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31-08-2018

CADERNO AGRONEGÓCIO: Floração do pêssego anuncia a nova safra


Foto: JTR A colheita das primeiras variedades, as denominadas precoces, deve iniciar entre 15 e 20 de outubro

Os pomares de pêssego tingidos de rosa espalhados pela colônia indicam que a dormência das plantas foi quebrada e logo começa a se desenhar uma nova safra. Rotina para os produtores, nesta época, a flor de pessegueiro encanta quem se aventura pelo interior e dá ao persicultor uma rápida visão do que lhe aguarda lá na frente.  


“Este ano tivemos menos flores do que os anteriores”, analisa o produtor Mauro Scheunemann, justificando que a seca nos meses de março e abril e a demora do frio em aparecer, provocaram atraso na brotação, de 20 a 25 dias. Isto significa que a colheita das primeiras variedades, as denominadas precoces, deve iniciar um pouco mais tarde, entre 15 e 20 de outubro, prevê. 



Por isso, torce para que o clima ajude e o frio tardio não coloque tudo a perder. “Ano passado tivemos problemas com o granizo, no final do mês de outubro”, lamenta, o que resultou numa perda de pelo menos 500 toneladas de fruta. 


Atual presidente da Associação dos Produtores de Pêssego da Região de Pelotas (APPRP), Scheunemann exerce a atividade que está na família há mais de 60 anos iniciada pelo avô, seguida pelo pai e continuada por ele, na Colônia São Manoel, interior de Pelotas. Na propriedade, dez hectares são destinados aos pomares. Nesta mesma região, num raio de quatro a cinco quilômetros, estão estabelecidos outros produtores da fruta, conta.


Scheunemann direciona a produção, 90% dela de pêssego amarelo, para o consumo in natura, e tem como principal comprador, o mercado de Santa Maria, onde concorre apenas com a fruta da região da Serra. A baixa remuneração pela indústria, que pagou no ano passado o mesmo preço do ano anterior, e o preço mais atrativo do in natura o fizeram apostar no segmento. “A tabela não chegou a ser reajustada pela indústria que pagou R$ 0,90 o quilo da fruta tipo 1 (57 mm acima) e R$ 0,70 para a tipo 2 (53 mm acima). Com este preço, que não teve a homologação da associação, muitos produtores não conseguiram cobrir seus custos”, diz. Mais uma vez o produtor pagou a conta, lamenta.


Na venda in natura a remuneração pelo quilo variou entre R$ 1,50 a R$ 2, destaca. “O mercado in natura vem crescendo e no ano passado de dois a três milhões de quilos foram destinados para este fim”, estima. Mas para isso, é preciso trabalhar melhor a fruta. O cuidado na colheita, embalagem e transporte precisam ser melhores para que a fruta chegue com qualidade ao consumidor. “O grande entrave deste mercado são as exigências, pois a maioria dos compradores pedem informações, como nome do produtor, localidade, data de colheita, entre outros”. 


A ordem é diversificar a fim de se manter na atividade. Por isso, além do pêssego, mantém a produção de outras frutas, como a goiaba e a uva e hortigranjeiros, como o tomate e o pimentão, vendidos em feiras e mercados.


O produtor segue acreditando e investindo na atividade, que é centenária na região de Pelotas e mantém mais de 1,3 mil famílias em municípios como Pelotas, Canguçu, Morro Redondo, Capão do Leão, Arroio do Padre, São Lourenço do Sul e Cerrito.


Pelos cálculos de Scheunemann, existem hoje de seis a oito mil hectares de pomares de pêssego plantados na Zona Sul, com tamanho médio de cinco hectares. Antes da quebra da dormência, já iniciam as primeiras intervenções no pomar, com a poda, feita entre os meses de maio e agosto. Após a floração, quando as frutas atingem por volta de 20 milímetros, é hora de fazer o raleio, quando o produtor decide quais irão se tornar adultas, realizado entre os meses de setembro e outubro. O auge da colheita se dá entre novembro e janeiro, sendo a dificuldade de mão de obra o maior entrave aos produtores.


