Domingo, 05 de julho de 2026, 14:46h
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De acordo com a Secult, cerca de 55 mil pessoas passaram pelo Mercado Central até a quinta-feira (14)
A grandeza de um evento como a Feira do Livro, que divulga e incentiva a cultura, além de aproximar da literatura pessoas de diferentes idades e classes sociais, deu espaço a discussões, elogios e críticas. O motivo: a instalação das livrarias. Surpreendendo a muitos, a 41ª edição do evento saiu da praça Coronel Pedro Osório, onde era tradicionalmente realizada, e foi para dentro do Mercado Central. A decisão, acordada entre a Câmara Pelotense do Livro e a Prefeitura de Pelotas, através da Secretária de Cultura, foi divulgada no início de outubro, e desde lá dividiu opiniões. De um lado, visitantes e expositores fixos do local, que enxergam diversos benefícios na medida. De outro os livreiros, que já calculam os impactos da mudança. E no meio a prefeitura, que além de justificar a transferência de local, se diz aberta ao diálogo para o próximo ano.
Ao caminhar pelo interior do prédio histórico, é possível ver além das livrarias, que ocupam temporariamente o espaço, bancas de diversos segmentos. Por entre os corredores, crianças correndo, jovens andando em grupos de amigos, adultos aproveitando o clima favorável para conhecer uma nova obra literária e idosos desfrutando das sombras e do frescor que o local oferece. O Mercado Central reviveu. É assim que Denise Martins, vendedora de uma loja de bazar instalada dentro do local, define o atual momento. “Muita gente achava que o mercado nem tinha aberto ainda. Mal entravam. E quando entravam, mal olhavam, porque ainda são poucas as bancas. Agora as pessoas vêm comprar livros e já levam uma lembrança, um presente, principalmente quem vem de outras cidades. E mesmo depois que a Feira acabar, as pessoas saberão o que tem aqui”.
Levar o público para dentro do prédio, reinaugurado no primeiro semestre deste ano, foi uma das razões apresentadas pela prefeitura para que o local sediasse a Feira do Livro. “Nunca fomos contra realizar a Feira na praça, desde que não tirasse a mobilidade das pessoas que passam por ali todos os dias e houvesse uma readequação das bancas, já que nos últimos anos o evento cresceu muito”, destacou o gerente de livros e literatura, da Secretária de Cultura, Lúcio Xavier ao enfatizar também que, ao contrário da Prefeitura de Porto Alegre, que arcou com 10% dos custos da Feira do Livro da capital, a Prefeitura de Pelotas foi responsável por 80% do valor investido no evento pelotense e por este motivo não poderia pensar só nos interesses dos livreiros, mas em algo que beneficiasse um número maior da sociedade e principalmente o município em si, que continuará colhendo os frutos da Feira mesmo depois do seu término.
Alguns desses benefícios já podiam ser observados nas conversas de quem caminhava entre uma banca e outra ou aproveitava as docerias para tomar um café e analisar o ambiente. Não era preciso muito esforço para escutar elogios a um dos principais sinônimos da história pelotense. As professoras Fernanda Souza e Juliana Farias, que acompanhavam cerca de 25 alunos da Escola Santa Rita, aproveitaram a Feira do Livro para visitar o prédio depois de reaberto e não mediram elogios . “Não tinha vindo aqui [Mercado] depois de reinaugurado. O lugar ficou arejado, muito agradável, além de disponibilizar produtos que valorizam a região”, destacou Fernanda. Sobre a polêmica gerada em torno do local para Feira, Juliana é enfática: “Toda mudança gera impacto, isso é normal no início. Depois as pessoas acostumam, e mesmo que a Feira volte para praça ano que vem, já terá contribuído para que muitas pessoas que não tinham costume de frequentar o mercado, conhecessem o local”.
Em relação à fusão Feira do Livro e Mercado Central, a questão segurança é unanimidade entre os visitantes, principalmente para quem acompanha crianças, como Rudiele Araújo, do Centro de Referência de Assistência Social de Arroio Grande. “Parece que a Feira ficou mais organizada aqui e para gente que traz crianças, ficou melhor, mais seguro e mais fácil de cuidá-las”. Esse foi um ponto também observado por David Jeske, gerente da Imperatriz Doces Finos, instalado no mercado há menos de um mês. Ele acredita que oferecer mais segurança é um bom motivo para atrair as pessoas.
