Quinta, 04 de junho de 2026, 23:11h
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O dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, começou cedo para milhares de trabalhadoras rurais. O ponto de partida foi cada um dos 12 municípios integrantes da regional sul da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag/RS). O ponto de encontro foi um paradouro junto à BR-116, em Cristal, onde eram aguardadas para um dia de atividades às margens do Rio Camaquã. De Pelotas, Capão do Leão e Arroio do Padre, um animado grupo foi reunido pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pelotas, que se juntou à caravana de Canguçu, Piratini e Morro Redondo.
Já na chegada, as lideranças regionais da federação e sindicatos organizaram as participantes para uma caminhada curta, de pelo menos um quilômetro, pelo acostamento da BR-116. Com bandeiras e faixas, elas protestaram pelos seus direitos. Na extensa pauta, segurança no campo e previdência justa foram os motes principais, segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Pelotas, Nilson Loeck. “É preciso estarmos unidos para que nossas reivindicações sejam ouvidas e nossos direitos respeitados”, salienta ao destacar a força das mulheres e deste evento realizado há mais de dez anos pelos sindicatos dos trabalhadores rurais a cada ano em um município diferente.
De acordo com os organizadores, a reforma da Previdência Social, da forma como foi encaminhada pelo governo federal ao Congresso Nacional, no mês passado, poderá elevar a idade de aposentadoria da mulher, de 55 anos para 60 anos.
A estimativa dos organizadores foi que mais de mil pessoas participaram da programação, que ocorreu no balneário de Cristal. Encontros semelhantes aconteceram em outros 20 pontos do estado, na sexta-feira (8), e três no sábado (9), reunindo pelo menos 60 mil pessoas em todo o Rio Grande do Sul, estimou o vice-presidente da Fetag RS, Nestor Bonfanti, que deu as boas vindas às trabalhadoras rurais.
Bonfanti lembrou ainda que em agosto, representantes do RS estarão participando nos dias 13 e 14, em Brasília, da Marcha das Margaridas 2019, que irão levar as reivindicações das trabalhadoras e defender entre outros temas, a importância da família e da agricultura; a falta de renda na propriedade advinda das dificuldades na produção de leite na estiagem; a violência contra a mulher; o Sistema Único de Saúde (SUS); e a Sindicalização da Mulher.
A prefeita de Cristal, Fábia Richter, saudou as visitantes e propôs uma reflexão sobre o papel da mulher e a importância da participação nos sindicatos, não apenas como associadas, mas à frente da instituição, como presidentes. “Quantos sindicatos aqui têm mulheres como presidentes”, desafiou a prefeita. E afirmou que para o próximo ano gostaria de ver as mulheres presidindo os sindicatos. Segundo o representante da Fetag, entre os 321 sindicatos filiados, não chega a 10% o número de mulheres na presidência.
Segundo a Fetag-RS, o Rio Grande do Sul possui mais de 1,3 milhão de agricultores familiares. Cerca de 378 mil famílias são responsáveis por mais de 70% dos alimentos que vão à mesa dos brasileiros. “A profissão nem sempre é valorizada pela sua importância social, econômica e ambiental”, comenta o representante da Fetag.
Ele acrescenta que estes agricultores produzem no sistema familiar, fazendo do meio rural um modo de vida, contribuindo para a segurança alimentar e preservação da diversidade cultural e social da população.
Para a federação, a reforma da Previdência proposta pelo governo é “um verdadeiro afronte e uma grande discriminação às mulheres trabalhadoras rurais, que ao longo de suas vidas cumprem uma dupla jornada de trabalho, em casa e na roça, em uma atividade insalubre, sem direito a férias e 13º salário”. “Se aprovada, a mulher trabalhadora rural que hoje se aposenta aos 55 anos passará para 60 anos, a mesma idade dos homens”, diz Bonfanti.
Entre outras reivindicações defendidas pelo movimento, estão: garantia no acesso a terra e moradia digna; financiamentos com juros justos; seguro agrícola e recursos garantidos no orçamento para compras institucionais; saúde pública e de qualidade, com o fortalecimento do SUS e cumprimento dos repasses obrigatórios das esferas governamentais (federal, estadual e municipal); criação de centros de atendimento para pessoas com necessidades especiais; políticas públicas específicas para saúde da mulher e fortalecimento dos hospitais regionais.
A luta das mulheres do campo, assim como as mulheres da cidade, é pela garantia de uma melhor qualidade de vida, sem violência, acesso a terra e aos bens produtivos, a segurança, nutrição alimentar, trabalho decente, educação e saúde, incluindo o empoderamento na gestão da propriedade e na geração de renda.
Elas também pedem ampliação da rede de apoio para as mulheres vítimas de violência e ampliação da Patrulha Maria da Penha, com delegacias e atendimentos de profissionais especializados. Dados do Observatório Estadual de Segurança Pública indicam que somente em 2019, 3.503 mulheres foram vítimas de ameaças no estado, 2.049 sofreram algum tipo de lesão corporal, 130 foram vítimas de estupro, quatro de feminicídio consumado e outras 47, tentado.
A pauta incluiu ainda temas locais e regionais como a finalização da duplicação da BR-116 e contra a mineração de metais pesados na bacia do Rio Camaquã.
A organização do encontro ocorreu por conta da Associação dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais da Regional Sul (ASTRRS), que abrange 14 sindicatos e 19 municípios, e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cristal, com o apoio da prefeitura. Entre outras atividades, foram programados shows, apresentações artísticas e aula de ginástica para as participantes. No local, bancas de flores, artesanatos e alimentos davam uma mostra do trabalho de produtoras locais. O encontro teve ainda, a participação da Emater que recebeu as trabalhadoras em seu estande com suco verde e água saborizada, além do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-RS) e Sicredi Zona Sul. O dia, que se mesclou entre sol e chuva, não desanimou as trabalhadoras, que participaram ativamente de cada uma das atividades.
Redator: Tradição Regional
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