S�bado, 06 de junho de 2026, 12:22h
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Funcionários iniciaram a greve na última segunda-feira (26), sem previsão de encerramento
Às 13 horas da última segunda-feira (26), os funcionários do Hospital de Caridade de Canguçu (HCC) deram início a uma nova greve, que não tem previsão de encerramento.
Com mais de 75 dias de salários atrasados, quase três anos sem o fundo de garantia depositado e com alguns funcionários acumulando três anos sem receber os vencimentos das férias, os trabalhadores decidiram pela retomada da greve, mantendo 30% dos enfermeiros ativos para não interromper os serviços.
“A direção não se manifesta. Ninguém nos comunica nada. A nossa reivindicação não é só pelo salário, mas também por melhores condições de trabalho”, destaca a técnica de Enfermagem do HCC e representante da categoria, Luciara Luna Lira.
Suspensão de serviços
No dia 22 de novembro, a Federação das Santas Casas do Rio Grande do Sul divulgou a lista de hospitais filantrópicos que estavam operando com restrição no atendimento.
Neste mesmo dia, a casa de saúde suspendeu as internações gerais, mantendo somente as internações de urgência. Em frente ao prédio, fixado na entrada, um comunicado impresso explicava a razão: “a falta de condições de trabalho e de recursos desta instituição”, assinado pelo diretor-técnico do hospital, Juan Vargas Soto.
Casa sem direção
Um dia antes à suspensão das internações, 21 de novembro, houve a confirmação de que a comissão provisória, que tem respondido pelo comando do hospital só ficaria por mais dez dias.
Com isso, após esse prazo, a casa de saúde ficaria sem direção ou, como prefere dizer a presidente do Sindicato da Saúde de Pelotas e Região, Bianca Carla “o barco estará navegando sozinho no mar”.
Em entrevista cedida em maio deste ano, em um outro período de greves e inseguranças, Delaci Borges (presidente do HCC na época) explicou que o mandato da gestão teria encerrado e que nenhuma chapa teria se apresentado para assumir a diretoria. A diretoria teria então decidido permanecer até que fosse definido um caminho. Na época, a expectativa era que o Executivo assumisse a instituição.
Fogo cruzado
Não bastasse a incerteza dos funcionários, nesta quarta-feira (28), a presidente do Sindicato, Bianca Carla, esteve em Canguçu e comunicou à imprensa, em tom de denúncia, que a diretoria teria cancelado as internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas os médicos estariam coagindo os funcionários para que fossem realizadas as cirurgias eletivas particulares. Em outras palavras, o hospital não teria insumos para as cirurgias pelo SUS, mas teria para quem tivesse dinheiro para arcar com a baixa particular.
“Não tem presidente. Não tem ninguém que responda. Temos um médico responsável técnico que a única coisa que se preocupou foi em manter os atendimentos particulares. Estão usando os trabalhadores do SUS para fazerem cirurgias particulares. Se querem manter os atendimentos particulares em pleno funcionamento, que montem a equipe deles e paguem seus funcionários, porque os do hospital de Canguçu estão sem salário”, ressaltou a presidente.
Bianca explicou, ainda que o quadro se encontra sem técnico da segurança do trabalho e com apenas um enfermeiro, disponível apenas no horário da manhã, para o setor da Responsabilidade Técnica (RT), no qual acumula as funções de planejamento, organização, direção, coordenação, execução e avaliação dos Serviços de Enfermagem de todo o hospital. “As internações do SUS não estão suspensas. Se estão usando a greve para tentar trazer pacientes para os leitos particulares e fazer pagar pela cirurgia, é uma mentira. Queremos deixar a comunidade ciente disso. Nenhum morador do município terá que se deslocar para outros municípios para terem que ter atendimento”.
