Sexta, 03 de julho de 2026, 23:29h
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Fundado há quase 20 anos em Morro Redondo, Centro de Recuperação Shekinah
“Aqui trabalhamos com a palavra. Nosso objetivo é trazer as pessoas para Cristo”. Firme na escolha de palavras, foi com esta frase que o obreiro responsável pelo Centro de Recuperação Shekinah e ex-usuário de drogas há 17 anos, Valmeri da Silva Porto, recebeu a equipe do Jornal Tradição Regional em uma tarde tranquila de sábado.
Unidade, diversidade e maturidade são os guias do trabalho no Centro, que atualmente trata 17 pessoas. O Shekinah – nome hebraico que significa Glória Visível de Deus -, foi criado em 1995 por membros da Igreja Evangélica Quadrangular. O local, coordenado pelo pastor Gilnei Lourenço sem fins lucrativos, atende jovens e adultos do sexo masculino de toda a região, oferecendo um atendimento focado na disciplina e na doutrina cristã, base do trabalho desenvolvido. “Aqui só fica quem quer realmente se livrar do vício. O tratamento é difícil, pois procuramos não usar medicamentos, e cada um tem suas responsabilidades dentro do grupo, mas é um orgulho quando um deles completa os nove meses e sai daqui disposto a vencer”, apontou Porto, afirmando que os portões do Centro ficam sempre abertos, não mantendo nenhum dos pacientes enclausurados.
No Shekinah, é comum a entrada de jovens das mais variadas situações sociais, porém todos são tratados como iguais e recebem as mesmas tarefas. Dentre as normas, os internos não podem andar sem camisa, falar palavrões e fumar. O Centro não exige pagamento, mas pede uma ajuda de custo às famílias dos pacientes – principalmente àquelas que podem pagar –, além de contar com o apoio da comunidade e de empresários de toda região. Graças a estas doações, foram construídos novos alojamentos para os internos, o que ajuda no tratamento e disciplina dos que estão em tratamento.
Além das normas estabelecidas, o Shekinah conta com oficinas de artesanato, mecânica e reciclagem, entre outras, para manter os pacientes ocupados. A família pode visitar os internos nos segundos domingos de cada mês, participando de atividades, o que é considerado muito importante pelos obreiros na recuperação. “Ensinamos a eles formas de se manterem longe do vício, além de criar uma ligação com a igreja após o tratamento. A vitória deles é a nossa vitória”, afirmou a pastora que organiza as oficinas, Marli Goulart.
A situação no país
Todos os anos, mais de oito mil pessoas morrem em decorrência do uso de drogas legais e ilegais no Brasil. Um levantamento feito pelo Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostra que álcool, fumo, psicotrópicos e a cocaína tiraram a vida de 40 mil brasileiros, entre os anos de 2006 e 2010. Segundo pesquisa encomendada pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), ao Observatório do Crack, as duas principais drogas legalizadas no país, álcool e fumo, juntas, mataram 39.198 pessoas em cinco anos, ou 96,2% do total.
Para o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, há uma urgente necessidade de combater o problema das drogas nos municípios. “A União não está fazendo isso e o problema estoura é nos municípios”, afirma. Ziulkoski diz que a média de cerca de oito mil óbitos, encontrada no SIM, é um número subestimado. “Não há uma cultura de informação dos médicos”, acrescenta. Para ele, “o país precisa ver que a política de prevenção do uso de drogas é precária e a situação é alarmante”.
Prova disto, é que em mais de 98% dos municípios brasileiros o uso do crack e outras drogas, é visto como epidemia. No Rio Grande do Sul, dos 483 municípios analisados pelo Observatório do Crack, mais de 410 convivem com as drogas. Em Morro Redondo, ainda não existem registros com relação ao problema, mas as autoridades públicas mantêm programas e ações preventivas, buscando minimizar os impactos e a influência de outros municípios da região como Pelotas, Canguçu e Capão do Leão, onde o consumo de entorpecentes é considerado alto.
A visão dos internos
"Tenho 41 anos e por 27 usei cocaína, perdi muita coisa. Vim para o Centro para enganar a mim mesmo e a minha família, mas vi que precisava de ajuda, e que aqui ensinam o melhor caminho", contou o ex-usuário Paulo Adriano Malheiro da Silva, já há seis meses em recuperação. Todos os internos do Shekinah falaram à reportagem do JTR sobre a vida sem regras antes do internato, ressaltando a falta de limites que os permitia fazer o que tivessem vontade, sem pensar nas consequências. "Aqui ninguém te obriga, é com a gente e Deus. Ninguém precisa ler a palavra, mas sabemos que é importante. No momento que aceitamos isso, as coisas começam a mudar", completou Silva.
Com idades variadas, os internos chegam ao Shekinah não só com problemas de saúde e psicológicos, mas com a base familiar afetada, e desestruturada em consequência do vício. Falar de mães, irmãs e irmãos, esposas, pais e filhos é o momento que mais emociona os pacientes. Para Mauro Domingues, 55 anos, por exemplo, o reconhecimento do irmão com relação ao avanço do tratamento foi muito gratificante e o fez seguir a luta pela recuperação. No caso de Fábio dos Santos, 33 anos, é a vontade em ser um bom exemplo para os três filhos que o mantém no Shekinah há seis meses. Já para Tayson Machado Borges, 18 anos, além de ver os amigos formados no Centro se recuperando e seguindo a vida após os nove meses de tratamento, é o apoio da família que o faz “ser forte para seguir em frente”.
No dia 17 de agosto, o centro comemora 19 anos de fundação com a realização de uma festa aberta a comunidade. O evento contará com shows e apresentações artísticas que irão ocorrer na sede da entidade, além de uma churrascada. O Shekinah fica na colônia Açoita Cavalo, interior de Morro Redondo. Para mais informações ou doações de qualquer tipo, ligue (53) 3274.7105, (53) 8455-0364 ou (53) 8448-9691.
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