Quarta, 01 de julho de 2026, 11:57h
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O médico veterinário Roberto de Lima Silveira e o zootecnista Fernando Silveira de Silveira guardam bem mais semelhanças que os laços sanguíneos em comum. Pai e filho, ambos são exímios conhecedores das ovelhas e de suas criações. Os dois são, inclusive, integrantes da Casa da Ovelha, que também faz parte da 88ª Expofeira de Pelotas desde o dia 6 de outubro.
Alguns dias antes do início do evento, os dois receberam a equipe de reportagem do Jornal Tradição Regional na residência da família, já que a Casa da Ovelha, no parque Ildefonso Simões Lopes, passava por reformas em sua cobertura. A situação, no entanto, aparentemente não gera problemas, já que, como fez questão de explicar Roberto Silveira, a maioria das atividades acontecem fora do parque. No local, a concentração de atividades e encontros acontece, justamente, no período em que ocorre a feira. “ Nos reunimos lá para tomar um chimarrão, bater um papo, fazer alguma comida, normalmente um churrasco de ovelha”, conta. Nesta edição, conforme relatam, não faltaram, e nem faltarão, opções para os criadores e conhecedores da ovinicultura. Uma delas, considerada uma das mais importantes, é uma oficina prática, patrocinada pelo Senar e feita através de uma empresa chamada Borregão, sobre o manejo com os animais. Serão de quatro a seis oficinas, dependendo do público presente, mas já estão confirmados cursos na sexta-feira (10), durante a tarde, no sábado (11), pela manhã e tarde, e no domingo (12), pela manhã, de forma gratuita. Na oficina, serão tratados e ensinados assuntos como descola e limpeza de cabeça, por exemplo. “É uma forma que arrumamos para chamar mais atenção para este assunto”, explica o filho, Fernando, contando que em anos anteriores, não havia tantos atrativos, e que a oficina é uma forma de envolver mais a comunidade e os produtores com a Casa da Ovelha. “Isso já está sendo divulgado em locais como o curso universitário de zootecnia. O pessoal está demonstrando interesse em vir participar, justamente porque em paralelo ocorre a semana acadêmica do curso”, complementa. A oficina não terá certificado, mas será uma forma de aprender, na prática, o cuidado com o animal, além de representar uma forma de entrada para a ovinocultura. Além da oficina, Fernando também teve outra ideia. Ao invés de fazer uma exposição de ovelhas, como ocorria normalmente em Pelotas, onde cada produtor ou cabanha trazia um animal, e o total eram três ou quatro carneiros que não eram vendidos, substituir por uma apresentação das ovelhas que são criadas na região. “É uma mostra. A ideia era conseguir todas as raças, mas por enquanto já temos confirmadas algumas raças de ovelhas como texel, corriedale e romney. São ovelhas criadas na nossa região, e que muita gente não sabe”, conta. De acordo com eles, a Zona Sul conta com 10 raças diferentes de ovinos.
Nascido em Jaguarão, Roberto Silveira relembra que desde a infância tem contato com as ovelhas. Segundo ele, era através da lã produzida pelo rebanho que a família tirava uma boa quantidade de dinheiro. Ele acredita que, na época, o Rio Grande do Sul possuísse cerca de 15 milhões de cabeças de ovelha. No entanto, a chegada da lã sintética mudou drasticamente o mercado, e os capões, que eram grande parte desse número, foram sumindo, aos poucos. Isto teria ocorrido na década de 1980. Foi, também, quando surgiu o problema da carne de ovelha, que passou a ser usada em momentos considerados especiais e, sobretudo, em churrascos. Segundo o médico veterinário, cerca de 90% da carne consumida por qualquer pessoa é de porco ou de galinha. O motivo seriam os altos preços da carne dos ovinos, normalmente com muitos ossos e vendidas somente em grandes quantidades. “O sujeito vai no mercado para comprar carne, e encontra o quilo da ovelha por R$ 15. O preço do quilo do frango é de cerca de R$ 5. Um pai de família não vai optar pela ovelha, com esse preço”, afirma. De acordo com ele, é necessário que a carne de cordeiro passe a ser vendida em pedaços, como são encontradas, comumente, as carnes de bovinos, por exemplo.
Já para Fernando Silveira, a ovinocultura também passa por outros problemas, como a mão de obra, apontada por ele como o gargalo dessa área. Além disso, o zootecnista lembra que outro problema é a falta de organização de cadeias produtivas, como as que tem o gado de corte e o cavalo crioulo. “Os produtores de ovelha não se organizam. É preciso organizar a cadeia produtiva.” Outro problema é o abigeato, ou seja, o furto de animais de campo. Os dois contam que na região, no mês de dezembro, há um grupo que normalmente comete o crime, roubando pelo menos 20 animais de alguma propriedade. “Já é uma máxima nesse mês: deixe os animais próximos de casa. É m grande problema é que o produtor não manifesta o roubo”, explica Fernando.
Apesar dos percalços, os dois demonstram paixão pela ovinocultura. “É uma arte”, diz Fernando. Os dois alertam, inclusive, para os mitos envolvendo a carne do animal. De acordo com eles, existe um estudo, de Edmundo Torres, que desmistifica o produto, mostrando que a carne de cordeiro não faz mal ao coração, como muitos acreditam. Por acreditarem tanto no que fazem, eles apontam saídas para tentar organizar melhor a cadeia produtiva e melhorar o consumo da carne, como uma feira de reprodutores, que seria realizada entre fevereiro e março.
A Casa da Ovelha fica localizada no parque da Associação Rural, próximo a pista central. Os animais deverão chegar na Expofeira até sexta-feira, permanecendo até segunda-feira (13).
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