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Há mais de meio século seu Antônio desempenha a função de graniteiro em Capão do Leão
O que há quatro décadas era comum de se ver em Capão do Leão, hoje em dia está quase extinto. Morros altos, pedras gigantes, buracos profundos, poeira e muito barulho. “A Cidade da Pedra”, como o município era conhecido, abrigava em diversas jazidas de minério cerca de 600 graniteiros. Delas, saíram grande parte do que construiu muitos municípios da região e principalmente a história de homens que por amor e vocação permanecem até hoje desempenhando a função.
Distante 5 km do centro da cidade, no Cerro das Almas, Antônio Vieira e mais oito graniteiros cortam pedras para uma conhecida empresa do ramo. Dos 65 anos de vida de seu Antônio, como é chamado pelos amigos, 52 foram dedicados à profissão. De 2008 a 2012 cumpriu mandato como vereador no município, mas nem nesse período, quando trabalhava diariamente na Câmara de Vereadores, deixou de cortar pedras. “Para trabalhar com pedra tem que gostar, se não, a pessoa não ganha nem para comer”.
O ofício, diferente do que aconteceu com a maioria dos outros graniteiros, não veio de família. Seu Antônio conta que há 40, 50 anos, cortar pedra era a única opção de trabalho no município. E depois que aprendeu, não conseguiu mais parar. A vocação, na família que construiu, passou de pai para filho. “Meu filho cortava pedra comigo desde pequeno. Faleceu de leucemia no ano passado, aos 39 anos”.
Muitas pessoas nascidas depois dos anos 80 não sabem o que realmente faz um graniteiro e que as pedras encontradas em construções, estradas e casas são cortadas artesanalmente por homens como seu Antônio. “A profissão de graniteiro está em extinção. O trabalho é pesado e nunca recebeu apoio do governo municipal. Se hoje temos máquinas que nos auxiliam no trabalho é por que estamos prestando serviço para uma empresa particular, do contrário não seria assim”. Na opinião do graniteiro, nenhum prefeito se interessou de fato pela pedra, que juntamente com a agricultura, sempre foi uma fonte garantida de renda para o município. “Não acredito que hoje em dia ainda tenha o que fazer. Na época, o município deveria ter comprado toda pedra, feito um depósito e revendido, mas não, as empresas compravam nossa pedra sem nota e Capão do Leão mesmo não ficava com nada do que poderia ter sido sua maior arrecadação”.
Nessa profissão, o ganho é por produção. De acordo com o tamanho da pedra é o valor pago pela empresa. No trabalho atual de seu Antônio, por uma pedra pequena, por exemplo, ele ganha R$ 1,50, já pelas maiores, R$ 3,40. Ele garante que trabalhando bem, é possível garantir um salário de R$ 1,8 mil. Das pedras menores, usadas para alicerce de casa, a produção é contínua. Já as de outros tamanhos, como as que são usadas em meio-fio, muro, calçamento ou para finalidades específicas, a empresa trabalha por encomenda. No momento, seu Antônio e os colegas estão atendendo um pedido de oito mil pedras.
Meio século de experiência, debaixo de sol, frio, e outros contratempos, faz com que ele corte, das maiores, uma média de 50 por dia. Nas palavras dele, isso é tranquilo. Mas depois de ver como o serviço é feito, falar que é possível “cortar pedras tranquilamente” é um desafio. O serviço é pesado. Praticamente todo artesanal. Para se proteger, um óculos e uma borracha nas mãos, impedindo que as ferramentas escorreguem ou machuquem, mas ainda assim o corpo do graniteiro carrega estilhaços de aço, marcas dos anos de profissão.
Para um leigo, pensar em cortar uma pedra utilizando ferramentas de ferro e um martelo parece impossível, mas para um graniteiro experiente como ele, isso não leva mais do que três minutos. O segredo, segundo seu Antônio, é encontrar a “veia”, uma linha que corta a pedra de um lado ao outro. Opções, em outras profissões, não faltaram, mas diferente do que fizeram diversos conhecidos, seu Antônio persistiu. E diante da agilidade e, pelo incrível que pareça, facilidade com que o trabalho é realizado, acompanhado do velho rádio de música, cortar pedras parece possível até mesmo para quem se quer sabia o que fazia um graniteiro.
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