Domingo, 05 de julho de 2026, 11:53h
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Mais de 3,5 mil pessoas – entre pesquisadores, técnicos, estudantes e produtores rurais – acompanharam na manhã desta segunda-feira (25), a abertura oficial do VIII Congresso Brasileiro sobre Agroecologia (CBA), evento que ocorre até quinta-feira (28), no Centro de Eventos da PUC e no Clube Farrapos, em Porto Alegre. Após apresentação da Orquestra Jovem de Porto Alegre, o diretor técnico da Emater/RS e presidente do VIII CBA, Gervásio Paulus, deu as boas vindas aos participantes e aos demais componentes da mesa. Participaram da solenidade de abertura o ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, o secretário de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo (SDR), Ivar Pavan, a deputada estadual Marisa Formolo, que representou a Assembleia Legislativa do RS, o presidente da Emater/RS, Lino De David, além de representantes da Embrapa, Ministério da Agricultura, Pecuária e Agronegócio (Mapa), UFRGS, Associação Brasileira de Agroecologia e da Itaipu Binacional.
Após apresentação da Orquestra Jovem de Porto Alegre, o presidente do VIII CBA deu as boas vindas aos participantes e falou sobre a importância do evento. “Estamos diante de uma crise, não apenas econômica e ambiental, e sim do processo civilizatório. Por isso definimos como tema principal Cuidando da Saúde do Planeta. Este espaço servirá para reflexão, debate e discussão, contribuindo com mudanças paradigmáticas para estilos de agricultura mais sustentáveis”, destacou Gervásio Paulus. “Nada é mais poderoso do que uma ideia que chegou, e a Agroecologia chegou para ficar”, completou.
Dando sequência ao discurso de Paulus, o presidente da Associação Brasileira de Agroecologia, Paulo Petersen, disse que recentes relatórios divulgados pela ONU têm anunciado uma crise sistêmica global multifacetada, tendo a agricultura como centro, ora como algoz, ora como vítima. “A agricultura está numa encruzilhada, e a Agroecologia é a matriz tecnológica que consegue enfrentar a raiz dessa crise. Nós vivemos uma crise que gera círculos viciosos que se retroalimentam”, afirmou Petersen, citando como exemplo a liberação do uso de princípios ativos para combater a helicoverpa armigera, uma praga que tem atacado lavouras e causado enormes prejuízos no país. “A razão para a explosão populacional da helicoverpa é fruto de condições tecnológicas que propiciaram o surgimento dessa praga, como a liberação de milho e algodão transgênico”, explicou.
O secretário Ivar Pavan destacou as políticas públicas do governo do Estado de incentivo à produção de alimentos mais saudáveis, principalmente as que dizem respeito à Assistência Técnica e Extensão Rural e Social. “Uma das diretrizes do atual governo é transitar do atual modelo de agricultura para um de base ecológica. E, para isso, temos que investir na Emater, cujos técnicos constroem o conhecimento junto ao agricultor familiar”, afirmou Pavan, alertando que muitos produtores rurais têm sido assessorados por representantes da indústria agroquímica, o que explica, de certa forma, a utilização excessiva desses produtos no Brasil, considerado o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Conforme Pavan, o RS tem 8,5 mil agricultores que se dedicam à produção orgânica, o que representa em torno de 2% do total. “Queremos incluir mais 15 mil famílias gaúchas nesse modelo, permitindo expandir a produção, facilitada pela grande demanda por produtos e alimentos mais saudáveis”, disse.
“Não é novidade dizer que o planeta precisa de novas formas de produção e consumo. Há 20 anos, era pouco perceptível essa concepção. Hoje, com certeza, esse imperativo se faz necessário”, afirmou o ministro Pepe Vargas. Conforme Vargas é imprescindível que se debata e se busque um novo modelo de produção. “A cultura hegemônica, incrustada em todo o nosso tecido social – universidades, órgãos públicos e produtores rurais –, é aquela decorrente da Revolução Verde, baseada no aumento da produtividade e renda, sem preservar os recursos naturais. O nosso grande desafio é conquistar quem não está nessa sala, mas que também quer alimentos saudáveis e uma agricultura sustentável”, pontuou Vargas. Conforme dados do Censo Agropecuário do IBGE, são 75 mil produtores agroecológicos no país, contra 5 milhões e 100 mil estabelecimentos rurais. “Temos um desafio muito grande, e aqui entra o papel fundamental da Assistência Técnica e Extensão Rural para levar ao produtor a informação necessária”, finalizou.
