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27-07-2015

Educação no campo: Região Sul dará passo importante na reversão do êxodo rural


Foto: Xiru Gonçalves Alunos ensaiam 'Canção da Terra'. A agricultura está presente até mesmo nas melodias que os alunos da EFA aprendem durante as aulas de música

Canguçu será a sede da nova Escola Família Agrícola, instituição baseada na pedagogia da alternância e responsável por uma metodologia de ensino voltada à formação de filhos de agricultores


Conhecimento científico ou o saber herdado dos avós sobre agricultura? A questão - aparentemente paradoxal - está bem perto de encontrar o equilíbrio no município de Canguçu, onde uma comissão formada por dezenas de entidades acerta os detalhes para a implantação da Escola Família Agrícola do Sul (EFASUL).



Mais do que uma instituição de ensino técnico agrícola, o modelo leva em conta pilares como a pedagogia da alternância, o desenvolvimento do meio e a formação integral dos jovens. A instituição será gerida por uma associação local, criada para este fim.


Surgido na década de 1930, na França, o referido modelo de ensino está bem perto de se tornar uma realidade para a Região Sul. Na prática, os alunos permanecem na escola cumprindo uma carga horária integral durante cinco dias da semana. Nas sextas-feiras, inicia outro período de aprendizado: é quando todos vão para a propriedade dos pais e familiares, onde permanecem na semana seguinte, com o compromisso de desenvolver uma pesquisa sobre variados aspectos do meio rural.


Na EFA mais antiga do Estado, em Santa Cruz do Sul, o jovem Daniel Schuster (15) garante que não falta dedicação para desempenhar as tarefas longe da escola. “Do início do ano até agora, nenhum colega deixou de cumprir as atividades”, explica. A mesma opinião é compartilhada pelo coordenador pedagógico da Associação Gaúcha pró-Escolas Famílias Agrícolas (AGEFA), Antônio Carlos Gomes. “Quando retornam à escola, ficamos todos frente a frente. Daí cada um precisa relatar o que fez na propriedade pesquisada”, conta o professor, salientando que para cumprir o projeto de pesquisa são necessárias algumas horas diárias de dedicação exclusiva.


Sete dias depois, na segunda-feira, alunos e professores se reúnem para debater os resultados alcançados. “É a partir dessa exposição dos jovens que os professores planejam e desenvolvem as atividades da semana”, explica Gomes. Ele considera que o modelo impõe uma inversão no processo tradicional, onde normalmente os adolescentes estudam com base nas demandas repassadas pelos professores. “Aqui ocorre exatamente o contrário. São as dúvidas, curiosidades e necessidades trazidas por eles na vivência das propriedades rurais que definem o nosso foco de atuação”, explica.


Pedagogia da alternância


Uma semana na escola, uma semana na propriedade dos pais ou familiares. A fusão entre o conhecimento empírico herdado dos antepassados se mistura aos dados científicos, atualizados pelos professores. O resultado é a valorização do saber repassado pelas gerações antigas sobre temas ligados ao meio rural. O entendimento sobre a terra, os benefícios das plantas medicinais e tantas outras formas de patrimônio imaterial ganham novas cores. A conclusão nunca é definitiva, já que todo o processo parte de uma construção constante. Porém, enquanto tece uma nova rede com antigos e novos saberes, o estudante desvela um emaranhado de conhecimento que, no fundo, diz muito sobre si e sobre a história de cada família da região.


Importância da EFA


O agricultor e dirigente sindical canguçuense André Tessmer é um dos integrantes da comissão que trabalha para que a EFASUL receba a primeira turma em 2016. “É um ensino diferenciado, que valoriza o ser humano. Valoriza o conhecimento da família e da região”, destaca. Segundo ele a nova escola servirá de modelo para o ensino tradicional que hoje é aplicado. “É uma nova prática que pretende fazer com que o estudante seja sujeito de sua história, diferente da outra metodologia, que visa mais a formação de mão de obra para o mercado de trabalho”, avalia Tessmer.


A definição da sede


Canguçu foi escolhido pelo Fórum da Agricultura Familiar para ser a sede da nova escola regional. O fórum é formado por mais de 100 entidades ligadas ao setor rural, contando com a participação de agentes públicos, universidades, movimentos sociais, associações e prefeituras, dentre outros. Agora, uma comissão busca identificar em que parte do município será implantada a EFA.


EFASUL


Pelo menos quatro instituições de ensino participam da comissão responsável pela escola destinada à formação de filhos de agricultores. Entre elas estão: Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Instituto Federal Sul Rio-grandense (IFSul) e Universidade Federal do Rio Grande (FURG). O grupo que trabalha para definir em que localidade canguçuense será instalada a EFA também é composto pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura (FETAG), Federação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF), Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (CAPA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Cooperativa União, União das Associações Comunitárias de Canguçu (UNAIC), Movimento Quilombola e Secretaria de Educação de Canguçu.


Reversão do êxodo rural


A permanência de egressos da EFA no meio rural foi o tema da dissertação de mestrado do pesquisador Adair Pozzebon, de Santa Cruz do Sul. Um dos dados levantados pelo trabalho acadêmico apontou que 82% dos ex-alunos permaneciam no campo, garantindo a manutenção da qualidade de vida no meio rural e contribuindo para a produção de alimentos mais saudáveis, já que a escola leva em conta a prática agroecológica.


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