Segunda, 22 de junho de 2026, 21:22h
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Em destaque na foto, a pesquisadora da Embrapa Clima Temperado, Maria do Carmo Bassols Raseira, que esteve à frente do lançamento das novas seleções de pêssego: BRS RubraMoore e BRS Citrino
Uma época para celebrar a produção e perpetuar um consumo ainda tímido. Já tradicional no calendário local, a quinzena do pêssego é um momento de integração: produtores, consumidores e instituições incentivadoras figuram em espaços de convergência para levar adiante a cadeia produtiva do pêssego.
A manhã de sábado (19) ficou marcada pela abertura oficial da Safra do Pêssego 2016-2017, na Colônia Santa Helena, no 8º Distrito de Pelotas. O evento teve início entre os pessegueiros do produtor Dari Bosembecker e prosseguiu com almoço e festa na Comunidade São Luiz, na Colônia Santa Áurea.
O ato, em meio à realização da III Quinzena do Pêssego de Pelotas, serviu para abrir oficialmente a fita e marcar o início à colheita da fruta desta temporada. Além disso, na ocasião, a Embrapa também apresentou duas novas seleções de pêssego: BRS RubraMoore e o BRS Citrino, ambos já extensamente pesquisadas, experimentadas e cultivadas na região.
Estiveram presentes no evento o secretário municipal de Desenvolvimento Rural, Wilson Karnopp, a representante do governo do Estado, Gabriela Montanelli, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pelotas, Nilson Loeck, o chefe geral da Embrapa Clima Temperado, Clenio Pillon, o deputado estadual Pedro Pereira, o gerente regional da Emater, Luiz Godói, o presidente da Associação dos Produtores de Pêssego da Região de Pelotas, Marcos Schiller, o vereador Antônio Peres (Toninho) e o presidente da Cooperativa dos Apicultores e Fruticultores da Zona Sul (Cafsul), Roni Silveira, além dos demais produtores e população da região.
O produtor Dari Bosembecker, que trabalha com a produção de pêssegos há um longo tempo afirmou que as expectativas da safra são positivas, com quase “safra cheia”. “O clima ajudou bastante, mas ainda faz muito frio à noite, o que prejudica”, relata. Com chuvas razoáveis e irrigações em boa parte do pomar, o produtor não sofre prejuízos quanto a isso. Entretanto, para esta safra, o preço ainda não está definido. “Pelo que a indústria está oferecendo eu acho pouco em relação ao meu custo de produção. Mas acho que vai ter uma melhora”, avalia. Em 2015, ele recebeu de R$ 1,40 a R$ 1,80 por quilo, com aumento de 30% dos custos entre defensivos, adubos e mão de obra.
Em relação ao evento, Bosembecker aproveita para relembrar seus esforços para que o tema se tornasse popular. “Fui um dos que pediram mais a divulgação do pêssego para a mídia. Os outros produtos são todos divulgados na TV, arroz, soja, milho... Pelotas é conhecida por ser a cidade do doce, único lugar que se produz conserva de pêssego na região, então vamos divulgar mais isso aí”, diz ele, agradecendo o apoio das instituições envolvidas.
Ao todo, ele possui 21 mil pessegueiros, com 11 variedades já lançadas e 23 em experimentação, e vende sua produção de maneira integral para industrialização. O tipo Citrino foi testado em sua propriedade. “Um pêssego que é muito bom para a indústria, bem redondo”, explica, destacando a contribuição em desafogar as grandes produções do mês de dezembro.
Para o produtor, a média de consumo da fruta representa uma realidade vergonhosa no país: uma lata a cada quatro habitantes. Por isso, ele enfatiza a divulgação do setor. “Esse evento serve para divulgar, para consumir mais, e para os produtores investirem em novas variedades”, destaca, sobre uma safra onde a colheita começou no dia 5 de outubro e segue até 20 de janeiro.
