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25-07-2014

Projeto pretende traduzir a Bíblia para o pomerano


Foto: Divulgação/Elisângela Münchow Milton, Hilbert, Arnildo e Renato: tradutores se reúnem todas as quartas-feiras

Grupo de tradutores se reúne há dois anos e conta com o apoio de descendentes de imigrantes pomeranos para superar o desafio


A localidade de Bom Jesus, no interior de São Lourenço do Sul, é o local de encontro de quatro descendentes de pomeranos que trabalham desde 2012 em um projeto inédito. Além de terem a mesma origem histórica, dois teólogos, um professor aposentado e um comerciante têm em comum um desafio que já provoca encantamento entre as comunidades da região. O grupo, formado por Arnildo Münchow, Hilbert Wendler, Milton Vorpagel e Renato Blank, se reúne semanalmente há dois anos para traduzir uma parte da Bíblia do português para o pomerano. A iniciativa faz parte de um projeto chamado “Jesus”, e que prevê num próximo estágio a dublagem de uma produção do final da década de 70, considerada uma das versões cinematográficas mais fiéis às Escrituras Sagradas.




Traduzido para aproximadamente 1,2 mil línguas, o filme Jesus completa 35 anos em 2014 e caminha para sua primeira versão dublada em pomerano.


Um dos integrantes do grupo de tradutores é o pastor Arnildo Münchow, de 40 anos. Natural de Camaquã, ele concluiu os cursos de Teologia e Jornalismo pela Ulbra. Depois passou a residir em Canguçu, onde atende comunidades da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Segundo o teólogo, a iniciativa não está ligada diretamente a uma igreja, mas à Cultura Pomerana de forma mais ampla. Ele explica que devido às suas origens, o trabalho acabou ganhando também um significado pessoal. “O projeto tem contribuído no resgate da minha própria origem, da língua na qual minha mãe e meu pai falavam com a gente lá em casa. Colocar o texto na língua materna de tantas outras famílias, que ainda têm no pomerano sua base de comunicação, é como entrar na cozinha da casa delas, sentar ao lado do fogão, e contar sobre o amor de Deus”, conclui.


O pastor explica que a tradução representa um desafio ainda maior devido a não existência de material normativo da escrita pomerana. “O que se tem até hoje, tanto aqui no Rio Grande do Sul como no Espírito Santo, são tentativas de escrita”, avalia. Diante da dificuldade, o grupo precisou elaborar, a partir de algumas regras da fonética, uma forma de escrita que se dispõe a usar as letras conforme o som próprio de cada uma delas. “Isso representa desafios consideráveis, no sentido de que muitas palavras variam, em termos de pronúncia e sonoridade, de uma região para outra. Existem palavras muito parecidas no som da pronúncia, mas que, no significado, são bem diferentes”, afirma.


Até agora já foram reproduzidos pequenos textos, reflexões e historinhas bíblicas. A tarefa se torna mais difícil em relação ao Evangelho de Lucas (trecho da Bíblia usado na adaptação para o filme Jesus), pois nem todos os termos têm uma tradução direta para o Pomerano. Münchow explica que o trabalho exige tempo, paciência, persistência e muita conversa com os falantes pomeranos. Mas, segundo ele, um dos principais fatores para o êxito é manter a humildade diante da tarefa. “Não se pode pensar que ‘eu é que sei e vai ser do meu jeito’. É um trabalho em equipe”, explica o teólogo, que considera fundamental o apoio recebido da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). A entidade oferece estrutura e o acompanhamento permanente de um consultor de traduções, especialista no texto bíblico.


Cada etapa é traduzida com o auxílio de um programa especial para computadores. Nas reuniões, que ocorrem às quartas-feiras, os integrantes discutem os termos e possíveis adequações. Eles estão no Capítulo 12 e pretendem, até o final do ano, concluir a tradução. Enquanto avançam, os integrantes propõem uma leitura do trecho traduzido para verificar se outros pomeranos conseguem entender o texto. Segundo a avaliação do grupo, o trabalho já rendeu bons frutos na região. “De início a maioria acha difícil a leitura, mas a partir do segundo ou terceiro parágrafo, já passam a ler o texto de forma plenamente compreensível pelos que ouvem”, relata o pastor.


Münchow recorda que durante a inauguração do Museu Pomerano, em São Lourenço do Sul, encontrou várias pessoas que chegavam a se emocionar lendo ou ouvindo a leitura da Bíblia na chamada língua do coração. “O combustível do projeto é, principalmente, o grande número de pessoas idosas que certamente compreenderão melhor a palavra de Deus se for-lhes oferecido o texto em pomerano”, finaliza.


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