Segunda, 29 de junho de 2026, 12:23h
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Durante três dias, mais de quatro mil pessoas – trabalhadores da área, usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), gestores, trabalhadores, residentes, estudantes e simpatizantes da causa – estiveram reunidas no Galpão Crioulo do Camping Municipal participando da 11ª edição do Mental Tchê. O evento aprofundou o debate sobre a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial, promovendo a troca de experiências e divulgando as ações em saúde mental de São Lourenço do Sul, considerado referência nesta temática.
A abertura oficial do Mental Tchê foi realizada na tarde de quarta-feira (6), com a presença do prefeito, Daniel Raupp, do vice-prefeito, Gilmar Lüdtke, do secretário municipal de Saúde, Arilson Cardoso, da coordenadora municipal da Política de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, Graziela Vasques, entre outras autoridades. Na ocasião, foram destacadas a experiência de São Lourenço do Sul por seus avanços na área e por seu pioneirismo a nível nacional.
O coordenador nacional da Política de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, Roberto Tikanori Kinoshita, representando o Ministério da Saúde durante o evento, destacou a importância de acelerar o processo da reforma psiquiátrica no Brasil. “O ministro da Saúde, Arthur Chioro, ainda muito jovem, já participava da luta pela reforma psiquiátrica, e uma das orientações que ele reforçou foi como devemos acelerar a reforma psiquiátrica no país. Ele afirma que, enquanto for ministro, existe a oportunidade de fazer essa questão seguir em frente”, explica. “É a primeira vez em muitos anos que temos um ministro que deliberadamente aponta para o avanço nessa área”, defende.
Kinoshita afirma que, apesar da conjuntura ser positiva, se vive um momento paradoxal por vários aspectos. Ele salienta a importância das experiências lourencianas para ampliar o debate. “Gosto muito de vir a São Lourenço do Sul, pois a cada oportunidade aprendo algo diferente. O município é uma das experiências mais antigas na área e com certeza tem muito a dizer”. destaca.
Ele também comenta a implantação do primeiro CAPS no município e afirma considerar a reforma psiquiátrica uma política de Estado. “No que tange a questão política, quando começou o primeiro Centro de Atenção Psicossocial aqui, essa experiência inicial foi muito importante e serviu como uma das primeiras essências do debate na Câmara. Quando foi apresentado o projeto de lei, tínhamos experiências de governos ditos de direita, centro e esquerda. Por cerca de 10 anos a Câmara debateu a reforma psiquiátrica considerando todos os vieses políticos. Podemos dizer que a reforma psiquiátrica é uma reforma de Estado”, conclui.
O prefeito, Daniel Raupp, afirma a importância de reunir profissionais precursores na área da saúde mental em São Lourenço do Sul, usuários e seus familiares, estudantes, professores, lideranças estaduais e nacionais, especialistas de outros países, assim como a comunidade em geral para ampliar o debate sobre a reforma psiquiátrica, promover a compreensão da pauta e trocar conhecimento e experiências. “Eu me sinto muito orgulhoso por que nosso município tem mais de 20 anos de uma atuação forte de uma rede de saúde mental estruturada e organizada. Em São Lourenço do Sul tivemos o início de uma trajetória que virou exemplo para o país inteiro. Avançamos em várias áreas”, destaca.
Raupp salienta sua satisfação durante a inauguração do CAPS AD III Pérola da Lagoa, a disposição da comunidade desde setembro de 2014. O espaço destinado ao acolhimento e atividades de reabilitação, grupos e oficinas funciona 24 horas por dia, inclusive nos finais de semana. “Não estamos em um período que só prevalece a democracia, a humanização e o avanço, ainda há muito retrocesso. O nosso desafio como militantes dessa área não é pequeno, por que lutamos contra uma concepção de exclusão”, explica. “Temos que resistir a este retrocesso, temos que resistir por uma sociedade mais ética, humanizada e inclusiva”, conclui.
