Segunda, 06 de julho de 2026, 00:06h
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Julia já produziu 42 litros de leite em 24 horas, cerca de 20 litros a mais do que vacas “normais”
Assim como o ouro, o Jersey é pequeno, amarelo e de grande valor. O Jersey é a raça ouro do Brasil”
Darcy Bitencourt
A atividade leiteira vive um momento diferenciado e o produto final tem se valorizado cada dia mais. O pecuarista que dispor de animais de qualidade sentirá, literalmente no bolso, o retorno do trabalho. O rebanho de Jersey, mesmo menor do que o de Holandês no Estado, tem despertado o interesse do produtor, já que o leite derivado dessas vacas conta com uma taxa de proteínas e gorduras maior. Cerca de 12% do produto final é de sólidos e são exatamente esses sólidos que determinam o valor pago pela indústria, que busca produtos rentáveis. Um exemplo claro é na fabricação do queijo. Se usarmos leite de outras raças para produzir um quilo do alimento será necessário cerca de 11 litros. Da Jersey, somente oito.
Além de produzir um leite mais nutritivo, com 15% a mais de cálcio e 20% a mais de proteínas, a Jersey se destaca pela capacidade de converter pasto em leite e pela facilidade de adaptação em diferentes tipos de sistemas, estabulado ou a pasto, e de climas, sendo mais tolerante ao calor. Outra vantagem de trabalhar com a raça é que por serem animais de porte menor, não necessitam de tanto alimento, além de apresentarem menos problemas de pés e pernas.
Mas como todo animal de leite, o manejo é um pouco mais delicado. Segundo o presidente da Associação de Criadores de Gado Jersey de Pelotas (ACJPel), Darcy Bitencourt, até mesmo detalhes da rotina podem influenciar na produção. “Se tu trata o animal de forma diferente um dia, se muda a alimentação ou fornece menos água ele já não produz tão bem. Por isso é importante desenvolver um trabalho sério e rigoroso”.
O presidente, que também é pesquisador da Embrapa Clima Temperado, fala com propriedade sobre o assunto, afinal, são mais de 15 anos dedicados a desenvolver sistemas que potencializem a produção. No currículo, participação em órgãos importantes para o setor, como na Câmara Setorial do Leite, na Comissão Nacional de Pecuária de Leite e na CPI do Leite, em meados de 2002. Mas a criação de um centro que recria animais da raça Jersey, situado dentro da Estação Terras Baixas da Embrapa, é um dos seus maiores orgulhos.
O Centro de Recria e Seleção de Bovinos da Raça Jersey (Certon) foi fundado em 2008, a partir de uma experiência bem sucedida, realizada de 1998 a 2003, na recria de bovinos. No princípio, o Certon foi criado para dar destino aos touros nascidos no Sispel, que é um Sistema de Pesquisa e Desenvolvimento em Pecuária Leiteira, instalado também por ele na década de 90. As vacas eram aproveitadas, mas os terneiros machos ficavam sem utilidade. Bitencourt resolveu então pegar esses animais, que estavam magros e soltos no banhado e recriar. A ideia inicial era trabalhar somente com touros e novilhas nascidos naquele espaço e selecionados como animais de potencial.
O pesquisador lembra que na primeira exposição de Jersey foi colocado fora do galpão, longe dos outros animais. A razão era simples, só tinha touros e teoricamente ninguém iria querê-los. “As pessoas do meio achavam que nós éramos loucos. Mas aos poucos começamos a vender os animais que recriávamos e foi um sucesso. Além de incentivar os produtores, vendendo terneiros a preços razoáveis, melhorávamos a genética da região, já que nossos animais vinham de uma das melhores cabanhas do mundo”.
À medida que o trabalho foi se desenvolvendo, o pesquisador viu que além de dar destino a animais inutilizados, o método de recria poderia melhorar a genética da raça no RS, já que busca desenvolver o máximo do potencial dos animais. E por isso mesmo certos ajustes foram realizados. Antes, só terneiros e novilhas selecionados eram recriados. A partir de 2011, todos os bovinos nascidos no Sispel são acompanhados. Machos e fêmeas, ao serem desaleitados, com 60 dias, são enviados ao Certon para serem recriados e selecionados a partir de alguns pré-requisitos, como a quantidade de leite que produz. Para ser selecionada, a vaca, no 10º dia depois de parir, precisa estar produzindo mais de 20 litros de leite. Quando isso acontece, ela é visto como um animal diferenciado e continua sendo trabalhada até a terceira ou quarta cria, para depois ser indicada para transferência de embrião. Os animais que não alcançam esse número são devolvidos para o Sispel.
Colhendo os resultados
A sala do pesquisador, dentro do prédio principal do Certon, é a prova de que o trabalho vem dando certo. Medalhas, troféus, homenagens. São dezenas de títulos conquistados pelas feiras e exposições que participa. O último, e de que ele fala com mais orgulho, é a conquista do 1º Lugar no Concurso Leiteiro, acima de 26 meses, na Expointer 2013. A vaca que conquistou mais esse título e levou o nome da Embrapa Clima Temperado para o caderno internacional da Feira foi a “Embrapa 226 Julia Iara Jade”.
A conquista era um dos alvos pessoais de Bitencourt. “Conseguimos ganhar um concurso leiteiro na Expointer, que era algo que buscávamos há muito tempo. Já tínhamos ganhado em diversos lugares, mas Esteio seria o ápice, e nós conseguimos”.
Mas a recente vitória não fez com que o pesquisador se acomodasse. Além de querer aprimorar os resultados já obtidos e quem sabe concorrer em um concurso nacional, Bitencourt almeja vencer no Julgamento Morfológico da Expointer. “Nosso grande projeto agora é ganhar em pista na Expointer. Não será fácil, mas se conseguirmos teremos atingido as duas maiores conquistas em Jersey na América do Sul”.
O Jersey na Expofeira
A participação do Jersey será intensa na 87ª edição da Expofeira. Superando até mesmo a Expointer, que reuniu cerca de 120 animais, a Associação Rural de Pelotas será palco para 127 bovinos, de 17 cabanhas, serem apreciados pelo público nos concursos leiteiro e morfológico. Além disso, 32 bovinos participam do remate, a ser realizado no sábado (12), às 12h.
O Certon está representado através de 12 animais, sendo seis novilhas e seis vacas de leite.
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