Quarta, 08 de julho de 2026, 18:07h
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Superintende Fernando Gomes (C) criticou postura da Prefeitura diante da situação da instituição
A situação financeira do Hospital de Caridade (HC) pode deixar pacientes sem atendimento em breve. A instituição está sem contrato com o Sistema Único de Saúde (SUS) desde 31 de dezembro. Em entrevista à Rádio Liberdade AM nesta terça-feira (26), o superintendente Fernando Gomes contou que a documentação necessária para a renovação do contrato anual já foi encaminhada, e criticou a postura da Prefeitura de Canguçu diante da situação deflagrada:
- Nós também estamos com problemas no que se refere aos profissionais, daquele contrato existente com a Prefeitura, porque o Hospital é um mero repassador. A Prefeitura Municipal não dá um centavo. Todos os recursos originados na Prefeitura são repassados para pagamento de profissionais, não fica nada para pagamento de serviços hospitalares. Desde que houve a posse do novo prefeito, por diversas vezes os profissionais procuraram a prefeitura com o objetivo de negociar os novos contratos e não tem ocorrido retorno – revela.
De acordo com Gomes, a Prefeitura também atrasou o pagamento dos funcionários da entidade por dois meses. Para resolver a situação, ele afirma ter pago os vencimentos dos que trabalham no Pronto-Socorro com o próprio dinheiro. Minutos antes, o vereador Cesar Madrid (PP) revelou à emissora que o salário do superintendente do Hospital é de R$ 7 mil.
Logo após o prefeito Gerson Nunes assumir o cargo, ocorreu uma reunião na qual foi apresentada uma proposta para um anestesista, natural de Canguçu, mas que trabalha em outra cidade, retornar ao município. Na ocasião, foi mostrada a disponibilidade do profissional, e também a atual realidade do mercado, onde, em grandes centros, o valor pago é bem maior:
- A Santa Casa de Rio Grande, por exemplo, oferece para anestesista R$ 2 mil por dia, para trabalhar das 7h às 19h, e um plantão mensal de final de semana. A pessoa faria um plantão semanal e um plantão de final de semana. O Grupo Hospitalar Conceição em Porto Alegre está oferecendo mais de R$ 9 mil por um plantão semanal de 24 horas - compara.
Atualmente, o Hospital de Caridade possui cerca de 160 funcionários e a folha de pagamento gira em torno de R$ 160 mil a R$ 170 mil, o que significa uma média de R$ 1 mil por funcionário.
Fernando Gomes ainda criticou a postura do Governo do Estado em relação à UTI Neonatal:
- O Estado não nos diz absolutamente nada – afirma.
Ele alega que a principal exigência do antigo coordenador de Saúde era de que o corpo de médicos da UTI estivesse registrado no Conselho Regional de Medicina (Cremers-RS), o que já havia sido feito no mês de outubro do ano passado. A unidade foi interditada em fevereiro, pouco mais de três meses depois de ser aberta.
Veja outros trechos da entrevista de Fernando Gomes:
Situação financeira do Hospital
“A situação financeira do Hospital está desequilibrada há muitos anos, a exemplo dos demais hospitais do Brasil. Isso acontece porque a receita dos serviços não paga as despesas existentes. Então, o que acontece é que a maioria dos hospitais não pagam INSS, Fundo de Garantia, água, luz. Se trata de um cobertor curto, falando popularmente, ou se tapa a cabeça ou se tapam os pés. O grande comprador de serviços do hospital é o sistema Único de Saúde (SUS). Cerca de 90% dos atendimentos que nós executamos com internação são do SUS. E no SUS existem tabelas remuneratórias que não condizem com a realidade dos gastos, defasadas há muitos anos, e não existe o equilíbrio econômico e financeiro do contrato. Na realidade, nós não queremos ter lucro, mas nós queremos que a despesa empate com a receita. As eventuais sobras do caixa são investidas na própria entidade, com melhorias, com mais equipamentos. Hoje, se nós somarmos as nossas despesas e a nossa receita, nós temos uma diferença em torno de R$ 80 a R$ 100 mil por mês.”
