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25-07-2014

“O elo do produtor com a cooperativa”


Foto: Manuelle Motta Uebster John Vilela percorre cerca de 280 km por dia transportando leite do interior de Canguçu até a Cosulati

Unindo duas grandes paixões, a vida no campo e a boleia de um caminhão, Uebster Vilela recolhe, em média, 14 mil litros de leite a cada 48 horas


Todos os dias, normalmente à 1h, Uebster John Vilela pega seu caminhão e sai de casa em direção ao 2º distrito de Canguçu. Há sete anos, sua rotina é percorrer diariamente cerca de 280 km recolhendo leite, nas localidades de Herval e Florida, e transportar até a Cooperativa Sul-Rio-Grandense de Laticínios (Cosulati). A profissão, segundo ele, aliou duas grandes paixões: a vida no campo e a boleia de um caminhão.



Sua história na empresa começou ainda criança. O pai, por 25 anos, dedicou-se a Cooperativa e ele lembra de crescer correndo entre os prédios que industrializam dezenas de produtos. A formação em técnico agrícola, na Escola Técnica Estadual de Canguçu (Etec), deu a ele a teoria vivenciada na prática, já que sua família veio do meio rural. Dos 35 anos de idade, há 14 já trabalha com leite. Antes de prestar serviço como transportador, atuava na própria Cosulati como técnico na área de qualidade do leite.


A relação de Vilela com os 122 produtores que atende confirma a tese de que o transportador é o elo do produtor com a cooperativa, isso porque além de confiança e respeito, o convívio faz com que o profissional seja, muitas vezes, o canal de apoio para que a produção melhore em quantidade e qualidade. O resultado positivo conquistado pela propriedade não beneficia somente o produtor, que além de receber pelo volume de leite que entrega a cooperativa, ganha uma bonificação caso o produto esteja dentro das normas exigidas, mas também o transportador, que recebe de acordo com o que é pago ao produtor. “Quanto mais o produtor ganhar, mais ele vai investir e mais vai produzir e consequente mais eu vou ganhar”.


A responsabilidade de Vilela, e dos outros 37 profissionais que arrecadam leite dos 2500 fornecedores da região, é grande. Ainda na propriedade, antes de encher o tanque do caminhão, eles realizam testes para garantir que o produto está nas condições adequadas para ser recolhido. Além disso, coletam amostras que comprovam essa situação e, como uma contra prova, garantam sua segurança. Caso o produto chegue à empresa e, ao passar por uma série de exames que verificam, entre outras coisas, a presença de água ou antibióticos, seja identificada a contaminação, é possível através dessas amostras apontar de qual produtor veio esse leite e em qual compartimento do caminhão ele se encontra. Essa medida evita que todo o produto existente no tanque seja eliminado. Caso a prova coletada pelo transportador também apresente as alterações, a responsabilidade passa a ser dele, que nos exames realizados ainda na propriedade não identificou previamente o problema. Com isso, todo o leite que não poderá ser usado é descontado do valor que ele receberia pela carga.


Por esse motivo mesmo é que Vilela diz não acreditar em fraudes entre os prestadores de serviço. “Quanto melhor eu coletar, mais eu ganho. Me sinto bem porque faço a coisa certa, tenho confiança de servir para a minha família o leite que eu e meus colegas transportamos, porque não somos picaretas do leite”.


Quando fala dos picaretas do leite, o transportador se refere aos acusados de adulterar o produto no Norte do Estado. Deflagrada no ano passado, a Operação Leite Compensado, do Ministério Público, apontou para um esquema que adulterou cerca de 100 milhões de litros de leite. De acordo com as investigações, os transportadores adicionavam água e ureia (que contém formol) ao leite crú para aumentar o volume e disfarçar a perda nutricional no caminho entre a propriedade rural e a indústria. Mas segundo Vilela, casos como esse, ou se quer parecidos, são conhecidos por aqui, principalmente porque se o prestador de serviço entregar menos do que recolheu, a diferença sai do seu bolso, e se chegar à empresa com um volume a mais do que o retirado da propriedade, a sobra fica para a cooperativa e não para ele. “O trabalho que realizamos aqui é diferente. Lá, o transportador compra o produto nas propriedades e revende para as indústrias, por isso vê “vantagem” em aumentar a quantidade acrescentando substâncias proibidas”.


A firmeza e orgulho com que fala do trabalho justificam a mudança de vida, sete anos atrás, e a rotina. São cerca de 10 horas de trabalho por dia, de segunda a segunda, além das visitas que faz aos produtores, já como técnico, para auxiliar em possíveis problemas na produção. “O mercado exige: ou tu te qualifica, ou tu para. Assim que assumi como transportador decidi que faria diferente. Comecei a investir e intensificar o trabalho que a cooperativa já realizava, e hoje posso ver os bons resultados”.


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