Para o governador Tarso Genro, a sociedade e o Estado devem se organizar para que se tenha a Agroecologia como essência. “Gostaria que a longo prazo tivéssemos apenas um Ministério, o da Agricultura e Sustentabilidade”, disse, explicando que, no atual sistema de desenvolvimento capitalista, há uma disputa pela hegemonia de produção, que se reflete na própria estrutura organizativa do Estado, ao reconhecer um Ministério dedicado ao agronegócio e outro, à agricultura familiar. O governador Tarso Genro falou ainda que a Agroecologia vai além da questão meramente produtiva. “A luta pela Agroecologia é uma luta que concentra todas as dimensões da utopia – de um mundo melhor e de uma sociedade mais igualitária”, concluiu Genro.
O VIII CBA é realizado em paralelo aos Seminários Estadual (XIII) e Internacional (XII) sobre Agroecologia. Nos quatro dias de Congresso, serão quase 80 palestrantes e painelistas brasileiros e estrangeiros e apresentados 1.056 trabalhos orais e por meio de pôsteres. De caráter nacional e internacional, o número de submissões de artigos e relatos de experiências foi 25% superior aos inscritos na edição anterior. Os selecionados serão publicados na Revista Cadernos de Agroecologia, da ABA-Agroecologia, promotora do evento.
A programação completa do evento, inscrições e demais informações podem ser obtidas no site http://www.cbagroecologia.org.br.
Homenagens
Após os discursos da solenidade de abertura, foram feitas homenagens póstumas a dois importantes nomes ligados à Agroecologia: José Antônio Costabeber e Jorge Luiz Vivan. Costabeber foi extensionista da Emater/RS-Ascar por 31 anos, presidente da ABA e professor da UFSM. Já Jorge Luiz Vivan, engenheiro agrônomo, mestre, doutor e pós-doutorado na temática florestal e agroflorestal, teve importantes trabalhos relacionados ao manejo de agroecossistemas.
Palestra de abertura
O teólogo, filósofo e professor Leonardo Boff foi o responsável pela palestra de abertura do VIII CBA. “O pensamento que criou a crise não pode ser o mesmo que nos vai tirar da crise. Tem que ser outro. Temos que inventar uma nova forma de consumir, produzir e nos relacionar com a Terra”, falou Boff, explicando que novas formas de desenvolvimento são necessárias para impedir a degradação da natureza e a extinção da vida no planeta Terra, que precisa de um ano e meio para repor o que é retirado dela em um ano. “A Terra não suporta esse projeto de desenvolvimento e está entrando num processo de doença, manifestada através da febre do aquecimento global”.
Conforme Boff, somente os princípios da Agroecologia - respeitar o ritmo da natureza e se sentir parte da terra – podem romper com a estrutura de desenvolvimento vigente. “Não podemos continuar com o modelo de civilização, de acumulação à custa da devastação dos bens e serviços da natureza. Precisamos compreender a Terra como um grande organismo vivo, que articula o físico, o químico e o biológico de tal maneira que ela sempre reproduz a vida”, explica Boff.
Boff falou ainda sobre a importância da “compaixão” e de se resgatar a “razão cordial” e a “razão sensível”, conceitos que, se incorporados pelas pessoas, podem interromper o processo de destruição da natureza e de extinção dos recursos naturais. “Se fizermos isso, vamos devolvendo lentamente a saúde da Terra. Nunca devemos perder a nossa capacidade de projetar sonhos e utopias. Se pudermos criar uma nova forma de planeta, com relações de inclusão e convivência pacífica, e colocarmos em prática ações para realizar esse sonho, podemos salvar o planeta”, finalizou Boff.
Redator: Assessoria de Imprensa
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