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23-07-2018

Especial JTR: Família troca mais de 25 anos de fumicultura para produzir hortifrutis em Canguçu


Foto: Felipe Madeira/JTR A propriedade fica cerca de 30 km da cidade

No século 18, o dramaturgo e romancista irlandês, George Shaw (1856~1950) declarou: “O progresso é impossível sem mudança; e aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada”. Foi a partir dessa frase, que uma família de agricultores encontrou coragem para reinventar sua maneira de trabalhar com a terra.


Em uma pequena propriedade no Passo do Saraiva, há cerca de cerca de 30 quilômetros da cidade, a família Lopes trocou mais de 25 anos de trabalho com a fumicultura para produzir hortifrutis. 



Após uma vida dedicada ao plantio do tabaco e à expansão da produção, o casal de agricultores percebeu que era hora de mudar, no ano passado, quando as três filhas saíram de casa e a produção ocupava muito o tempo dos dois. 


“Se tivéssemos a opção de voltar a fumicultura, não aceitaríamos. Hoje não trabalhamos estressados. Antes, precisávamos trabalhar no limite para vencer os prazos, chegando a trabalhar até às 22h durante o período de colheita e classificação. Na ‘cura do fumo’ não dormíamos direito, tendo que acordar várias vezes durante a noite para repor a lenha. Quando os resultados são os mesmos, é necessário inovar e ir atrás do que se acredita”, destaca o agricultor, Jesus Lopes.


Segundo Lopes, o fato das companhias terem exigido mais do agricultor, como o caso do pagamento adiantado, colaborou na tomada de decisão para a mudança de cultura. 


“Acabávamos investindo muito e tendo pouco lucro. Além do mais, quando ocorria algum fator climático, como a queda de granizo, na fumicultura se perdia a safra inteira enquanto no hortifruti, você perde, mas em um mês, tem algo novo. O risco de prejuízo é bem menor”, destaca a agricultora Sandra Lopes.


Essa diferença de tempo de resposta da produção foi uma das vantagens que o casal mais frisou. Se antes era necessário um tempo de aproximadamente oito meses para ter um retorno financeiro, com algumas hortaliças, hoje o tempo cai para 70 dias.


As entregas semanais abastecem de 15 a 20 comércios canguçuenses. A meta do casal é expandir esse número e abrir vendas diretas à comunidade em geral. 


“Com a distância, acabamos perdendo alguns negócios, e alguns comércios optaram por comprar diretamente de grandes atacadistas. Estes são os nossos maiores desafios hoje: a competitividade e a incerteza do mercado”, explica Lopes.


As novas culturas exigiram da família uma reorganização em toda a maneira de produzir e vender o produto, além do conhecimento de áreas que até então os agricultores nunca necessitaram para o meio rural: o marketing, as vendas, o pós-venda e a administração de lucratividade e risco. 


“Deu bastante medo no começo, porque até então não conhecíamos o mercado. Com o tabaco, não nos preocupávamos com o marketing. Era necessário apenas produzir um produto de qualidade que a fumajeira comprava. Hoje é um desafio novo a cada dia, por que precisamos produzir o produto e aprender como apresentá-lo”, reforça Sandra.


As cinco hectares da propriedade rural, antes ocupadas apenas com as folhas do fumo, agora são divididas, através de uma rotação de cultura, entre alface, almeirão, brócolis, couve-manteiga, couve-flor, repolho e tomate. A cada 20 dias, são plantadascerca de 700 novas mudas para cada cultura. Além delas, o casal produz milho, feijão, cebola, amendoim, batata-doce, abóbora japonesa e morango. 


“O hortifruti nos abriu um leque de opções para a venda. Antes não tínhamos tempo para integrar uma nova cultura ou para o simples cuidado com uma pequena horta. Queremos agregar ainda um pomar com frutas e ampliar o açude para a  criação de peixes, ampliando aos poucos a rentabilidade e o próprio negócio”, explica Lopes.


Em questões de lucratividade, o produtor rural diz ainda que, por enquanto, os ganhos não superam o que conseguiam com a fumicultura, mas que o negócio tem potencial de escalabilidade, para ‘lucrar até bem mais’, conforme a aceitação do comércio e a expansão das vendas.


“Trabalhamos de acordo com a necessidade. É um negócio instável, não há segurança econômica, mas há algo muito melhor: a qualidade de vida. Não há metas impostas a cumprir, mas há o poder de escolha em definir quais os próximos passos. Nada compensa mais do que poder chegar mais cedo em casa e poder tomar um chimarrão com a família, pensando que com o próprio trabalho a gente tira quase todo o alimento, das hortaliças, à carne. É um sonho que estamos alcançando aos poucos”, completa o agricultor, com brilho nos olhos, ao falar orgulhoso do progresso e da coragem da família.


 

Redator: Tradição Regional



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