Sem contrato com o SUS
“Nós estamos sem contrato junto ao SUS. O contrato venceu em 31 de dezembro, naquela oportunidade já foram encaminhados os documentos para uma renovação, que não aconteceu até hoje, embora estejamos atendendo e recebendo por isso. Outra questão é o convênio com o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). A receita originada disso serve para pagamento de profissionais do Pronto-Socorro, e nós também estamos sem contrato. Então, desde o dia 31 de dezembro não se recebe mais nada, até que haja renovação. Alguns dias atrás nós recebemos a visita do coordenador regional da saúde e ex-vereador de Pelotas, Milton Martins, e ele ficou, como prioridade, com as renovações de contrato do Hospital.”
Postura da Prefeitura com o Hospital
“Foi assinado um contrato provisório de 3 ou 4 meses, com o objetivo de que o Poder Executivo tome consciência da situação, mas acontece que não há um retorno, não há uma negociação, não há absolutamente nada, e o pessoal está estressado. Houve, também, atrasos de dois meses nos pagamentos da Prefeitura com os profissionais. Agora, eles conseguiram colocar em dia, mas nós tínhamos diversos funcionários querendo parar de trabalhar. A nível de Pronto-Socorro, quem está pagando estes funcionários sou eu, do meu próprio bolso. São recursos que tinha guardado, sem ser ressarcido. São coisas graves que estão acontecendo e nós não estamos achando solução de imediato. O hospital e os profissionais estão em uma situação onde não sabem exatamente o que irão fazer.”
Um anestesista, muitas demandas
“Existe somente um anestesista no Hospital. Isso é uma situação grave a alarmante. Existe uma procura muito grande por anestesistas no mercado. Eles não querem vir pra Canguçu, querem ir para centros maiores. Desde o ano passado nós publicamos em locais com serviço de Classificados e, na ocasião, tivemos duas ou três pessoas pedindo informações. Mas isso não evoluiu porque eles conseguiram propostas melhores. Nós temos, em Canguçu, uma pessoa que quer voltar para o município, que é o doutor Darlan Bento, que trabalha em um outro centro. Ele conversou com o prefeito no início de janeiro, mostrando esta disponibilidade, mas mostrando também a realidade do mercado. Se analisar a questão humana, não tem como atender 24 horas por dia, nos sete dias da semana. Nos últimos dias, ele (o doutor Paulo) optou por manter o atendimento de emergência para não fechar a obstetrícia, por exemplo, mas suspender as eletivas, que podem ser feitas em um outro momento. Até o presente momento todas as emergências de urgência foram atendidas, mas o anestesista pode ficar sobrecarregado, pois o número de procedimentos pode ser maior, embora isso ainda não tenham acontecido. Não há nada concreto para este outro profissional retornar a Canguçu. O Executivo ficou de estudar, ficou de dar um retorno, ficou de fazer uma contraproposta, mas isso aconteceu logo após a posse.”
Falta de profissionais
“O doutor Paulo conversou com profissionais de residências médicas, pessoas que estão acabando a especialização em diversos serviços, desde o Estado de São Paulo para o Sul, e ninguém mostrou disponibilidade. No Rio Grande do Sul existem quase 500 municípios e somente 300 anestesistas para todo o estado. Eles se concentram nas cidades maiores. Hoje, a maior parte das cidades não possui esse profissional. O que nós sentimos aqui é que muitos vezes ficamos impossibilitados de crescer por não termos condições de trazer um determinado profissional.”
Situação da UTI adulta
“A UTI adulta está funcionando, mas os profissionais que lá atendem já estão recebendo ofertas de outros serviços pagando 50% a mais do que pagamos aqui no município. Nós só temos dois profissionais de Canguçu atuando na UTI. O restante (seis ou sete) é de fora.”
Situação da UTI Neonatal
“Tivemos uma reunião, em setembro, em Pelotas, quando caiu o antigo coordenador regional da saúde, em que ele nos disse que teríamos que ter equipe médica registrada no Conselho Regional de Medicina (Cremers-RS), e nós temos. Está registrada desde outubro. Existe uma carência de pediatras a nível estadual e grande parte deles é convidado para atuar em outros locais. Nós temos também um problema referente às consultas populares. O Governo Estadual tem no seu projeto a questão da participação popular, pois não existe dinheiro no Estado para ser investido em tudo o que é necessário. O Governo está com três dessas consultas atrasadas, Nas consultas populares de 2010 e 2011, o hospital tem R$ 530 mil para custeio, que iriam aliviar o nosso caixa. Sobre o ponto de vista de discurso é muito bonito, mas sobre o ponto de vista prático, no que se refere a honrar o que foi propagado e divulgado, não existe esse retorno.”
Fonte: Canguçu Online
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