Sexta, 03 de julho de 2026, 23:29h
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Em 2012, um panorama dos resíduos sólidos no Brasil demonstrou que cerca de 24 mil toneladas de lixo, o equivalente a 11 estádios de futebol, não foram destinados corretamente. O levantamento preocupa, e de acordo com dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abreipe), o quadro não deverá mudar muito até o final de 2014. O estudo diz que a expectativa para este ano é de que apenas 60% do lixo tenha a destinação correta. A informação chama a atenção, já que, de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), este é o ano em que todos os municípios brasileiros deverão estar com seus lixões desativados e com aterros sanitários funcionando.
Uma associação pequena, mas que reúne a força de quatro integrantes para aproveitar o lixo seco, no entanto, tem procurado fazer a sua parte no município de Morro Redondo para mudar as estatísticas. Este é o trabalho diário de André Moraes Dutra, Leonardo de Sousa Meato, Pablo Fernando de Souza Leal e Vagner Aires Valadão. Eles são membros da Associação de Recicladores de Morro Redondo, que existe desde o ano de 2011, e são os responsáveis por cuidar dos materiais que são recicláveis, recolhidos nas segundas-feiras, terças-feiras e quintas-feiras na zona urbana, e a cada três meses na zona rural.
O trabalho não é fácil e demanda um bom tempo dos quatro homens, já que nem sempre o lixo chega como deveria até as suas mãos. Segundo André Moraes Dutra, um dos recicladores, muitas vezes o lixo, principalmente da cidade, é entregue contendo materiais orgânicos como papéis higiênicos, fraldas, restos de arroz e até de animais mortos. “Se esse material fosse bem classificado, ele valeria mais. Mas o nosso material é muito sujo. Antes disso seria preciso lavá-lo e limpá-lo, e nós não temos como fazer isso. Às vezes, na quarta-feira, que é justamente o dia de recolher o lixo orgânico, vem muito material bom”, relata.
De acordo com a diretora de Meio Ambiente, Natali Rodrigues dos Santos, os catadores ainda são vistos com muito preconceito por boa parte da população que, muitas vezes, nem mesmo sabe da existência da associação. Para ela, a comunidade deveria observar a reciclagem feita no município com outros olhos para, deste modo, compreender a sua importância e valorizar mais o trabalho. “Eles estão fazendo um trabalho digno como qualquer outro. Estão fazendo um benefício para manter a cidade limpa. É um trabalho muito importante na questão ambiental. Como seria se não existissem eles?”, questiona ela.
Nos dias da coleta do lixo limpo, o trabalho inicia às 7h, através da Secretaria de Obras que recolhe os materiais, os entregando na associação às 9h. Depois, os quatro integrantes fazem a separação necessária. Com o lixo vindo do interior, o trabalho não costuma demorar três dias, já que segundo eles, a área colonial é muito conscientizada. “É o melhor lixo que tem”, contam. O problema maior está no lixo da área urbana, normalmente carregado de fraudas e papéis higiênicos, por exemplo. “De 60% a 70% do lixo da cidade que vem para cá é orgânico”, explicam.
Para tentar acabar com o preconceito, Natali diz que folders já foram entregues e palestrar realizadas em escolas do município, mas ainda faltam nas instituições pessoas para trabalharem, especificamente, as questões ambientais. Mesmo assim, a contribuição da comunidade para o serviço não tem melhorado, o que contrasta com a demanda do lixo morroredondense, que aumenta cada vez mais. “Antes, a parte rural produzia a maioria das coisas que consumia, hoje consomem muita coisa industrializada. Tem muito material para reciclagem na zona rural”, relata a secretária. Por isso, ela pede a colaboração da população. Visitas para conhecer o trabalho da associação podem ser realizadas, desde que previamente agendadas. Além disso, ela deixa a dica: “não é preciso separar o lixo. É apenas não misturá-los”. Já os materiais oriundos de hospitais e farmácias, por exemplo, não apenas podem, como devem ser devolvidos ao estabelecimento que os originou. Um dos catadores relata já ter encontrado seringas em meio ao lixo. “Para isso, nós estamos incluindo no plano ambiental do município que todos os estabelecimentos que geram resíduos terão que apresentar o plano de gerenciamento de resíduos sólidos”, explica Natali.
Os membros da associação também esperam melhorias, como na parte dos equipamentos, incluindo uma máquina para carregar os fardos e uma prensa nova, já que a antiga, de acordo com eles, está prestes a “ir para o brejo”. Os recicladores, porém, não reclamam do trabalho. André, por exemplo, conta a ótima experiência que teve como delegado representante de Morro Redondo em uma conferência sobre reciclagem na cidade de Porto Alegre, e afirma que já colocou uma briga dentro da própria casa para separar o lixo corretamente. “Se a população soubesse como é bom reciclar, e embarcasse nessa de separar o lixo, seria bem melhor para nós, que trabalhamos aqui, e melhor para a comunidade de Morro Redondo”, finaliza.
Política Nacional de Resíduos Sólidos
Após a aprovação, em 2011, da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que organiza a forma como o país trata o lixo, incentivando a reciclagem e a sustentabilidade, foi elaborado o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), cujo texto passou por um processo de consulta pública, sendo definido logo depois. Segundo o plano, até 2014 não devem mais existir lixões a céu aberto no Brasil. No lugar deles, devem ser criados aterros controlados ou aterros sanitários, já que estes têm preparo no solo para evitar a contaminação de lençol freático, captam o chorume que resulta da degradação do lixo e contam com a queima do metano para gerar energia.
Além disso, somente os rejeitos – parte do lixo que não pode ser reciclada - poderão ser encaminhados aos aterros sanitários, o que representa apenas 10% dos resíduos sólidos. A maioria é orgânica, que em compostagens pode ser reaproveitada e transformada em adubo, e reciclável, que deve ser devidamente separada para a coleta seletiva. Os municípios também terão que elaborar planos de resíduos sólidos para ajudar prefeituras e cidadãos a descartar de forma correta o lixo.
Outro importante avanço da política é a chamada “logística reversa”. Na prática, a logística reversa diz que uma vez descartadas, as embalagens são de responsabilidade dos fabricantes, que devem criar um sistema para reciclar o produto. Sendo assim, uma empresa de refrigerante terá que criar um sistema para recolher as garrafas e latas de alumínio e destiná-las para a reciclagem, por exemplo.
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