Quinta, 11 de junho de 2026, 10:24h
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Em 2018, a Nossa Casa, que abriu caminho para uma rede modelo de saúde mental, comemora 30 anos de fundação e trabalho visionário
Se hoje o Brasil tem uma lei antimanicomial e um atendimento humanizado, 30 anos atrás a realidade era muito diferente. Mas já naquela época, São Lourenço do Sul iniciava um trabalho pioneiro e visionário para devolver a cidadania às pessoas com transtornos mentais, criando a Nossa Casa, que abriu caminho para uma ampla rede, modelo para qualquer município.
O trabalho começou em 1983 com a criação da Secretaria da Saúde e estruturação dos serviços no município. A responsável foi Arita Bergmann, secretária da Saúde na época e que agora está de volta ao cargo. Logo após a criação da Secretaria, ela percebeu que a saúde mental também precisava de atenção. “Conhecíamos a realidade dos hospitais psiquiátricos. As pessoas ficavam internadas e voltavam sem resolutividade. Toda semana a ambulância tinha que levar alguém para estes hospitais e quando tinham alta, voltavam e não havia quem cuidasse”, lembra a secretária, recordando ainda de casos de cobranças que recebia da comunidade, principalmente quando os pacientes tinham crises.
Ela então iniciou a planejar um serviço para atender estas pessoas e chegava em São Lourenço o médico psiquiatra Flávio Resmini. Com ele e uma assistente social que já tinha experiência na área, o planejamento ganhou força. Passando por dificuldades, falta de recursos e enfrentando preconceitos, em 1988 a Nossa Casa foi fundada. “Foi difícil, mas fomos sensibilizando as pessoas e fazendo um movimento junto à comunidade e conscientizando as famílias”, lembra Arita. Mais do que apenas um lugar de tratamento, a Nossa Casa, desde o início é um local de convivência, de diversão, com aulas diversas, atividades das mais variadas, tudo para evitar, principalmente, que os pacientes entrem em crise.
“A filosofia era de que as pessoas se sentissem em uma casa, como se estivessem nas suas casas com as famílias, convivendo com outras pessoas, ajudando na manutenção da casa, com atividades terapêuticas para resgatarem suas identidades”, detalha a secretária que, quase 30 anos depois, mostra-se enormemente grata pela forma como a comunidade abraçou a Nossa Casa. “Isso foi muito importante”, resume ela, contando casos de empresas que ofereceram serviços aos pacientes, o que oportunizou a retomada de suas vidas produtivas. “Isso resgata a autoestima, devolve a dignidade. Nós quebramos vários paradigmas”, complementa.
Com a Nossa Casa funcionando, iniciaram novos passos, como a implantação de leitos psiquiátricos na Santa Casa. “Fomos o primeiro município a ter leitos de psiquiatria e o primeiro a ter leitos de retaguarda em hospital geral”, orgulha-se Arita, revendo documentos da época e o plano municipal de saúde e a lei orgânica que, 30 anos atrás, previam muito do que recentemente tornou-se lei nacional. “Zeramos a internação em hospital psiquiátrico, antes mesmo de existir a lei antimanicomial. Fizemos antes, provamos que podíamos dispensar este tipo de internação. Nós já tínhamos projetos visionários, já pensávamos no atendimento também ao usuário de álcool, para as crianças, 21 anos antes da criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Mas mesmo com estes projetos visionários, não pensávamos que a rede teria todo o volume que tem hoje”, reflete a secretária, destacando a importância que todos os governos municipais tiveram ao longo deste tempo, aprimorando e ampliando a rede de atendimento em psiquiatria, conhecida como um modelo nacional. “Nossa alicerce foi muito bem feito e todos contribuíram. O que fazemos é resgatar a cidadania”, finaliza Arita Bergmann.
Uma rede para atender quem precisa
Depois da Nossa Casa, outras unidades que complementam o atendimento digno em saúde mental foram criadas ao longo destes 30 anos: leitos de psiquiatria na Santa Casa de Misericórdia, o CAPS Infantil, o CAPS Álcool e Drogas, uma recente ampliação dos leitos na Santa Casa, criação de uma equipe multiprofissional de redução de danos, o Lokomotiva, que trabalha com terapias ocupacionais e produção para a fonte rende dos usuários. Além disso, a secretária acredita que é de extrema importância para a sustentabilidade da rede de saúde mental, a implementação da residência médica em psiquiatria. Conforme o assessor técnico da Secretaria, Diego Elias, a residência já formou sete médicos e tem atualmente 13 atuando. Foi também implantada a residência de equipe multiprofissional em toda a rede, em cooperação com a Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul.
Mais a fazer
Mesmo com uma grande rede já estruturada, a Secretaria da Saúde planeja criar outras unidades, como serviço de residência terapêutica, unidades de acolhimento e um projeto já aprovado pelo Ministério da Saúde para acolhimento e atendimento de gestantes usuárias de drogas. Também está sendo pactuado com o Estado a criação de oito leitos psiquiátricos para crianças, entre outras ações ainda em estudos.
Mental Tchê
Consagrado como um grande evento e debate da saúde mental, o Mental Tchê chega a 13ª edição em 2018 e nos dias 10 e 11 de maio comemorará os 30 anos da Nossa Casa. A programação terá mesas de debates, palestras, apresentações artísticas, entre outras atividades, com o tema “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”, uma alusão ao Rio Grande do Sul, mas principalmente reforçando os 30 anos de atenção à saúde mental no município.
Redator: Tradição Regional
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