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02-04-2015

Intolerância à lactose: iniciativas fazem da páscoa uma época de superar limitações


Foto: Divulgação A própria criadora da Com Amor e Sem Lactose também é a garota propaganda das gostosuras que estão fazendo sucesso nessa véspera de páscoa

Pesquisas mostram que 70% dos brasileiros apresentam algum grau de intolerância à lactose, que pode ser leve, moderado ou grave. Náusea, gases, inchaço e diarreia são apenas alguns dos sintomas ao ingerir um simples copo de leite ou um pedaço de queijo aos que desenvolveram essa intolerância. Esse distúrbio digestivo se resume na incapacidade parcial ou completa de digerir o açúcar existente no leite e seus derivados. Isso ocorre quando o organismo não produz, ou produz em quantidade insuficiente, uma enzima digestiva chamada lactase, que quebra e decompõe a lactose, ou seja, o açúcar do leite.


Mas e como fica a Páscoa de quem vive com essas restrições alimentares? Ovos de chocolate, trufas com chocolate ao leite e outros doces comuns não fazem parte dessa dieta. A notícia boa é que os pelotenses e moradores da região já podem contar com esas datas comemorativas bem mais recheadas que antes. Há apenas seis meses, Suelen Matievicz resolveu criar a “Com Amor e Sem Lactose” e o nome já diz muito sobre a empresa tão recente nesse mercado: são brigadeiros, bolos, cupcakes, trufas e ovos de páscoa feitos sem lactose, para o alívio das pessoas que, por conta dessa intolerância, se acostumaram a uma alimentação limitada.



E limites não existem na cozinha da Com Amor e Sem Lactose. Usando as estruturas de um antigo depósito da família, Suelen tem apenas 23 anos e cria seus doces em um estilo de “cientista”, como dizem seus amigos. Trufas sem lactose, sem glutén e sem produtos de origem animal, nos sabores maracujá, morango, cacau e coco. E todas incrivelmente saborosas. A ideia surgiu quando a paranaense que mora com a família em Pelotas há seis anos, durante o seu curso de Gastronomia no Senac, descobriu que havia se tornado intolerante à lactose. “Eu já tinha feito um ano do curso de Administração, depois dois de Direito e larguei tudo para recomeçar a vida na Gastronomia. Durante o curso, dois anos atrás, identifiquei a intolerância e foi péssimo. Passava mal nas aulas, não conseguia fazer as receitas porque quase todas usavam manteiga, por exemplo. Quis desistir, mas meu professor adaptou o curso para mim e me incentivou a continuar lá. E através das minhas colegas conheci o veganismo”, conta. Suelen descobriu através do veganismo, estilo de vida que exclui todas as formas de exploração animal – principalmente na alimentação -, diferentes opções de adaptação de receitas anteriormente preparadas com leite e seus derivados. Leites vegetais, como o de amêndoas (seu favorito), de aveia, de arroz, dentre outras alternativas que a fizeram enxergar a gastronomia com outros olhos, percebendo que era possível se alimentar bem e de forma nutritiva, apesar das restrições.


Formada em Cozinheira Básica e Chefe Profissional pelo Senac, Suelen resolveu iniciar as produções e criou a Com Amor e Sem Lactose. Ela trabalhou sozinha durante os primeiros cinco meses, criando, inventando, virando noites na cozinha, recebendo os pedidos e fazendo as entregas. Com a proximidade do Natal, os pedidos aumentaram e Milena Ramires e Júlia Tunes chegaram para compor o grupo da cozinha artesanal. Além da cozinha, todas as embalagens, nas cores roxo e amarelo feitas para que pudessem abranger homens, mulheres, adultos e crianças, também são artesanais e feitas pela mãe de Suelen, Mery Matievicz. Ana Paula Freire, formada em marketing e amiga da família, também se juntou a esse empreendimento, entrando como investidora e, principalmente, como fã dos doces zero lactose: “Eu era cliente da Suelen e não sou vegana, nem intolerante, mas adorava os doces por serem menos enjoativo. Era algo que eu comia e não sentia culpa, bem mais leve. Eu comi pela primeira vez sem saber que não tinha leite. Então essa parceria foi muito mais fácil porque eu já tinha essa relação mais próxima”, diz.


