gaúcho, que além dos “bah..”, “tchê”, “tri”, “capaz”, mostra no corpo o orgulho de ter nascido nessa terra e considera o que muitos chamam de fantasia, uma segunda pele, uma identidade.


A pilcha, o traje típico do gaúcho, surgiu da necessidade de uma roupa que se adaptasse ao estilo de trabalho e de vida do povo da região e é a expressão mais evidente da tradição. Seja em qualquer lugar do mundo, ver alguém de botas, bombachas, lenço no pescoço e chapéu na cabeça é ter a certeza que ela vem do Sul e mais do que isso, que ostenta com orgulho sua tradição. Pra usar a vestimenta não é necessário estar dentro de CTG’s, pelo contrário, em centros, praças e até mesmo em eventos sociais o tradicionalismo pode ser visto e isso por que, desde que surgiu, vem sofrendo influenciais históricas, sociais e culturais, que permitem ao povo desfrutar de suas culturas em qualquer ocasião.


A indumentária é composta de diversos instrumentos e são eles os responsáveis por dar ao traje um ar de elegância e cuidado. Mas tu gaúcho, que sai hoje às ruas para declarar teu orgulho ou que incorporou as vestes no teu cotidiano, sabe exatamente o que são, de onde surgiram e por quem eram usadas?


O Gaúcho Primitivo


Os primeiros habitantes do Estado foram padres jesuítas vindos da Espanha. Com a chegada dos estrangeiros, os nativos perderam parte de suas identidades locais e incorporaram os costumes e padrões dos “brancos”. O gaúcho primitivo do século XVIII usava chiripá, um tipo de saia longa no formato de um retângulo, enrolada na cintura e aberta na frente, cobrindo os joelhos. O chiripá é preso por uma faixa, nas cores azul, encarnada ou verde. O gaúcho primitivo também usava a faixa com mais de 20 centímetros de largura e mais de 50 cm de comprimento, na cor escura, além da guaiaca, uma espécie de bolsa pequena feita de bucho de avestruz. Os pés eram nus e o chapéu, de abas curtas, era de feltro ou palha. Havia também um poncho de lã rústica, com abertura para a cabeça, chamado de bichará.


O Gaudério


O termo gaudério começou a ser usado no século XIX para designar o antigo gaúcho, e em sentido depreciativo, como um índio vago. Sua vestimenta era composta basicamente de camisa de algodão grosseiro, chiripá, ceroulas, com ou sem franjas, lenço, usado no pescoço ou na cabeça, poncho, jaqueta, chapéu de feltro ou palha. Quando não estava com os pés nus, usava botas de garrão de potro, além de um cinturão de couro, pala, uma espécie de capa com abertura no centro, e esporas.


Estancieiro


O estancieiro, também no século XIX, usava camisa, jaqueta, lenço, faixa, cinturão, ceroulas com franjas, pala ou poncho sem golas, calções, botas de garrão ou de couro escuro, esporas, chapéu e barbicacho de lã. O barbicacho é uma tira de couro passada por baixo do queixo.


As mais incorporadas atualmente


Dentre tantas opções, algumas peças estão bem enraizadas e frequentemente fazem parte do vestuário de quem vive no Estado. Tu sabes quais são elas?


Alpargatas


Também chamadas de alpercatas, são sapatos sem saltos, feitos de lona e com solado de corda. Em 1870 um espanhol começou a vendê-las na Argentina e, inicialmente, eram utilizadas para o trabalho rural, em casa ou durante o veraneio. As primeiras vendidas no Brasil eram feitas como sandálias de couro, presas aos pés por correias. Atualmente, são difundidas por todo o País e utilizadas tanto por homens como por mulheres e em situações diversas.


Botas


As botas dos gaúchos são feitas da pele inteira das patas, acima dos garrões, de burros e potros. Tanto o couro das patas quanto das mãos era usados, já que assim podia se fazer as botas menores das crianças. O tipo de bota vai depender da região do Rio Grande do Sul, havendo o tipo militar, cano liso e taco.  As cores geralmente são marrom, preta, marrom-avermelhado, ou sem tingimento.


