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Luiz Carlos Valente da Silveira tinha 21 anos, era estudante de Odontologia e assistiu aos colegas serem presos, ou “desaparecerem”
Era 31 de março de 1964. Os militares davam o golpe que faria o país mergulhar em um período obscuro que duraria, pelo menos, 20 anos, no qual presidentes não seriam mais eleitos democraticamente e a oposição seria perseguida. Neste dia, marcante na história nacional, um jovem canguçuense de 21 anos, estudante de odontologia, se encaminhava para Pelotas quando, em Morro Redondo, foi comunicado por um amigo de que seria preso ao chegar à rodoviária. O presidente do diretório acadêmico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFPel), que possuía sede na cidade vizinha, e radialista da Rádio Tupanci AM, pegou a mala que carregava e se escondeu durante 20 dias em uma fazenda no interior de Canguçu.
Esta e outras histórias permanecerão na memória do dentista Luiz Carlos Valente da Silveira, hoje com 71 anos. Ele lembra que, no dia em que conseguiu evitar a própria prisão, os militares entraram no quarto que dividia com outros alunos na Casa do Estudante, levando absolutamente todos os objetos, fossem ou não revolucionários. Materiais estes que nunca mais viu, a não ser na foto da capa de um jornal local com a manchete que dizia “muita propaganda comunista apreendida em nossa cidade”. Após retornar para Pelotas, continuou trabalhando na emissora de rádio, mas sem o noticiário que antes possuía, em um ambiente onde tudo era censurado. “Trabalhamos durante mais de um ano com a baioneta nas costas, porque havia uma tropa militar nos vigiando e uma escuta”, relata.
O diretório acadêmico foi desmanchado, os cargos destituídos, e as aulas passaram a ser espalhadas em diversos locais diferentes, para que as lideranças da Universidade não conseguissem se encontrar. Este, no entanto, não era o primeiro contato que Valente tinha com a esquerda. Durante o Secundário, ele e outros estudantes possuíam contato com a União Internacional da Tchecoslováquia. “Eles eram comunistas, porque pertenciam a União Soviética. Tínhamos muito contato, mas não se falava em guerrilha. Não possuíamos formação nenhuma para ser guerrilheiros, e sim apenas para garantir a democracia e as reformas de base que eram preconizadas pelo governo”, conta.
Os tempos que seguiram depois do Golpe Militar foram difíceis. Manifestações eram proibidas e tudo era considerado contra o governo. Dentro da universidade, havia pessoas que escutavam o que era dito e informavam aos militares. Em uma ocasião, na rádio em que trabalhava, o atual dentista montou uma seleção musical, com 15 canções de artistas que faziam críticas ao sistema, como Chico Buarque. Ao tocar a quinta música, um telefonema do Exército mandou suspender o restante. Segundo Valente, a única manifestação que eles fizeram foi no dia 1º de maio, de 1964, quando pegaram foguetes a atiraram no quartel general, localizado na esquina das ruas Barão de Butuí e José de Anchieta. “À meia-noite nos posicionamos, deitados, em meio aos arbustos, atiramos os foguetes no quartel general e saímos correndo. Corremos para o meio da praça Coronel Pedro Osório, depois para o Porto, voltamos, e fomos para a Casa do Estudante, onde deitamos, tapamos a cabeça, e só ouvíamos a sirene do Exército nas ruas”.
Ele também recorda que, durante a Ditadura, dos seus colegas de quarto, os que não foram presos, “desapareceram”. “Dois colegas meus caminhavam pela rua 15 de Novembro quando um camburão parou e colocou eles para dentro. Um deles foi torturado. Havia um colombiano que morava comigo e também fazia odontologia. Dizem que deram dinheiro para ele ir embora. Este era comunista mesmo, tentava nos levar para fazer uma revolução armada no Brasil, mas desapareceu”, disse. A universidade se tornou um ambiente tenso e pesado, com o qual Valente conviveu por mais dois anos. Em 1966, ao ser escolhido orador da turma na formatura, se recusou a mostrar previamente o discurso aos militares. Durante o evento, um deles ficou no local, e quando o Exército era criticado pelo orador, batia nervosamente o coturno no chão e um rebenque nas pernas.
Em Canguçu, os sinais da Ditadura Militar também foram sentidos. O dentista ia contra a própria família, que era a favor do Golpe. O prefeito eleito, Emir Squeff, foi cassado com sete meses de governo. O candidato que havia perdido a eleição, Valdemar Fonseca, foi transformado em interventor. Josino Bezerra foi torturado, e um líder do PTB, partido de oposição no município, precisou responder a processo. “Havia também os famosos grupos dos 11, formados por Leonel Brizola. Dizem que eles tinham armas doadas por ele. Mas não sei se isso é verdade”.
De acordo com o dentista, o Golpe teve outras extensões, como a morte de Juscelino Kubitschek, que não teria sido por acidente, como disseram, ou a explosão do helicóptero com Ulisses Guimarães. O Golpe, segundo ele, foi articulado e comandado pelos Estados Unidos, que não teriam interesse que o Brasil se tornasse socialista, como desejavam os estudantes. “Queríamos, pelas reformas, implantar um socialismo, que não é um regime comunista, mas um regime social em que todos teriam uma participação efetiva na democracia. Os EUA desmontaram a educação com uma reforma onde não se pensava mais, não se fazia mais redação, para que o povo pudesse ser cordeiro dos militares”, relembra.
Ele diz ainda que a sociedade assistiu a tudo de maneira apática, sem entender o que acontecia. Na imprensa, quem não fechou as portas, estava ao lado do Exército, e os setores econômicos mais ativos, com medo do comunismo, apoiaram o Golpe. Para Valente, o grande legado foi a desestruturação da sociedade participativa. Exatos 50 anos depois, ele deixa seu recado para as novas gerações e para aqueles que participam de eventos como a Marcha da Família, e que pedem a volta do regime militar: “Não temos que gritar pela volta dos militares, porque muita coisa foi acobertada durante este período. Houve falcatruas, corrupção enorme e, principalmente, brasileiros que perderam todos os seus direitos. Não queremos a volta disso. Queremos uma democracia, em que quando você descobre que realmente existe um erro, pode gritar, protestar e ir às ruas. Queremos uma participação efetiva dentro da sociedade para prosseguir na democracia, em que haja uma participação maior das pessoas, e não que apenas um ou dois comandem o país e que, principalmente, não sejam mandados por forças externas, como foi com o Golpe”, finaliza.
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