Nisso, visitantes, expositores e livreiros concordam. O sócio administrativo da Livraria Mundial, presente na Feira desde a primeira edição, em 1960, diz que neste ano não foi preciso gastar com seguranças, o que sempre acontecia na praça, mas ainda assim Marcos Macedo não acha que a mudança de local tenha sido positiva para o evento, no que diz respeito ao objetivo principal de uma Feira do Livro, que é abraçar pessoas que não costumam entrar em uma livraria e que aproveitam os dias de evento para comprar, muitas vezes, o único livro adquirido em um ano. “Quem frequentou a Feira do Livro este ano foram as mesmas pessoas que frequentam a livraria no centro da cidade. Percebemos que a Feira ficou mais elitizada. Antes as pessoas vinham ver, ter um contato mais íntimo com a literatura. Agora as pessoas já vem decididas a comprar, porque já estão acostumadas com esse universo”.
Ainda segundo Macedo, mesmo o movimento tendo diminuído, em relação ao ano passado, as vendas se mantiveram e ele justifica isso com o poder aquisitivo dos frequentares dessa edição. “Vendemos menos quantidade, mas o que vendemos eram obras mais caras”. Já André Souza, proprietário da Cia dos Livros, presente na Feira há oito anos, já calcula a queda nas vendas. De acordo com ele, a redução ficou em torno de 15% em relação à última edição e pelo mesmo motivo, público reduzido. Além disso, Souza destaca que os prejuízos não foram só comerciais, mas também culturais. Devido o espaço ser menor, o acervo literário foi reduzido. “Não tivemos como trazer muita variedade. O espaço é pequeno e nos impediu de oferecer aos visitantes uma qualidade maior em acervo”.
Se entre os visitantes os benefícios foram maioria, entre os livreiros a opinião não é a mesma. “Muitas vezes quem só estava passando pela praça via algo interessante, parava e comprava. Aqui no mercado é diferente, as pessoas precisam se deslocar com essa finalidade, para vir á Feira do Livro. E infelizmente sabemos que nem todo mundo se sente a vontade em um lugar relacionado a literatura e livros, por achar que não combina com sua classe social. Perdemos essas pessoas esse ano”, complementou Souza.
Essa e outras questões foram levantadas por representantes das instituições promotoras em um encontro realizado na terça-feira (12), na Bibliotheca Pública Pelotense. Mesmo o local da próxima edição sendo um dos assuntos mais debatidos, o período de realização, a responsabilidade das edições futuras e a possível padronização das bancas também foram discutidos. Presidindo a mesa, a vice-prefeita, Paula Mascarenhas, reinterou que a prefeitura só buscou o melhor para a comunidade pelotense, visto que há investimento público. Novos encontros serão realizados ao longo do ano, para que nas próximas edições as divergências entre as entidades promotoras sejam mínimas e embates como os que tiveram esse ano não desviem a atenção da população para a finalidade do evento, que é promover a cultura e incentivar a leitura desde os primeiros anos.
A Feira
A 41ª Feira do Livro de Pelotas iniciou no dia 31 de outubro e vai até o próximo domingo (17). Nesta edição, trouxe o tema “Poetize sua vida” e homenageou Francisco Lobo da Costa, que neste ano completaria 160 anos. Além disso, foram desenvolvidas diversas atividades culturais, como palestras, exposições, apresentações artísticas e oficinas, que incentivaram o gosto pela literatura e pela poesia, ofício do homenageado deste ano. O Mercado Central sediou a edição histórica e cerca de 20 bancas foram ocupadas por livrarias, além dos estandes da Prefeitura, do Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas (IHGPel), da exposição arqueológica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do espaço destinado a Educação Ambiental, promovido pelas obras de duplicação da BR - 116/392. De acordo com a Secretária de Cultura, até o fechamento desta edição, certa de 55 mil pessoas prestigiaram o evento, que neste ano tem como livros mais vendidos Pelotas em imagens, do fotógrafo e escritor Nauro Júnior; A tristeza pode esperar, de J.J. Camargo; e Dark City, sob a organização do historiador e cronista, Márcio Ezequiel.
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