Chapéu/boina


Os tipos de chapéus utilizados no Estado variam também conforme a região. Na campanha usa-se a aba mais estreita e a copa baixa, já nas Missões o chapéu tem aba larga e copa baixa. Na região serrana a aba é média, e batida dos dois lados. Há também o chapéu tipo tropeiro, de aba larga, reta e com a copa tipo escoteiro. Além do chapéu o gaúcho também utiliza a boina, de origem basca, incorporada pelo campesino da fronteira, pelos gaúchos uruguaios e argentinos. Alguns costumes reprovam que o gaúcho dance com o chapéu na cabeça, sinalizando falta de educação e falta de cortesia.


Lenço


O lenço pode ser usado no pescoço ou na cabeça. Existem diversas opções de nós e os mais conhecidos são: “de correr ou de namorado”, “rapadura”, “nó republicano”, “comum”, “de ginete” e de “três galhos”. As cores designavam os partidos políticos. O lenço branco fazia referencia aos Chimangos, a ala radical do Partido Liberal no I e II impérios, já o lenço vermelho identificavam os Maragatos, partidários do parlamentarismo defendido por Gaspar Silveira Martins, na Revolução Federalista de 1893, e que depois virou Partido Libertador.


Bombacha


O termo vem da palavra em espanhol “bombacho”, que significa calças largas. Não há uma data específica para a entrada da peça na indumentária tradicionalista. Alguns dizem que a roupa foi trazida pelos maragatos da Espanha, já outros falam que a bombacha seria uma cópia ou a sobra de guerra dos uniformes usados no conflito da Criméia, mas o que se sabe é que ela foi generalizada no Rio Grande do Sul, em 1870, depois da Guerra do Paraguai. Mas só em 1989 passou a ser considerada roupa social, através de uma lei do governador Amaral ferrador. De acordo com a Lei Estadual da Pilcha, o conjunto de vestes tradicionalistas, tanto masculino quanto feminino, pode substituir trajes sociais em qualquer ocasião formal que ocorra no Estado, inclusive em reuniões nas Assembleias Legislativas estadual e municipal, desde que esteja dentro das recomendações do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).


Como já era de se esperar, é aqui no Rio Grande do Sul, mais especificamente em Piratini, que fica a maior fábrica de bombachas do País. Samir e Luzia Saleh, moradores da cidade, viam homens, mulheres e crianças usarem a peça em diferentes situações e decidiram que a primeira capital farroupilha seria o berço ideal para produzir uma das mais tradicionais vestimentas do gaúcho. Em 1991, ainda com uma produção discreta, criaram a Shamsa. Ao longo dos 22 anos o mercado cresceu e atualmente contam com cerca de 100 colaboradores, em um espaço de 2700 m². Segundo Luzia, as bombachas Shamsa são enviadas para todo o Rio Grande do Sul, além de santa Catarina. “Já mandamos bombachas até para os Estados Unidos e China”, orgulha-se ela.


“Temos público de todas as idades. Os pais orgulham-se em vestir os filhos com o traje gaúcho, já vendemos até para bebês recém-nascidos saírem do hospital. A cultura gaúcha se perpetua”, destacou uma das filhas do casal, que ao lado dos pais trabalha na loja.


E quem pensa que as prendas ficaram de fora das criações dos Saleh’s está enganado. Ao contrário do que acontecia no século XIX, quando os trajes femininos urbanos eram vestidos e xales, a bombacha feminina veio para dar a mulher gaúcha mais conforto e mobilidade, além de mantê-la na tradição sem perder a feminilidade. “A bombacha deixa a prenda mais leve, seja para ir num rodeio ou andar a cavalo”, destacou Luzia.


Mas mesmo com a facilidade da bombacha, os vestidos não saíram de moda, pelo contrário, são pensados com cuidado por serem parte fundamental em apresentações e eventos tradicionalistas. Para acompanhar o traje, elas usam nos pés sapatos fechados na frente com um pequeno salto, além de saias godê e de armação. Essas peças completam o traje típico da mulher gaúcha, que usa sempre os cabelos semi presos, com tranças e arranjos. Mas se elas forem participar de cavalgadas, as práticas bombachas são acompanhadas de casacos abotoadas e chapéus com fitas e flores.


*Com informações retiradas do livro Indumentária Gaúcha


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