Sexta, 05 de junho de 2026, 14:52h
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“O homem que eu mais amei tentou me matar”. Com essa frase, uma mulher, de 32 anos, resume sua decepção com o então parceiro, com quem esteve casada por sete anos. Eles têm uma filha, que estava em casa com os dois irmãos quando, na madrugada de 4 de setembro de 2018, o homem, de 46 anos, invadiu o quarto onde sua ex-mulher dormia e por não aceitar o final da relação, a esfaqueou cinco vezes.
Ela foi a única vítima de tentativa de feminicídio no ano passado em Piratini, e uma das 83 mulheres agredidas pelos atuais ou ex-cônjuges, conforme dados da Secretaria de Segurança Pública. “Fiquei abalada. Depois que saí do hospital praticamente não dormi por 45 noites consecutivas”, relembra.
A vítima conta que o agressor, atualmente preso, cometia violência verbal, mas ele nunca havia demonstrado a capacidade de agredí-la. “Agressão com palavras tinha, e muito, mas ele nunca se mostrou violento ou fez menção de que chegaria a esse ponto. Por isso, até o momento, não consigo encontrar palavras para definir o que sinto. Só uma mulher vivendo o que vivi para saber como realmente é depois de um ato de violência, pois você se dá conta que não conhece a pessoa com quem foi casada. É uma dor incurável, não será possível esquecer”, desabafa.
Na audiência preliminar, que aconteceu em dezembro, ela disse que teve outra decepção, pois mesmo não tendo que vê-lo na sala de audiências do Fórum, cruzou com o agressor na sala de espera.
“Não sei qual será minha reação quando tiver que reafirmar o que ocorreu na presença dele. Vou precisar de muito autocontrole, já que no único momento em que o encarei - depois do acontecimento - não percebi arrependimento”, comenta.
Ela disse que não sente-se tranquila diante da possibilidade do homem aguardar a sentença ou o julgamento em liberdade. “Preciso saber o que vou fazer da minha vida, seguir em frente. Quero que ele seja condenado e por alguns anos possa refletir sobre o que fez”, diz.
Sobre a violência contra a mulher, a psicóloga Gerusa Porto, que coordena o Centro de Apoio Psicossocial (Caps) e que atende vítimas de violência, afirma que há uma distorção ao longo da história no que diz respeito a um autoritarismo por parte do homem em relação a mulher.
Segundo ela, mesmo diante do sentimento que a violência causa, a mulher inconscientemente adere um papel de submissão, sentindo impotência em denunciar e muitas vezes em manter a denúncia, levando a voltar atrás por medo, pela impunidade e desvalia.
Ela destaca que existem vários tipos de violência - como a patrimonial, sexual, moral e psicológica - sendo que a última fere profundamente. “São palavras e atitudes diárias que levam a mulher a acreditar que não tem valor, que não é capaz de pensar e ser por si mesma. É muito importante perceber no relacionamento como o homem se conduz e se há cumplicidade, amor, respeito, parceria e projetos de vida comuns a ambos”, opina.
Para Gerusa, se o relacionamento inicialmente foi estabelecido a partir de uma relação de dependência, não só financeira, mas principalmente afetiva, provavelmente mais à frente haverá uma situação de agressão, pois quando não há igualdade, é criada uma convivência baseada em um autoritarismo, causando muitos prejuízos a nível emocional, gerando relações doentes e desprovidas de respeito e consciência da individualidade tão importante para a felicidade de qualquer pessoa e ou relação.
Para a delegada de polícia Valquíria Meder, substituta na Delegacia da Mulher de Pelotas, o ideal seria que a estrutura disponibilizada à mulher vítima de violência doméstica existente em Pelotas estivesse à disposição em outras cidades, já que no município há diversas ferramentas que funcionam de forma exitosa.
“Aqui temos um número elevadíssimo de casos desta natureza, mas possuímos uma estrutura que funciona muito bem. São medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha e requisitadas pela vítima ao Poder Judiciário através do delegado, até a permanência da agredida na Casa de Acolhimento para as que estão em risco iminente”, destaca a delegada.
Fazendo também parte desta rede para o pós-trauma, existe o Centro da Mulher, onde é oferecida assistência social, atendimento psicológico e, emcasos específicos, se o agressor concordar, o encaminhamento dele para o tratamento.
“É importante destacar a atuação da Patrulha Maria da Penha, realizada pela Brigada Militar (BM) para fiscalizar se as medidas protetivas impostas estão efetivamente sendo ou não cumpridas. A partir disso, os policiais fazem um relatório e encaminham à justiça. Enfim, opino que em Pelotas temos ferramentas eficazes que possibilitam à vítima desse tipo de violência receber todo o apoio para sair desta situação”, conclui a policial.
Fonte: Tradição Regional
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