Sob a ótica da pesquisa
“O lançamento, do ponto de vista do melhorista, é um momento que combina com a atividade. É tipo uma forma de prestação de contas ao produtor do que ele fez”. É dessa forma que a pesquisadora da Embrapa Clima Temperado, Maria do Carmo Bassols Raseira explica seu próprio ofício, já que está à frente do lançamento das duas novas cultivares.
Para que as novidades pudessem ir à público, da última hibridação controlada feita até agora são cerca de 15 anos de pesquisa. “Se a gente pensar desde o início, desde os ancestrais, isso começou lá pela década de 70”, brinca, exemplificando historicamente que o tipo Citrino, tem cruzamento com o Leonense, uma cultivar lançada há bastante tempo. Sobre a escolha dos nomes, a pesquisadora explica que havia uma proposta onde os pêssegos de processamento deveriam receber nome de pedras. Por isso, há as cultivares como Diamante, Ametista, Topázio. “No momento, se pensou no Citrino, por ser aquela pedra amarela. Inclusive já estão faltando nomes”, alerta, em tom descontraído, destacando que a cultivar de mesa RubraMoore teve a origem de seu nome “Rubra” por conta da cor da película da fruta, bem avermelhada, e “Moore” por ser uma homenagem a um dos maiores melhoristas americanos, doutor James Moore, que foi orientador de Maria do Carmo.
Sobre a satisfação do momento, ela aproveita para valorizar o trabalho de toda equipe envolvida. “Acho que toda equipe se sente prestigiada pela presença dos produtores e feliz com isso. Ao mesmo tempo, sempre ficamos com certo ‘medo’, pois costumamos testar por mais de 10 anos e, às vezes, depois que lança aparece alguma coisa que não esperávamos que fosse aparecer”, conta, relatando que há um acompanhamento posterior, parte mais crucial, difícil e preocupante, segundo Maria do Carmo. “A gente sabe que a responsabilidade é muito grande porque se for uma cultura anual, se não deu certo em um ano o produtor pode arrancar. Mas em uma cultura perene, ele vai investir uns três anos, pelo menos, até saber se vai dar certo”, diz ela, que divide a função com o melhorista Rodrigo Cezar Franzon.
O supervisor regional da Emater, Edgar Noremberg, chama a atenção para o envolvimento de diversas famílias e indústrias em todos os níveis de processo, como forma de integração. Além disso, exalta o trabalho da Embrapa como parceira e responsável pelo lançamento das cultivares. “Por serem cultivares novas, chegam sempre agregando algumas características que favorecem a produção da fruta na região”, diz. “Esperamos que seja uma boa safra, já que até agora tudo tem ocorrido bem. Tivemos uma quebra significativa no ano passado, e este ano espera-se que seja uma safra normal”, avalia, apesar dos fortes ventos, que, segundo ele, não representam perdas significativas.
O supervisor explica que o aumento no período da safra, que varia anualmente, mas costuma ter início na primeira semana de outubro, indo até a primeira quinzena de janeiro, se torna uma grande vantagem com a chegada de novas variedades da fruta - já que antigamente o trabalho entre campo e indústria era concentrado em apenas 20 dias.
Os benefícios da fruta, entretanto, ainda não impulsionam o ritmo do consumo no país, conforme Noremberg, mas há um grande potencial na produção, apenas faltando divulgação da cultura e de suas qualidades. “Tem uma perspectiva interessante para essa possibilidade de expansão de mercado. Se passarmos para o consumo per capita de 1 quilo da fruta por pessoa a cada ano, teríamos que duplicar a área na região. Então, é um potencial enorme”, diz.
Para o prefeito de Pelotas, Eduardo Leite, é um momento de valorização do trabalho na cadeia produtiva. “É algo que começa na pesquisa, e temos o privilégio de contar com a Embrapa e seu trabalho técnico, e se leva para o campo, com o produtor que se integra a essa pesquisa e ousa o cultivo das novas espécies, indo à mesa do consumidor final, também passando pela indústria. Quando se valoriza a abertura da colheita, é uma forma de prestigiar todas essas pessoas que se envolvem e destacar esse trabalho”, define. O resgate do apreço à fruta, conforme Leite, é uma forma de mobilizar diversos setores da sociedade para algo que gera emprego e renda na cidade.
