Segunda, 29 de junho de 2026, 20:37h
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Uma vida saudável, sustentável, orgânica e ecológica. Parece papo “natureba”? Soa muito caro aos seus ouvidos? Não sobra tempo para preocupar-se com essas bobagens? Algumas dessas desculpas comuns e julgamentos precipitados não fazem mais sentido em muito lugar por aí. Na vida contemporânea, no ritmo frenético das grandes metrópoles, na ânsia de acumular funções e livrar-se de tudo o mais rápido possível, o que mantém a humanidade em pé parece não carregar tanta importância. As refeições passam a ocupar curtos espaços de tempo durante o dia e aquilo que se coloca no prato tanto faz ou tanto fez.
Em Pelotas, uma cooperativa está modificando esse hábito. Há 14 anos, a Sul Ecológica ocupa o mesmo espaço cedido pelo Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (CAPA), no centro da cidade. Ela surgiu quando os agricultores da Região Sul do Estado sentiram necessidade em ter alguma organização que os representasse. Suas atividades iniciaram por conta de uma demanda escolar em Pelotas, onde se fez necessária uma organização jurídica que contemplasse esse trabalho de comercialização.
“Hoje em dia, a cooperativa trabalha tanto com o planejamento de produção, com o apoio à transição, quanto nessa questão do comércio. Nós temos este ponto de venda fixo e estamos presentes, através dos nossos agricultores vinculados, nas feiras que ocorrem na cidade”, conta Marigaiane de Medeiros, técnica agrícola da cooperativa.
Na intenção de promover o consumo de produtos orgânicos e provenientes de agricultura familiar, a Sul Ecológica oferece um amplo espaço de compra, onde é possível encontrar além de uma grande variedade de hortaliças e frutas, outros produtos como arroz, feijão, temperos, extrato, soja em grãos, erva-mate, farinhas, açúcares, schmiers, sucos, pães e cucas, azeites, sementes e chás. Tudo orgânico.
Os agricultores parceiros da Sul Ecológica, em sua maioria, são das regiões de Arroio do Padre, Pelotas, Morro Redondo e São Lourenço do Sul. São 250 famílias parceiras, mas 50 destas contribuem atualmente abastecendo a demanda. Todos os alimentos são recolhidos diariamente pela cooperativa em um sistema de rotatividade para que todos os cooperados tenham o mesmo nível de envolvimento. Já na estrutura da própria cooperativa, Paulo Mielke de Medeiros assume o cargo de presidente e outros cinco ocupam os cargos que completam a diretoria. Além disso, o quadro de pessoal conta ainda com dois técnicos, vindos através de projetos de assistência técnica e dois estagiários. “A gente entende que essa nossa formação contribui muito para o trabalho. Quando os consumidores questionam porque nessa época não encontra determinado alimento aqui, mas no mercado o mesmo alimento está disponível, a gente explica que, por ser orgânico, não temos como produzir ou conservar fora de época, também tentamos trazer o calendário agrícola que mostra o ciclo dos produtos e a época que eles foram feitos para produzir”, conta Marigaiane.
Esses projetos técnicos garantem também a participação do CAPA em um edital de diversificação de áreas cultivadas pelo tabaco, onde a Sul Ecológica recebe recursos para trabalhar com os dois técnicos que, por sua vez, atuam no setor de planejamento, fazendo o cadastro de famílias fumicultoras e ajudando-as na transição e diversificação de produção, já que muitos desses agricultores optam pelo fumo por trazer resultados e lucro instantâneos, uma realidade que através do trabalho de transição vai sendo modificada aos poucos, de forma natural, garatindo a subsistência, mas direcionando o uso dessas terras para o cultivo dos orgânicos.
O foco de todas as ações é andar ao lado dessas famílias e, pensando nisso, a Sul Ecológica organiza reuniões a cada dois meses com os cooperados e promove visitas de campo. Além disso, a cooperativa é registrada no mapa do Organismo de Controle Social (OCS) como a OCS/03-RS e certificada pela Rede Ecovida, ambas as certificações participativas, já que cada família, juntamente com um técnico, auxilia outras famílias vizinhas e fiscaliza as mesmas, formando um ciclo de trabalho que envolve credibilidade e integração.
