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14-03-2014

Mulheres ganham dia de reflexão e inclusão


Foto: Cristian Iepsen Mais de mil mulheres de 14 municípios lotaram o Galpão Crioulo do Camping Municipal

No Dia Internacional da Mulher, encontro reuniu mais de mil trabalhadoras do campo para troca de experiências e apresentação de políticas femininas


Instituído em 1910 como o Dia Internacional da Mulher, o dia 8 de março é um marco das conquistas femininas. Neste dia, em 1857, trabalhadoras de indústrias de Nova Iorque realizaram a primeira grande greve feminina, abrindo assim caminho para que, ao longo dos anos, espaços fossem alcançados por elas. Estas lutas e conquistas foram tema do Encontro da Mulher Rural, realizado em São Lourenço do Sul, no sábado (8), reunindo mulheres de 14 municípios da Região Sul.



Mais de mil trabalhadoras do campo participaram da ação no Camping Municipal, promovidas pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetag), em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Lourenço do Sul. O destaque da programação foram as reflexões sobre as conquistas femininas. “O que queremos é resgatar a história, as conquistas das trabalhadoras, mas também pensando na abertura de novos espaços, para que elas possam atuar em todos os segmentos”, conta o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Bruno Leitzke.


Na abertura do encontro, o prefeito, Daniel Raupp, também falou sobre as conquistas femininas. “Este é um momento de festa, de nos solidarizarmos, mas também de refletir sobre as conquistas, a inclusão e a economia, mas saber que muito ainda precisa ser conquistado”.


Para esta ponderação das conquistas femininas, o 1º tesoureiro da Fetag, Nestor Bonfante, ministrou a palestra “Resgatando a história do Dia Internacional da Mulher”. Uma atividade foi desenvolvida com mulheres que desfilaram com produtos construídos por elas no campo, como vegetais, frutas, flores e artesanato. As agricultoras presentes ainda aprovaram uma carta de reivindicações que contempla áreas de saúde, educação, direitos das mulheres e de suas famílias, trabalho e renda. “Esta carta da Região Sul da Fetag se somará as reivindicações estaduais, e posteriormente nacionais, para ser encaminhada à Brasília”, explica Leitzke. O show de Roberto Carlos cover encerrou a programação com muito bom humor, músicas dedicadas às mulheres e a tradicional distribuição de flores do “Rei”.


Trabalho e renda na Inclusão Lilás


Paralelo ao encontro das produtoras rurais, no Camping Municipal, ocorreu o Dia da Inclusão Lilás, em que foram apresentadas ações do programa RS Mais Igual e lançadas medidas especialmente destinadas às mulheres. O secretário da Casa Civil do Estado, Carlos Pestana, destacou que a renda do RS Mais Igual é um complemento para as famílias gaúchas que recebem o Bolsa Família. Porém, o objetivo é transformar a vida dos beneficiados. “Mais de quatro mil famílias gaúchas já devolveram os cartões, pois tiveram suas realidades alteradas e não precisam mais desta ajuda. É isso que queremos que aconteça, por isso estamos lançando, através da Rede Lilás, o Crédito Lilás e o Pronatec Lilás, pois mais de 90% das famílias beneficiadas são chefiadas por mulheres”, explicou o secretário.


A ação contou com a presença do ônibus lilás, unidade móvel que percorre o Estado apresentando políticas públicas dedicas a elas. A secretária estadual de Políticas para as Mulheres, Ariane Leitão, explica que estas são ações para a inclusão produtiva das mulheres, como o crédito especial, que está disponível no Banrisul desde 11 de março, e cursos específicos do Pronatec. “Estar aqui hoje é reafirmar o compromisso de estar ao lado das mulheres, com políticas públicas para elas, respeitando a diversidade do público feminino. É esta a diversidade que faz toda a diferença, pois a política tem que ser adaptada à realidade da mulher, e estar aqui com o ônibus não é simples coincidência, é para apresentar estas ações e trazer esta notícia de uma linha de crédito para as mulheres empreendedoras que já tem algum tipo de negócio ou que queiram abrir seu próprio negócio”, detalha a secretária.


Entre as ações do Pronatec Lilás, está a definição de quais os cursos mais adequados para cada região e cada município. “Estamos aqui para dialogar com as mulheres, acabar com o círculo vicioso da violência, da submissão, com políticas públicas para a inclusão produtiva, a autonomia feminina”, explica Ariane. Por isso, logo após o ato em São Lourenço do Sul, as mulheres presentes já puderam fazer um pré-cadastro para os cursos, para receber o benefício do RS Mais Igual e também sugerir quais os cursos desejados.


Uma das primeiras a ser atendida foi a dona de casa Aline Marques Valente. Para ela, que recebe o Bolsa Família e nem sabia da existência do RS Mais Igual, a possibilidade de receber um curso pode abrir novas portas para a independência financeira. “Eu dei a ideia de curso de línguas estrangeiras, eu acho importante para a região e aqui não tem. As escolas oferecem, mas muito por cima”, conta. Ela fez o pré-cadastro e aguarda retorno para saber se pode ser incluída como beneficiária.


No local, as mulheres podem conhecer detalhes dos programas RS Mais Igual e da Rede Lilás, do governo estadual. Também é possível buscar informações em ligação gratuita ao Telefone Lilás, pelo número: 0800 541 0803.