Por outro lado, um funcionário da parte contábil da instituição, que pediu para ter sua identidade preservada, rebateu que a acusação não era verdade, e só ocorriam internações em casos de urgência, tanto SUS quanto particulares, pois o governo estaria repassando somente uma parte do que deve para a Casa de Saúde, há pelo menos quatro meses. “Esta redução maior é por falta de dinheiro mesmo, além dos salários atrasados. Estamos com muitos títulos atrasados, impossibilitando as compras por falta de crédito”, explicou.
Pedidos de demissão
Nos últimos dias, os corredores do hospital têm sido de silêncio e olhares angustiados. Houve pelo menos um pedido de demissão, logo após o retorno da funcionária da licença-doença, concedida por depressão e estresse.
“A situação é crítica lá dentro. Alguns colegas já estão com dificuldade para comprar comida. Semana passada precisamos nos reunir para ajudar uma colega a comprar medicamentos para o filho. Estamos esgotados. Já são 3 anos nessa luta de salários atrasados e não vemos um horizonte. A última gestão foi um desastre, terminou de afundar o hospital. A Casa não fechou ainda porque estamos unidos. Só por isso. Porque sabemos que se fechar, não abrirá mais”, explicou a técnica de Enfermagem e representante da categoria, Luciara.
Reuniões e especulações
De maio para cá, a comissão provisória tem respondido pelas questões legais do hospital. A administração municipal realizou repasses emergenciais, além do recurso mensal de R$ 221 mil.
Ao total, mais de R$ 800 mil foram encaminhados ao HCC, sendo R$ 210 mil da devolução de verba da Câmara de Vereadores, além de outros dois que viabilizaram o pagamento dos 13º salários dos funcionários, que estavam em atraso há dois anos.
Em junho deste ano, a Associação do Hospital de Caridade de Canguçu convocou todos os associados para uma Assembleia Extraordinária em caráter de urgência. Entre as pautas da reunião, estava a solicitação ao Executivo para que assumisse a gestão da unidade hospitalar.
O prefeito Vinicius Pegoraro ressaltou a importância da consultoria que o Hospital Sírio Libanês está realizando na instituição, custeada pelo Banrisul. “São duas etapas: análise de gestão de rotinas dentro do hospital, perfil epidemiológico da micro-região, que está inserido, e a parte econômica financeira em que o Banrisul vai auxiliar na possibilidade de consolidar as dívidas, criando um leilão delas e promovendo um refinanciamento dos débitos”, explicou.
Ele destacou a previsão de um aumento no repasse à instituição, dado a aprovação da revisão da nova planta de valores do IPTU. “Para 2019 está previsto um aumento de 1,8 milhão ao hospital. A previsão é de acréscimo de R$ 3 milhões da revisão do IPTU. Esse recurso vai propiciar rever contratos médicos, ajudar no endividamento financeiro e colocar a Casa de Saúde a funcionar”, finalizou.
Para a secretária de Saúde, Mirian Neutzling, a gestão auxilia a instituição a superar as dificuldades. Segundo ela, o hospital precisa voltar a ser referência na região, e além de ter um potencial grande para isso, teria estrutura física para aumentar as especialidades.
“A pasta não tem condições financeiras de assumir o hospital. O município está esperando os repasses do Estado. São quase R$ 3 milhões de atraso. Estamos dando suporte e auxílio necessário para que a instituição consiga vencer esse momento de dificuldade”, comentou Mirian.
Ainda, os contratos de aproximadamente R$ 210 mil, que a Secretaria tem com o HCC estão sendo pagos em dia, para os serviços de pediatria, ginecologista, obstetrícia, anestesiologia e o segundo plantão. “Estamos estudando a melhor maneira para que o hospital não feche e a população não fique desassistida”, completou a secretária.
Até o fechamento da edição, eram 31 pacientes internados na Casa de Saúde, seis deles em leitos privados, e 25 em coletivos. A capacidade ativa de leitos chega a quase 100. Cálculos recentes, realizados pela consultoria do Sírio Libanês mostram que o valor das dívidas ultrapassa R$ 25 milhões.
Redator: Tradição Regional
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