Quarta, 03 de junho de 2026, 23:25h
Home Rural
O projeto – que envolve Prefeitura e agricultores – tem a assessoria técnica da Emater/RS-Ascar.
O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) foi criado para assegurar o direito humano à alimentação adequada. É voltado às pessoas atendidas pelos serviços da Secretaria de Assistência Social (SAS). O projeto – que envolve Prefeitura e agricultores – tem a assessoria técnica da Emater/RS-Ascar.
Os alimentos são utilizados nas refeições oferecidas aos usuários dos Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), Centros de Referência de Assistência Social (Cras), Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), abrigos de crianças e adolescentes, idosos, residência inclusiva, Casa Luciéty e Casa de Passagem, e nas cestas oferecidas a famílias em situação de vulnerabilidade.
O recurso para a compra – R$ 400 mil para utilizar em 2019 –, que antes saía do orçamento municipal, passou a ser custeado pelo Governo Federal. A principal diferença, no entanto, está nos fornecedores dos alimentos. Instituído em 2003, como parte do Programa Fome Zero, o PAA tem o objetivo de garantir a segurança alimentar de quem consome e renda a quem produz. Todas as frutas, verduras, hortaliças e grãos saem diretamente das propriedades rurais da região, vendidas pelos próprios agricultores, sem a participação de intermediários.
De acordo com o secretário da SAS, Luiz Eduardo Longaray, em 2018 a Assistência Social investiu R$ 180 mil em hortifrutigranjeiros. Com o PAA, além de aumentar o volume de alimentos, que agora são acessados por mais famílias, por serem pagos pelo Governo Federal, os recursos municipais podem ser utilizados em outras áreas ou ações. “Além de fortalecer os agricultores, o Programa promove a qualidade e a variedade dos alimentos para as pessoas abrigadas e às famílias atendidas, promove o emponderamento das mulheres e comunidades quilombolas, e elimina o atravessador”, avaliou Longaray.
O técnico da Emater, Robson Loeck, explica que a relação direta reduz o custo, aumenta a qualidade dos alimentos que chegam às mesas, a renda do produtor, mantém os recursos na região, e reduz o êxodo rural e suas consequências. Nas compras tradicionais os alimentos podem vir de qualquer lugar do país. Às vezes passam dias nas estradas. Para que aguentem viagens longas são utilizados aditivos químicos. Com os alimentos comprados na região isso não acontece, o que evita vários problemas de saúde em quem os consome.
Comunidades Quilombolas produzem alimentos para o município
Um dos grupos responsáveis pela entrega ao PAA é composto de integrantes de comunidades quilombolas – Alto do Caixão, do Algodão e Vó Elvira. Eles produzem sem o uso de agrotóxicos e alguns tem certificação de produto orgânico. Para enriquecer a terra, em vez de usar adubos químicos, usam esterco e folhas decompostas. Às vezes a terra fica “forte demais”. Quando surgem pragas, o problema é combatido com produtos neutros, como chás de hortelã ou urtiga. “Aí não tem problema, a gente pode consumir”, explica Diana Willrich. Para ela, se os pais comerem bem, os filhos também comerão. “E os netos, bisnetos, tataranetos...”, garante ao apostar em uma mudança de cultura para as futuras gerações.
Diana vive com o marido, três filhos e os sogros. No PAA é responsável pela entrega de beterraba, cenoura, pepino e laranja. Mas quem circula pela propriedade encontra muitas outras culturas. Caqui, goiaba, batata doce, couve… dali sai quase toda a alimentação da família. Pouco precisa ser comprado. Assim ela sabe exatamente a qualidade dos alimentos que oferece aos filhos. Filha de agricultores, Diana nasceu na zona rural e garante que de lá não sai. “Da colônia eu só saio pro chãozinho (referindo-se à morte). Cidade é só pra passear e olhe lá”, diz. A pequena produtora rural assegura não se importar com o trabalho duro nas plantações ou na cozinha — que garante parte da renda da família.
Os filhos estão em harmonia com a mãe. O mais velho, de 16 anos, pretende fazer um curso de mecânica e atuar no local. O do meio, hoje com 11 anos, sonha em estudar no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul) Campus Visconde da Graça, antigo CAVG, e voltar para aplicar nas terras da família o que aprendeu. Apenas o mais novo, de seis anos, ainda não traçou seus planos para o futuro.
Daizi e Ademir da Silva também têm três filhos, mas todos adultos. Dois deles optaram pela cidade, estudaram e criaram raízes. O mais velho, Charles, ficou perto dos pais. Eles já plantaram fumo e forneceram alimentos orgânicos a uma cooperativa. Daizi também produzia pães, até que teve sérios problemas de saúde, o que limitou seus movimentos por um tempo. Hoje, recuperada, não se sente segura para trabalhar longe de casa. Mas se entusiasmou com a possibilidade de fornecer ao PAA. Fez uma horta ao lado da casa e é a responsável por ela. Não gosta que o marido mexa. Quem sabe o momento de colher é ela. “Na horta eu me garanto”, diz, revelando que usa 50 cm de esterco ou humos para adubar a terra. O humos ela retira de “uma baixada” atrás da casa, onde caem e se decompõem as folhas.
A venda é uma dificuldade comum entre os agricultores. Muitos entregam a atravessadores, por vezes sem poder discutir preços ou prazo para pagamento, além de não saberem com antecedência o que será solicitado e produzirem algo que não terá saída. Muitos alimentos são distribuídos entre os vizinhos, os animais da propriedade, ou acabam estragando. O ingresso no PAA reduziu o problema. Eles sabem o que precisam entregar e quanto receberão.
Adriana Lacerda Siqueira produz alface, tempero verde, couve e abóbora para o Programa. Além de feijão e beterraba para consumo. Ela conta que sempre sonhou em ter uma horta e em 2013 acessou recursos do Governos Federal – Programa de Fomento Produtivo às Atividades Rurais – com projeto da Emater. Inicialmente era produção para subsistência, depois conseguiu produzir mais do que necessitava e poderia vender o excedente. “Eu não conseguia vender pra ninguém. Dava pros vizinhos”, diz. O PAA se tornou um importante aliado na comercialização da sua produção. À medida que produz envia para a SAS, além de alimentar a família e ajudar os vizinhos mais próximos.
O presidente da Associação do Quilombo do Algodão, Nilo Dias, produz para o Programa abóbora, batata e cenoura. Mas sua propriedade tem outras culturas, como mandioca, batata doce, milho, pimentão, couve, tempero verde, beterraba, cebola, bergamota, laranja e amendoim. Ao ser questionado se o amendoim era consumido no domingo deixou claro o quanto quem é da cidade não entende da vida no campo. “Não. Pra dia de chuva. Aqui na colônia a gente não tira férias, mas dia de chuva a gente não trabalha”, afirmou, sem parecer considerar trabalho a preparação dos alimentos para o transporte, o debulhar dos grãos, a preparação das mudas e tantas outras tarefas feitas, também, em dias de chuva.
Redator: Assessoria de Imprensa
Fechar X
Fechar X
Av. Imperador Dom Pedro I, 1886, sala 1 - Bairro Fragata - CEP: 96030-350 - Pelotas/RS
E-mail: [email protected] / Telefone: (53) 3281 1514
© Todos os direitos reservados