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25-07-2017

Especial JTR: No interior de Morro Redondo, a atividade na fruticultura que resgata a essência de ser colono


Foto: Diones Forlan/JTR Com 65 hectares em sua propriedade, Edemar Flügel mostra a área dedicada ao pêssego, mas que também divide espaço com outras árvores frutíferas

Nascido e criado na Colônia Colorado, interior de Morro Redondo, Edemar Flügel conta que o trabalho no campo é parte essencial da sua própria história de vida. Aos 11 anos, com a morte de seu pai, precisou assumir compromissos “de adulto”, quando a vida se apresentava rude e pouco suscetível aos prazeres de uma criança. “A gente começou a luta desde guri novo”, diz.


Há mais 35 anos na agricultura, ele destaca a necessidade de diversificar e modernizar no campo, frente às mudanças do tempo. Atualmente, são 65 hectares dedicados à produção de pêssego, maçã, goiaba e pera, mas não foi sempre assim. Quando Flügel se casou, no ano de 1978, as culturas que prevaleciam era a da cebola e da batata, além do trabalho na leitaria. “Aos poucos eu fui agregando valor no pêssego, que vi que tinha mais futuro, e aí comecei a trabalhar nessa atividade”, relembra.



O trabalho na fruticultura começou em formato crescente, já que no início os implementos agrícolas eram escassos e a lavoura ainda ocupava pouco espaço. “Hoje, são mais de 40 mil pés de pêssego, já é um volume bem maior”. Há cerca de 25 anos ele trabalha com maquinário completo para agilizar a atividade. Além disso, a reutilização dos materiais também é feita na propriedade como, por exemplo, a madeira que sobra dos brotos após a poda, que é triturada e se torna matéria orgânica para as safras seguintes.


Na propriedade, a colheita das variedades de pêssego inicia no mês de novembro e segue até final de dezembro. “São vários tipos porque se vou plantar só uma variedade não vou ter como colher de uma vez só. Tenho as [cultivares] precoces, como Granada, Esmeralda, Jade, Santa Áurea e Bonão”, destaca.


As outras frutas que ocupam a lavoura de Flügel são resultado de um mercado que, segundo ele, ainda está aquecido. “Quase todo esse produto que estou plantando hoje tem mercado. Se eu estivesse plantando uma quantidade grande, tanto para mercado, como para Ceasa [Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul], ou indústrias locais, seria absorvida”, avalia.


“Eu digo sempre para o pessoal: pêssego não se para nunca”, afirma Flügel, referindo-se ao ritmo de trabalho rural ao longo de 365 dias. “Eu trabalho o ano todo. Tem gente que diz que colheu a safra e vai embora, fazer outro serviço, que vai abandonar a chácara. E eu faço bem o contrário, quando termino a safra do pêssego, aí começo a trabalhar na próxima, fazendo adubação, limpeza, para que a árvore se desenvolva bem, para ter uma boa cultura para a próxima vez”, descreve, destacando que a pausa nos trabalhos após uma safra é de, no máximo, 15 dias.


Durante este mês de julho, a época é dedicada à poda. Quanto à projeção para 2017, a cultivar Bonão, uma das mais precoces, já fica pronta para colheita no final de outubro. Neste ano, a ocorrência de dias quentes fora de época tem refletido na abortação da flor, conforme observa Flügel. “Com um sol quente desses, queima a flor e ela aborta, já que ela gosta de frio, quanto mais frio, melhor. No ano passado, tive um problema com o Granada, que é muito sensível, e florou muito cedo”, enfatiza. A maior safra que já registrou foi em 2013, sem falha alguma nas variedades. “Para este ano espero uma safra cheia de novo, o pomar está muito bonito”, diz, referindo-se a uma expectativa de 450 toneladas de fruta.


A permanência no campo requer cuidados


Para o produtor da Colônia Colorado, o segredo para longos anos dedicados à fruticultura está no trato direcionado às variedades. “Tem que tratar muito bem. Qualquer tipo de planta, se não conservar bem, tanto com adubo ou com a poda, em poucos anos ela acaba”, salienta.


Os investimentos realizados nas lavouras pelos pequenos produtores rurais, em sua maior parte, são oriundos de financiamentos, muitas vezes através de incentivos por programas federais ou então diretamente com bancos. Com Flügel não foi diferente, mas ele lembra que incentivos precisam ser alinhados a planejamento: “Tem gente que investe na agricultura e não tem uma reserva. A gente nunca sabe o que vai acontecer, se vai precisar cobrir algum contratempo no pomar. Eu não dou o passo mais longe do que as pernas alcançam”, assegura.


A propriedade de Flügel é monitorada pelos pesquisadores da Embrapa Clima Temperado e sua atividade no campo é assessorada pelos extensionistas do Escritório Municipal da Emater-RS/Ascar, dois nomes que são fundamentais para a atividade rural na região. “Eles fazem o controle para me alertar de algum problema que esteja acontecendo, como o próprio clima. Também verificam as flores, alertas às doenças, isso é muito bom”.


Novidade no calendário de eventos da cidade, no dia 19 de novembro será realizada, na Comunidade Cristo Rei, em Morro Redondo, a Festa do Pêssego, quando Flügel estará presente, juntamente da safra do ano. Com o apoio da Prefeitura Municipal, a Festa será organizada juntamente com o Roteiro Turístico Morro de Amores. “Morro Redondo é um polo produtor de pêssego, com produtores e indústrias, e tem que ser divulgado. As pessoas vão ter a oportunidade de comprar o pêssego fresquinho, praticamente sem veneno e consumir”, convida.


O colono e a sua vivência


“Como colono, é meio difícil até falar... Quanto às dificuldades, por exemplo, existem tantas coisas... O grande problema, hoje em dia, é o acesso a crédito e o juro alto. Muitas vezes, é inviável fazer um financiamento para expandir teu negócio, tudo fica mais caro, então tem que ser algo bem controlado. E como agricultor, desde guri pequeno eu sempre gostei da área, sempre fiquei na lavoura, gosto da lavoura. Eu não sou um cara formado, não tenho segundo grau. Imagina eu, com a idade que tenho, sair hoje aí e procurar um emprego, já não vou mais encontrar... A agricultura eu conheço, a minha aula é essa. Eu tenho orgulho de ser agricultor e tudo que tenho é pela agricultura. Não tenho muita coisa, mas para viver bem e tranquilo tenho aí. Tenho meu filho, que me ajuda há anos na época da safra. Agora, tenho meu neto, que nasceu semana passada e que é meu sucessor, e é por isso que a gente batalha, para ver a futura geração tocando o que a gente fez na vida até aqui”.


Redator: Tradição Regional



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