O secretário municipal de Saúde, Arilson Cardoso, reafirma a importância do Mental Tchê, que ao completar mais de uma década de realização, continua promovendo e ampliando o debate sobre a saúde mental. “O Mental Tchê foi pensado e criado por nós aqui em São Lourenço do Sul em 2005 e a gente se dá conta da sua importância ao constatar todas as transformações que a saúde mental passou neste período. O Galpão Crioulo está lotado durante o evento, a cada ano mais pessoas participam do Mental Tchê”, relata. “De São Lourenço do Sul já saíram diretrizes para alterar formas de tratamento baseadas nas nossas discussões no Mental Tchê, profissionais se atualizam para encontrar formas de enfrentar em seu município os problemas com as drogas e o sofrimento mental da criança e do adolescente. Também se atualizam sobre como estruturar serviços em território e serviços substitutivos à internação de pacientes, por uma expertise de nosso município em relação a isso. Para o Mental Tchê trazemos as pessoas que são referências, fazem o melhor possível em sua área de atuação”, explica.
O município é referência por sua rede de saúde mental estruturada e organizada. Através do projeto Percursos Formativos na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), promovido pelo Ministério da Saúde, o município recebe intercambistas de outros estados com objetivo de proporcionar a troca de experiências e acompanhamento do trabalho feito em rede. “São Lourenço do Sul é um pólo de formação de profissionais para atuarem no âmbito da reforma psiquiátrica, nós formamos enfermeiros, especialistas em rede de saúde mental coletiva, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, educadores físicos e também psiquiatras. Estamos fazendo uma residência e especializando médicos em psiquiatria”, destaca Cardoso.
O secretário afirma que São Lourenço do Sul ao longo de sua história se tornou referência e que a saúde mental é um dos pontos fortes do município. “Provamos para os lourencianos, para o Rio Grande do Sul, os brasileiros e também para o mundo que nós temos pessoas que são expoentes da reforma psiquiátrica italiana, que estão no evento discutindo esse tema conosco. Comprovamos que manicômios não fazem falta, que são instituições desumanas, que pessoas não são tratadas em manicômios, que elas pioram nos manicômios. É exatamente isso que mobiliza acadêmicos, trabalhadores, usuários”, afirma. “O Mental Tchê é uma parte deste todo e serve para coroar o trabalho que executamos. A gente vê que muitas vezes as pessoas ainda tem um certo preconceito com o paciente com sofrimento mental, eu tenho certeza que quem ainda tem esse pensamento, conhecendo o Mental Tchê deixará de ter. Já que vivemos um município que tem o privilégio e é referência em atenção psicossocial, nós temos a oportunidade durante o evento de mostrar isso à população. Convido a todos os lourencianos para que vão ao Mental Tchê, passeiem no Camping, se não quiserem participar do debate e das palestras que ao menos visitem o evento, convivam com as pessoas. É uma experiência enriquecedora”, destaca.
Além da sua relevância para a discussão da reforma psiquiátrica, o Mental Tchê também incrementa a economia do município. “O legado do Mental Tchê para a economia do município é marcante. Nossa rede hoteleira está lotada. O Mental Tchê inclusive subsidia a hospedagem para usuários e profissionais. O comércio, os restaurantes e lancherias tem um aumento na quantidade de clientes. O público do evento é de, no mínimo, cinco mil pessoas, e geralmente elas não ficam só pelo Camping, mas gostam de ir até a praia e conhecer as belas paisagens, ou ainda passear pelo centro.”, finaliza.
O evento foi encerrado na sexta-feira (8). Além de atividades promovidas pela Atenção Básica de São Lourenço do Sul e da presença de CAPS de todo o Estado expondo seus trabalhos, foram realizadas ágoras sobre temas centrais no palco principal e debates paralelos nas tendas instaladas pelo Camping, sobre assuntos em geral referentes à saúde mental. O entretenimento também esteve garantido, com expressões da arte e cultura dos participantes do evento e atividades de integração como o Luau Mentaleiro.
Redator: Assessoria de Imprensa
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