Coordenadoria Municipal da Mulher


Instalada em 2008, junto à Secretaria de Desenvolvimento Social e Habitação, a Coordenadoria Municipal da Mulher é um espaço de acolhimento para as mulheres vítimas de violência ou de vulnerabilidade social. “O papel é articular com as secretarias as ações referentes às mulheres nas diversas áreas, como saúde, assistência social e outras”, conta a psicóloga responsável pela Coordenadoria, Aline Peglow Sampaio. Ainda no evento, Carlos Pestana e Ariane Leitão assinaram com o prefeito Daniel Raupp o repasse de equipamentos para a Coordenadoria Municipal da Mulher, com investimento de R$ 22 mil.


“Precisamos criar uma nova ordem”


Em entrevista ao Jornal Tradição Regional, no dia da Inclusão Lilás, em São Lourenço do Sul, secretária estadual de Políticas para as Mulheres, Ariane Leitão, diz acreditar que é necessária a quebra de paradigmas e uma mudança social para que as mulheres sejam independentes


Jornal Tradição Regional: Qual o objetivo e a importância deste dia da Inclusão Lilás?


Ariane Leitão: Esta é uma boa e feliz coincidência de ter uma caravana da inclusão exatamente no Dia da Mulher. A Casa Civil, do secretário Carlos Pestana, e eu, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, firmamos esta parceria que é antiga em ações, mas especificamente para o dia da mulher e poder fazer esta atividade em São Lourenço, município que tem característica de mulheres do campo, quilombolas, pescadoras, o que dialoga diretamente com este novo equipamento que recebemos, que são os ônibus lilás, responsáveis por fazer este atendimento entrar em cada canto do Estado. É sem dúvida uma estratégia combinada com o governo federal de dar atenção a política pública da mulher, que promova a independência financeira e intelectual, não só contra a violência. Pois nessa condição nós não tiramos a mulher de uma situação de tutela. Nosso projeto é emancipatório, é libertador.


JTR: Quais são as políticas hoje desenvolvidas pelo Estado para a mulher?


Ariane Leitão: O mais importante que lançamos no ano passado é a Rede Lilás. É a ideia principal para o nosso trabalho, pois a política para a mulher é extremamente transversal. A iniciativa cria uma rede que oferta serviços a mulheres e meninas em situação de violência, mas ao mesmo tempo mobiliza a sociedade para o enfrentamento a esta violência como um todo e para que a sociedade entenda que é um problema coletivo e não só da mulher. É um fenômeno que acontece até porque existe um polo fundamental que é o homem, além da concepção cultural que subjuga as mulheres e as coloca em uma condição inferior a masculina. Essa condição é o que queremos alterar, que queremos fazer com que as pessoas percebam que não é uma condição que nós mulheres aceitamos. Portanto, é uma rede que envolve o Executivo, Legislativo e o Judiciário que tem o papel de receber a denúncia e punir os agressores. Precisamos entender que a interpretação da Lei Maria da Penha que vemos, continua colocando a mulher em condição de vulnerabilidade. Pode parecer um projeto menor, mas o Crédito Lilás e o Pronatec Lilás, específicos para mulheres são fundamentais, dialogando com a realidade local delas e os arranjos produtivos locais. As mulheres podem estar em qualquer área, não aceitamos mais que apenas haja alguns espaços para elas. Estamos rompendo paradigmas históricos de dominação masculina, colocando as mulheres no mercado de trabalho, na geração de renda, investindo e ajudando a fazer o Rio Grande crescer.


JTR: Já é possível dizer como esta rede muda a vida das mulheres beneficiadas?


Ariane Leitão: A Rede foi instituída em novembro, mas já percebemos uma prioridade para o debate político no Estado para as mulheres. A Secretaria já fazia isto, mas ter agora todos os poderes sentados semanalmente para traçar estratégias de enfrentamento a violência contra a mulher é um avanço muito grande. Em um estado onde existia apenas um juizado específico para todos os casos de violência contra a mulher, mandarmos para a Assembleia Legislativa um projeto para ampliar em mais oito varas é reflexo deste processo de mobilização de toda a sociedade e todos os poderes que estão engajados nesta luta. Ficar só na situação da violência, violência, violência, acaba tornando o trabalho limitado nas ações que podem ser desenvolvidas. Por isso no ano de 2014, para nossa Secretaria, a prioridade é aprofundar este trabalho em rede e avançar em relação a políticas de geração de renda e de acesso ao mundo da educação, como é o caso do Crédito Lilás e do Pronatec Lilás.


JTR: O que ainda falta para a mulher ser autônoma, independente e conquistar novos espaços?


Ariane Leitão: Falta uma nova ordem social! É um fenômeno que precisamos construir. O autor Eric Hobsbawn, cita que a única revolução que vingou no século XX é a revolução das mulheres, pois é uma revolução que continua acontecendo. As mulheres romperam o espaço privado e acessaram o espaço público. A nova ordem que defendemos é que não haja hierarquia. Uma ordem onde não haja supremacia de um gênero para outro, de uma classe para outra. Assim como debatemos a questão do racismo, debatemos a questão do machismo, das desigualdades sociais. Nós aceitamos as diferenças, o que não aceitamos são as desigualdades. Diferentes nós somos, óbvio, biologicamente, mas isso não significa que estas diferenças possam se transformar em desigualdades sociais ou de direitos, na ausência de direitos. O que falta é esta nova ordem e eu vejo que estamos trilhando este caminho com as mulheres chefiando as famílias e liderando espaços públicos. O que falta é uma emancipação maior das mulheres e isso nós só vamos conseguir com mobilização permanente das mulheres e da sociedade como um todo que precisa perceber que, viver num país civilizado, é viver num país com igualdade de direitos, não só para as mulheres, mas para os negros, a população LGBT, as pessoas com deficiência. Enfim, aqueles que são considerados minoria, mas que na verdade são a maioria da população como é o caso de nós mulheres.


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