Marigaiane faz questão de frisar que, além de orgânicos, esses produtos deveriam ser classificados como ecológicos, devido a grande preocupação com as mais diversas questões ambientais, algo que reflete no produto final que o consumidor levará para casa, inclusive por saber a origem daquele alimento, como foi cultivado e que, por consumi-lo, estará fazendo a diferença, além de cuidar da própria saúde.
Algo que chama a atenção é o perfil do público que vai até a cooperativa em busca dessa alimentação natural. Normalmente, são jovens que estão desenvolvendo essa preocupação pela vida saudável e pessoas que já sofreram com alergias ou com outros problemas em virtude do consumo (por tabela) de agrotóxicos. Independente da idade, os industrializados e os tradicionais legumes do mercado, vão dando lugar aos alimentos cheios de vida, sem aditivos e, além da saúde, o bolso também agradece: a economia é visível.
E a preocupação vai desde a produção até o destino que se escolhe para os excedentes. Ana Claúdia de Oliveira é técnica agrícola e atendente na sede comercial da cooperativa e conta que, apesar dos pedidos de alimentos serem de acordo com a procura, todo o excedente é transferido para um minhocário, um húmus de minhocas californianas que recebe os restos de hortaliças e transformam esses resíduos orgânicos em adubo natural, que volta para os produtores.
Em relação ao abastecimento, Ana explica como funciona o procedimento: “Nós fazemos um contato diário com os nossos agricultores e, de acordo com a condição climática e a produção, conseguimos fazer o recolhimento desses alimentos presencialmente e distribuí-los nos locais onde temos nossas demandas, além do nosso ponto fixo. Quando é possível, tentamos fornecer aos cooperados as mudas de alimento para que eles possam produzir, já que buscamos auxiliar tanto com o trabalho técnico, quanto com esse fornecimento de sementes, contribuindo um pouco mais com esse tipo de produção que depende de tantos fatores”.
Distribuição
Diversos estabelecimentos da cidade de Pelotas abraçaram a causa sustentável e se tornaram parceiros da Sul Ecológica. Restaurantes ecológicos, com opções vegetarianas e veganas, fazem pedidos semanais e diários de hortaliças e frutas orgânicas que acabam se alinhando com a proposta desses estilos de vida.
Outra parceria é com o Restaurante Universitário da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) que oferece aos seus estudantes um cardápio variado com os produtos orgânicos de agricultura familiar distribuídos pela cooperativa. A relação entre a UFPel e os agricultores surgiu há quatro anos, através da compra direta de alimentos durante a última semana do mês de maio, na Semana do Alimento Orgânico, evento que promovia esse tipo de alimentação. Porém, apenas em junho do ano passado, através de editais de chamada pública, que surgiu a concretização da parceria com o Termo de Cooperação firmado com o governo do Estado, priorizando a comercialização desse gênero alimentício.
Esse planejamento de distribuição para o Restaurante Universitário é feito entre a Sul Ecológica e mais duas cooperativas da região que se dividem de forma igualitária para a entrega desses alimentos. Contudo, a Sul é a única que fornece alimentos orgânicos. Esse trabalho também acontece também na modalidade de Compra Institucional, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), uma das principais ações integrantes do Programa Fome Zero e um instrumento de estruturação do desenvolvimento da agricultura familiar. A cooperativa ainda participa presencialmente de feiras organizadas nos dois campi da UFPel (no Anglo e Capão do Leão) que acontecem semanalmente. Além do R.U., também são distribuídos alimentos para suprir as demandas de merendas escolares em escolas nos bairros de Pelotas e São Lourenço do Sul.
Palavra do produtor
Marcelo Duarte, 28 anos, trabalha na banca de alimentos da família na Feira Agroecológica que acontece todas as quintas-feiras, no Largo do Mercado Público de Pelotas. Ele conta que a família está presente na feira desde o seu início, há cerca de oito anos, comercializando alimentos orgânicos de agricultura familiar trazidos do lugar onde vivem, na Estrada da Gama, no distrito de Monte Bonito, há 16 km do centro da cidade.