Sobre o papel da Prefeitura, o prefeito destaca que, além da articulação com instituições técnicas como Emater e Embrapa, o trabalho de garantia da infraestrutura na zona rural é fundamental. “Quando assumimos havia apenas 1 motoniveladora para manutenção de estradas funcionando, trabalhamos para consertar as que estavam paradas em oficinas, e adquirimos 3 novas motoniveladoras, com recurso próprio”, diz Leite, que também enfatiza serviços na educação e na saúde para estimular a permanência da população nestes locais. A licitação do transporte coletivo que atende a zona rural da cidade estava prevista em seu governo, mas, segundo ele, por “decisões políticas” da Câmara Municipal de Vereadores, o projeto será uma demanda para o governo da prefeita eleita Paula Mascarenhas, sua atual vice.
Histórica e simbolicamente, a cultura do pêssego possui grande teor significativo para Pelotas e região. A sentença, comprovada na prática, faz parte das palavras do gerente regional da Emater, Luiz Godói, que fortalece a atenção que deve ser dada ao produtor, bem como à sua permanência no campo. “Estamos vendo em grande escala uma diminuição da população, de quem produz, e isso não significa que a produção tenha diminuído. Mas não existe mais tanta justificativa pra que a gente deixe o campo e vá para a cidade”, pondera.
O chefe geral da Embrapa Clima Temperado, Clenio Pillon, também menciona o resgate de produtividade da tradição - não só de Pelotas, mas especialmente Morro Redondo e Canguçu, principais municípios produtores do pêssego em conserva. “É uma produção de referência, com mais de 150 anos, e nós temos um trabalho com as demais entidades, e esse exemplo de duas novas variedades são dois novos materiais que vão estar a disposição a partir da próxima safra”, diz.
A incorporação de novos manejos e apostas que geram produtividade, conforme Pillon, são conquistas exaltadas dos produtores em momentos como este. “Representa a importância da cultura na região, do agro para o Brasil, único setor que cresceu em 2015. Isso é um exemplo de que a nossa agricultura, através da incorporação de novos conhecimentos e tecnologias, a partir do compromisso dos agricultores, tem feito a diferença para o nosso país”, afirma.
A propagação de informações que estimulem o consumo é um ponto importante de debate, segundo Pilon. “Existe um espaço muito grande de mercado interno para ampliar o consumo. O que nós precisamos é isso, não olhar para o pêssego não só na época do Natal, quando a gente lembra das conservas”, enfatiza ele, que complementa: “Vamos cada vez mais se aproximar dos setores, trazer a sociedade para dentro da Embrapa, que é uma empresa de altíssima referência, e cujo compromisso com os agricultores se dá através de pequenas iniciativas simbólicas como essas”.
Já para o presidente da Associação dos Produtores de Pêssego da Região de Pelotas, Marcos Schiller, o trabalho de colocar em destaque a colheita do pêssego tem crescido e, hoje, os produtores possuem melhores condições sócio-econômicas. “A cultura está crescendo e daqui há quatro ou cinco vamos chegar a realizar uma festa [da fruta]”, projeta. Em relação aos valores pagos aos produtores, ele explica que, neste momento, a indústria alega que o tamanho da fruta não está favorável, muito miúda. “Mas não é isso que eu vejo, não é a realidade. Ano passado tivemos o preço pago por algumas indústrias de até R$ 1,70, e agora o valor da lata não baixou, só baixou para o produtor”, contesta ele, afirmando que a safra está normal, apenas com variedades precoces que tiveram grande produção.
As atividades realizadas no sábado integram a III Quinzena do Pêssego, que se encerra na segunda-feira (28), com uma ampla programação gastronômica, que pode ser conferida através do link: http://www.pelotas.com.br/arquivos/quinzenapessego2016.pdf.
Redator: Tradição Regional
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