Entre as variedades mais plantadas, por ordem de colheita, e destinadas à indústria estão Bonão, Precocinho, Sensação, Granada – de dupla finalidade – Jade, Esmeralda, Maciel e Eldorado. De mesa, a mais plantada é a Chimarrita. A produção anual tem se mantido estável, de 30 a 35 milhões de quilos, calcula.


No mês de dezembro, os produtores celebram a safra durante a Festa do Pêssego, realizada no dia 2, na Indústria Show, em Pelotas, com entrada pela BR-392 em frente ao trevo de acesso ao município de Morro Redondo. No dia 9 de setembro, durante festa anual da Comunidade São Mateus, na Colônia São Manoel, ocorrerá a escolha da corte da Festa, às 16h. As inscrições serão recebidas até o dia 6 de setembro. Podem participar filhas de produtores de pêssego, entre 15 e 22 anos.


Extensão fomenta a tecnificação


A cada nova safra, o produtor de pêssego de Pelotas está mais profissional e quem não produzia tão bem, passou a produzir, a partir do investimento em tecnologia, principalmente a irrigação, diz o extensionista da Emater Pelotas, o agrônomo Rodrigo Prestes. “Os novos pomares estão quase todos irrigados, o que atinge em torno de 100 hectares”, afirma. Com isso, o produtor deixou de depender tanto do clima e a classificação da fruta do tipo 1 chega a 90% nestes pomares, comenta.


Outro indicativo importante e que faz o agrônomo acreditar em um ano melhor para o pêssego é o número de horas de frio, em que ocorrem temperaturas abaixo de 7.2 graus, neste ano em relação ao ano passado. “Temos 320 horas contra as 198 de 2017”, diz. Existe o risco das geadas tardias, no mês de setembro, em que os frutos já estão se desenvolvendo principalmente nas variedades mais precoces. “Há uma preocupação em relação à previsão de temperaturas de 5ºC no mês de setembro”, destaca.


Para auxiliar os produtores, a recomendação é trabalhar tecnificado quanto ao manejo, adubação, tratamento da fruta e prevenção de pragas, especialmente a mosca da fruta, muito comum na região. Para isso, foi desenvolvido em conjunto com a Embrapa, um sistema de alerta, que consiste no monitoramento do aparecimento do inseto para que o produtor possa entrar com o tratamento o mais rápido possível.


No que diz respeito à comercialização, a ideia é que o produtor não pare de entregar a fruta para a indústria, mas que ele tenha a alternativa de oferecer aquele pêssego grande, doce e sem defeito para o mercado de mesa. Para isso, foram criadas as feiras itinerantes, que iniciam uma semana depois da abertura da colheita, realizadas no Mercado Público e bairros de Pelotas. A reativação da Festa foi esforço conjunto entre instituições com o objetivo de promover a cultura e incentivar a entrada no mercado de mesa.


Indústria começa a se preparar para a safra


O mês de setembro é de preparativos para a indústria conserveira, quando intensifica atividades de manutenção e compra de insumos como lata, açúcar, papelão, à espera da nova safra que se aproxima. “A indústria está sempre adequando equipamentos e máquinas ao longo do ano, mas em setembro isto se intensifica”, ressalta o presidente do Sindicato da Indústria de Doces e Conservas Alimentícias de Pelotas (Sindocopel), Paulo Crochemore. O Sindocopel é formado por representantes das 13 indústrias que existem na região, com capacidade para envasar até 75 milhões de latas. ”Porém, temos envasado em torno de 45 milhões de latas por safra, o que atende ao mercado brasileiro”, garante.


A nova safra ainda é uma incógnita para a indústria, que precisa concluir levantamentos de campo e avaliar o seu tamanho. “Precisamos de um pouco mais de tempo, pois estamos na floração e um pouco cedo para estimarmos a produção. Em breve, associação dos produtores e indústria começarão a se reunir para discutir o preço mínimo”. Ficou acordado que o preço seria o da safra passada, no entanto mais à frente o assunto volta a ser discutido, pois vários fatores precisam ser avaliados.


As vendas de pêssego em calda ocorrem ao longo de todo o ano com volumes maiores no segundo semestre. “A procura pelo produto está aumentando gradativamente, mas volumes comercializados só teremos mais adiante”, finaliza.


Redator: Tradição Regional



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