“Nós enxergamos que esse produto orgânico acaba se tornando importante, em primeiro lugar, por conta da saúde, tanto da gente que trabalha com isso e por excluir o uso de herbicidas e produtos agrotóxicos na lavoura, como de quem tá consumindo um produto sadio que, além de tudo, é vida”, afirma Marcelo.
Libre Café
Bici. Café. Pan. Três palavras que definem o café que há pouco mais de dois meses ocupa um lugar no entorno da praça Coronel Pedro Osório e que se destaca no propósito e no tipo de serviço que oferece. A ideia é promover o uso da bicicleta, o estilo de vida vegano e orgânico. Cissa Norenberg e Arthur Martins são parceiros na vida e no recente empreendimento que apresenta um lugar atípico, onde os elementos que decoram também são ferramentas para consertos na bike, sem contar no bicicletário interno para que a magrela possa descansar enquanto você toma café da manhã, almoça ou faz um lanche à tarde.
Além de toda a ideia de espaço do Libre, algo chama a atenção: todos os alimentos são veganos (livres de ingredientes de origem animal) e produzidos com matéria prima orgânica. E opções não faltam. Desde a salada dos sanduíches, a farinha dos pães e cucas e as frutas para os doces feitos na hora: todos livres de agrotóxicos. Cissa conta que essa consciência acabou chegando com o tempo, justamente depois de se adaptar ao veganismo “Eu acabei saindo de Pelotas pra entender a importância dos alimentos orgânicos e não-transgênicos. Em Buenos Aires e em Porto Alegre trabalhei em restaurantes e cafés veganos, onde esse gênero alimentício era uma prioridade. Foi aí que comecei a pensar no assunto, no porquê de não usar a soja, o porquê de comprar os alimentos nas feiras da cidade e passei a adaptar as receitas que eu fazia para serem livres destes tóxicos”, conta.
As preocupações de Cissa e Arthur não param no que se refere a fazer produtos de qualidade e totalmente orgânicos, sendo assim eles acabaram indo além: o desejo de conscientização em relação ao “o que é vegano?” e “o que é orgânico?”, levou o Libre a ceder seu espaço, todas as terças-feiras à tarde, para uma feira orgânica em parceria com a cooperativa Sul Ecológica.
Nesta semana, a feira completou sua quarta edição e concretiza-se como mais um local que propicia a compra desses alimentos e um espaço de fluxo de informações. “A ideia da feira é um sonho, justamente por essa ideia de ter um café com um espaço de troca. Quando entramos em contato com a cooperativa, eles nos deram bastante abertura e foram bem receptivos. A parceria está sendo muito legal e eles nos trazem os alimentos fresquinhos no mesmo dia da feira, pela manhã. A feirinha é algo muito bacana, mas ainda existe a desilusão das pessoas pela falta dos produtos, já que é orgânico. Eles ainda se decepcionam bastante, inclusive algumas pessoas que vieram na primeira edição, já não compareceram na próxima porque pensam em uma “mega feira” com muitas coisas. Por outro lado, tenho clientes que nunca vieram antes no café, mas fizeram isso pela primeira vez por conta da feira. Já estamos vendendo, além dos legumes, temperos e frutas, arroz e sucos também e a ideia é ter cada vez mais produtos para oferecer”, afirma Cissa.
Feiras Orgânicas em Pelotas
Feira Agroecológica: avenida Bento Gonçalves, esquina almirante barroso, nas terças-feiras, das 7h às 13h;
Libre Café: praça Cel. Pedro Osório, 61, nas terças-feiras, das 14h30 às 19h;
Campus Anglo/UFPel: nas quartas-feiras, das 9h às 14h;
Campus Capão do Leão/UFPel: nas quintas-feiras, das 9h às 14h;
Feira Agroecológica: Largo do Mercado Público, nas quintas-feiras, das 14h30 às 19h;
Feira Agroecológica: avenida Dom Joaquim (quase esq. com avenida República do Líbano), aos sábados, das 7h as 13h;
Cooperativa Sul Ecológica de Agricultura Familiar: rua Barão de Santa Tecla, 510, diariamente, de segunda à sexta, das 8h30 às 12h e das 14h30 às 18h;
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