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Sob um teto esburacado, Luara e a mãe, Maria Rosalina, resistem na profissão iniciada por Edil de Souza há mais de três décadas
O cotidiano de famílias que enfrentam as estações mais rigorosas do ano sob um teto de lona
Inverno é sinônimo de janelas fechadas, aconchego e fogões a lenha. Mas, se toda a regra carrega uma exceção, para uma parcela da população o inverno representa o prenúncio de tempos difíceis. É assim para a vendedora Maria Rosalina, de 55 anos. Com mais de três décadas na profissão de camelô, ela divide os dias com a filha Luara, de 21 anos, sob uma lona rasgada que serve de teto e parede para a banca onde trabalham.
Muitos vendedores preferem não substituir as lonas já corroídas devido aos ataques de vandalismo que ocorrem durante a noite. “A cobertura que anoitece nova amanhece em pedaços”, queixa-se a vendedora. Rosalina sofre de hipertensão e relata que muitas vezes, tanto pelo frio como pelo calor excessivo, “a situação fica insuportável”. “É horrível ficar debaixo da lona, mas não tem outro jeito”, analisa. O precursor na profissão foi Edil Assis de Souza, esposo de dona Rosalina e pai de Luara. “Meu marido (já falecido) foi o primeiro camelô do município. Antigamente a gente tinha uma Kombi e vendia os produtos na subida da Estação Rodoviária”, recorda.
Em trinta anos, ponto dos camelôs foi alterado da rua Genes Bento para a André Puente. Cinco prefeitos passaram pelo município e todos prometeram alguma melhoria para os trabalhadores. Rosalina ficou viúva e viu a filha crescer sem que o sonho do camelódromo fosse alcançado. Em julho de 2013, o então secretário de obras, Nevinho Nörnberg, reconheceu o problema. “Há 30 anos esta situação vem sendo empurrada. Lembro da época em que os camelôs estavam em uma descida próxima da rodoviária, então foram para outro lugar, e depois para outro, até chegarem aonde estão”, recordou.
Quase um ano depois, Nörnberg já não é mais o titular da pasta de Obras, mas a situação “continua sendo empurrada”, como ele próprio definiu na época, quando chegou a ser anunciado um projeto de R$ 100 mil para a construção do camelódromo. Em dezembro, durante a avaliação de seu primeiro ano de mandato, o prefeito Gerson Nunes indicou que a obra não havia avançado devido a “um conflito de interesses”. “Nós encontramos uma solução, que é fechar a rua, impedindo a circulação de veículos e deixando livre apenas para os pedestres”, explicou na época, ao citar que a Acican era contrária à medida, por acreditar que a não circulação de veículos naquele local causaria prejuízos ao comércio.
Enquanto o conflito de interesses não se resolve, os trabalhadores esperam. Ela conta que, entre os vendedores, corre o boato de que lojistas formais não aceitam a construção. “Esses que têm dinheiro não querem que os pobrezinhos fiquem aqui”, lamenta. Se as dificuldades da profissão já fazem parte do cotidiano da família Souza, a jovem Janaína Vieira, de 20 anos, está descobrindo aos poucos os transtornos que a falta de estrutura acarreta na vida dos vendedores. Ela trabalha há poucos meses em uma das bancas e acredita que a construção do camelódromo beneficiaria a todos. “Seria muito bom, principalmente porque falam que o inverno embaixo da lona é difícil de aguentar”, relata. Janaína conta que a chuva é outro problema enfrentado pelos trabalhadores. Devido à estrutura precária, a água entra pelo teto e molha as mercadorias.
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