Sexta, 05 de junho de 2026, 01:43h
Home Rural
Há poucos anos, dominava o ponto de vista de que as mulheres da zona rural tinham atividades restritas aos afazeres do lar, mantinham-se à sombra dos chefes de família e participavam, quase anonimamente, da rotina pacata do interior. O acesso às tecnologias e o desejo de realizar sonhos de maior independência e participação na própria vida familiar mudaram o antigo panorama. Hoje, muitas mostram resultados efetivos e assumem posição de destaque em várias áreas.
As mulheres do campo, hoje em dia, são essenciais para valorização do meio e desempenham atividades que lhes alimentam a autoestima. Na busca de alternativas de renda, com a finalidade de manter ou elevar a qualidade de vida da família, ampliar a socialização e compartilhar experiências, abraçam vocações muitas vezes adormecidas. O incentivo, apoio e participação de órgãos técnicos, como a Prefeitura, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), e a Emater mostram-se indispensáveis às empreitadas.
Do escritório à chácara e à lavoura
Tatiane Domingues Blank, com Ensino Médio completo, técnica em informática, trocou, há mais de oito anos, a gerência administrativa de um escritório pelas atividades primárias da chácara de caquis e das lavouras de milho e de morango. Toda a produção é levada por ela à feira livre.
Há 12 anos casada com Rafael e mãe de Rafaela (11), Tatiane é registrada como produtora rural e conta que, quando casou, optou junto com o marido a abrir mão das atividades ligadas à cidade para dedicar-se com exclusividade à produção primária, em terras cedidas pelo pai, em comodato. Na banca da feira livre, milho-verde e caqui atraem a freguesia. Na época do morango, a fruta comanda as vendas.
“Levanto cedo, atendo minha filha e faço a lida da casa. No horário em que ela está no colégio, vou para o campo, tratar de todas as atividades. É um sonho realizado. Não troco a vida rural e a feira por outra”, confessou.
Tatiane mora no Cerrito Alegre, 3º distrito de Pelotas e é filha de produtores. Muitas vezes, teve que levar a filha pequena à feira. A menina também está familiarizada com as atividades rurais. A chácara de caqui exige o processo de colheita manual, armazenagem em estufa e acondicionamento para transporte, até a fruta ser levada ao consumidor. O milho tem plantio mecanizado, mas depende de preparo do solo. O morango envolve plantação de mudas e colheita. Todas as ações demandam tempo e dedicação.
“A mulher do meio rural está mais esperta, cuida de tudo. Planta, colhe, dirige, carrega, transporta e vende. Mas, para tanto, tem que gostar do que faz. Isso é o ponto de partida para pôr a cara e ir em frente. Tudo que adquiri foi através da feira, da lavoura e do pomar”, exclamou. Pelotas possui 38 pontos de feiras livres. São 195 bancas e, deste total, 60 estão registradas em nome de mulheres.
Do sonho à agroindústria
Há cerca de três anos, a Casa Amarela está consolidada como uma das prósperas agroindústrias do interior de Pelotas, registrada no Serviço de Inspeção Municipal (SIM), vinculado à SDR, e com licença ambiental para atuar na fabricação de queijos, doce de leite e rapaduras no 3º distrito, Cerrito Alegre.
Maria Denise Iganci era produtora de leite e fabricava queijos com métodos caseiros e em pequena escala. Sempre alimentou o sonho de se tornar empreendedora. Com o incentivo da Emater e posterior acompanhamento técnico e encaminhamentos da SDR conseguiu ir adiante.
“Assisti a uma palestra da Emater na Administração Distrital do Cerrito Alegre. Convenci-me de que minha vontade era viável. Eu tinha um sonho, mas, até então, não sabia nem por onde começar. A orientação que recebi foi indispensável e me colocou no caminho certo”, afirmou. Denise, com entusiasmo e vocação empreendedora, montou a Casa Amarela, onde fabrica queijos tradicionais e temperados, doce de leite e rapaduras. Adquire o leite do rebanho do seu próprio irmão e, sozinha, é responsável por todas as linhas de produção da agroindústria, que são comercializadas em eventos e na própria sede, no 3º distrito. “Quando eu vendia leite, os ganhos eram pequenos e eu queria agregar valor à produção. Além disso, entregar um produto ao consumidor e receber elogios não têm preço. Só tenho a agradecer à Emater e à SDR pelo estímulo e acompanhamento”, complementou.
Capacitação
Produtoras do interior buscam novas alternativas para geração de renda. Para atendê-las, a SDR firmou parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) a fim de disponibilizar cursos de capacitação em diversos distritos.
As aulas de formação têm aberto caminhos às mulheres do campo nos ramos de aproveitamento integral de alimentos, fabricação caseira de derivados de leite, embutidos, criação de peixes em água doce, panificação caseira, tortas e docinhos, bolachas e salgadinhos, artesanato com porongo, beneficiamento de frutas e de hortaliças, tingimento e pintura em tecido. Outros ramos, como artesanato em palha e em material reciclável, inclusão digital, plantas medicinais, cultivo de hortaliças, gestão da propriedade rural, qualidade de vida no meio e GPS também recebem grande procura.
Turismo rural
A atividade do turismo rural tem se destacado como relevante alternativa de diversificação de renda às famílias do meio. A mulher cumpre destacado papel nessa área como empresária ou colaboradora na gestão. Os ganhos revertem-se à qualidade de vida, por meio de autonomia financeira. Dos 34 empreendimentos de turismo rural cadastrados em Pelotas, 14 têm a gerência feminina e todos contam com a mulher na administração.
Prefeitura e Emater
Convênio entre a Prefeitura e o Escritório Municipal da Emater/RS-Ascar Pelotas possibilita o desenvolvimento de ações em parceria com as secretarias, em especial, com a de Desenvolvimento Rural. Em relação às mulheres, o trabalho é voltado a que acessem as políticas públicas disponíveis nas esferas do Município, Estado e União, e tenham garantia de seus direitos sociais.
Entre as políticas públicas, estão o acesso à documentação (inscrição no CadÚnico, inscrição para Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) e Registro para acesso à Carteira de Pescadora); participação em fóruns territoriais, como o Fórum da Agricultura Familiar da Região Sul do RS; inclusão produtiva por meio do Programa de Fomento às Atividades Rurais; acesso ao crédito por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – Pronaf Mulher; comercialização de alimentos via Programa de Aquisição de Alimentos (PAA); e Programa Estadual de Agroindústria Familiar.
Na recente Chamada Pública realizada pela Prefeitura para compra de alimentos por meio do PAA, dos 25 agricultores selecionados 18 são mulheres. Das 67 famílias que participam do Programa de Fomento, em 64 delas os recursos repassados pelo governo são recebidos e administrado por mulheres.
Fechar X
Fechar X
Av. Imperador Dom Pedro I, 1886, sala 1 - Bairro Fragata - CEP: 96030-350 - Pelotas/RS
E-mail: [email protected] / Telefone: (53) 3281 1514
© Todos os direitos reservados