Sexta, 10 de julho de 2026, 05:06h
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A agricultura familiar representa 27% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, e 31% do PIB do país
No sul do Brasil, onde a imigração foi mais forte, a palavra colono ainda é usada para definir os trabalhadores rurais que tiram da terra o sustento. Por todo o Rio Grande do Sul (RS), existem as feiras dos colonos, onde eles vendem desde frutas e verduras, até doces e artesanato, no entanto, o colono de origem foi o trabalhador rural estrangeiro que veio para o Brasil logo após o fim da escravidão, no fim do século 19 e início do século 20, para substituir os escravos nas lavouras, em especial as de café.
Eles trabalhavam em regime de colonato, ou seja, moravam em casas dentro da fazenda, trabalhavam nas lavouras e recebiam em troca uma parte da colheita ou então podiam cultivar para seu próprio sustento em certas partes de terra. Eles eram trabalhadores livres e chegavam ao Brasil com o sonho de, com seu trabalho, comprar terras no país, sonho este impensável na Europa de então. Mas as condições de contrato eram regulamentadas por lei e sempre beneficiavam mais os fazendeiros que os trabalhadores.
Hoje, após ajudar a construir uma nação e fundar muitas comunidades em todo o RS – cada uma com suas particularidades étnicas e culturais - os pequenos agricultores continuam tirando da terra o alimento que vai para a mesa de todo brasileiro. Prova disso, é que a agricultura familiar representa 27% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, e 31% do PIB do país. Tamanha capacidade econômica é tocada, em sua maioria, pelos descendentes das famílias que povoaram os rincões gaúchos, conhecidos na atualidade como agricultores familiares.
Esta força de trabalho prima pela diversificação e pela ocupação da mão de obra de toda família, incluindo cada membro no dia a dia puxado da lida no campo. A força econômica dos novos colonos é tão grande que o setor já exige políticas de preço mínimo, fazendo com que o produtor e a produtora, ao plantarem, tenham garantia de preço na comercialização. Só no Estado, o Ministério do Desenvolvimento Agrário alcança mais de 280 mil contratos do Pronaf, o que incentiva a produção sustentável de alimentos de qualidade e a estabilidade de preços para o consumidor.
Segundo o produtor rural de Turuçu, Gilmar Peter, de 57 anos, hoje trabalhar no campo é mais fácil e o agricultor tem melhores condições de vida. “Quem trabalha bem e sabe investir não fica sem receber”, considera ele, cuja família está há gerações no setor. “Já plantamos de tudo aqui, mas agora temos só a plantação de forragens, a criação de aves e a produção de leite, pois é difícil cuidar de muita coisa ao mesmo tempo. Por isso, decidimos nos especializar só nesses setores e não nos arrependemos”, afirma Peter.
Conforme ele, na sua propriedade, toda a família ajuda no dia a dia, pois a contratação de funcionários tornaria inviável a obtenção de lucro. “Sempre foi assim, a família inteira trabalhando junta”, assegura. Atualmente, a família Peter, uma das associadas da Cooperativa Sul-rio-grandense de Laticínios (Cosulati), está investindo na ampliação da criação de aves com a construção de mais um galpão criatório, o que elevará a capacidade produtiva dos pouco mais de cinco mil frangos, para mais de 17 mil animais. Além disso, eles também apostam na cadeia do leite, com a criação de 52 vacas leiteiras, cuja produção chega a mais de 13 mil litros por mês.
Os números hoje
A importância econômica e social da agricultura familiar para o país e para o Estado foi apresentada pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, na sexta-feira (13), durante a 5ª edição do evento Brasil de Ideias, promovido pela Revista Voto. Na ocasião, o ministro ilustrou com números a dimensão e o papel da agricultura familiar para o desenvolvimento do país, realçando que dos 5,1 milhões de estabelecimentos rurais brasileiros, 4,3 milhões são da agricultura familiar, o que corresponde a 84% do total de estabelecimentos rurais, ocupando apenas 24% da área agrícola do país.
O ministro também destacou que a agricultura familiar produz 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros, sendo responsável por 28% das exportações do setor agropecuário, seja em cadeias produtivas integradas ou em cooperativas cujos associados são agricultores familiares. O ministro citou, ainda, que 74% da mão de obra no campo é oriunda da agricultura familiar. “Nós queremos que, com o passar dos anos, seja fortalecida e que se crie uma grande classe média rural, que produza alimentos saudáveis, porque a agricultura familiar tem essa vocação”, completou.
Contraponto
Na contramão do desenvolvimento do setor, dados coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e apresentados pela Emater/RS-Ascar, mostram que dos 442 mil estabelecimentos rurais que existem no RS, 118 mil (cerca de 30%) não têm um herdeiro definido.
Segundo o presidente da Emater/RS-Ascar, Lino de David, os principais obstáculos para que os produtores assegurem a sucessão dentro da família são decorrentes de fatores econômicos, como a baixa rentabilidade das pequenas propriedades, e culturais, especialmente a dificuldade das gerações mais velhas de incluir seus filhos e netos na administração dos recursos.
De acordo com o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Elton Weber, uma pesquisa realizada junto a pequenos produtores rurais indicou que 32,5% dos entrevistados não sabem se um membro da família herdará suas propriedades. Além disso, conforme Weber, em 44% dos estabelecimentos rurais no Estado as famílias dos produtores já possuem ao menos um integrante cuja renda é proveniente de atividades urbanas, como emprego em indústrias ou comércio. "Precisamos de políticas públicas específicas para manter a juventude rural no campo", destacou.
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