Por mais óbvio que seja, Suelen explica por que criou a Com Amor e Sem Lactose. “Estou aqui para ajudar as pessoas a poderem comer coisas gostosas, acima de tudo. O foco começou nas crianças. Quando eu descobri a intolerância, pensei que se eu tinha 20 anos e não entendia que não podia ir em certos lugares e comer o que eu quisesse, imaginei como seria para as crianças que não entendem o que acontece. Quando eu recebo o pedido de uma mãe que quer doces para o aniversário do filho (a) que é intolerante, eu pergunto o nome dele porque é tudo feito para eles. Hoje, tenho tudo regularizado e quando você pega seu CNPJ, você sente que agora é sério, agora você tem uma empresa. E ou dá certo ou dá errado”.


Ao que parece, nesse pouquíssimo tempo, as coisas tem dado muito certo. Com a maioria do público formada por mães de crianças intolerantes à lactose e/ou à proteína do leite, Suelen vê seu empreendimento crescer e tomar proporções gigantescas nessa Páscoa. A procura triplicou e os pedidos não param, assim como os desafios. Ela confessou que um dos seus maiores desafios foi há pouco, quando recebeu o pedido da mãe de uma criança intolerante à lactose, à proteína do leite, à glúten, à soja, à sementes oleaginosas e algumas frutas, como morango e banana. Desafios como este, segundo a jovem, estimulam a criatividade e a fazem trabalhar com sede de se reinventar e de surpreender o paladar alheio. Trufas de amendoim ou brigadeiro de batata doce. Não há barreiras que atrapalhem a criação e que impeçam essas crianças de descobrirem o prazer de comer doces saborosos, independente das limitações existentes.


Outra preocupação da Com Amor e Sem Lactose, são com aqueles que não tem poder aquisitivo de fazer essas encomendas. Ações conjuntas com o Banco de Alimentos Madre Tereza de Calcutá estão na lista de futuros projetos, estimulando a troca de encomendas por leites especiais para essas famílias. Em longo prazo, a empresa também sofrerá reformas e melhorias na estrutura física, incluindo a criação de uma outra cozinha exclusiva para a produção de salgados. Além disso, firmou-se uma parceria com o Sebrae, que fará um acompanhamento de um ano com a empresa, envolvendo o trabalho em design de interiores, intervenção de arquitetos e especialistas no setor de embalagens, participação de eventos, cursos e visitas técnicas à outras empresas.


Como uma intolerante à lactose e dona de um negócio que dedica uma atenção especial a esse tipo de alimentação, Suelen vê que essas doenças “do mundo moderno”, como costuma definir, estão afetando alguns setores da sociedade. Um deles, é o despreparo de alguns profissionais da área gastronômica em não saber adaptar suas receitas e/ou suas aulas às produções livres de lactose e de produtos de origem animal. Isso acaba afetando também o mundo acadêmico, que ainda é muito escasso no que se refere a artigos e livros que sirvam de embasamento teórico a quem trabalha, convive ou apenas se interessa pelas alimentações que fogem dos padrões. Ela percebe ainda uma certa resistência das pessoas em diagnosticarem e aceitarem que são intolerantes, algo que não tem cura e que seria bem mais maleável se fosse encarado de frente. “As pessoas têm medo de comer minhas trufas. Até mesmo em degustação, existe esse receio e depois que provam e aprovam, quase não acreditam que é um produto livre de lactose”, diz.


Aos poucos, a criadora do Com Amor e Sem Lactose vai aperfeiçoando sua cozinha, participando de cursos, workshops e consultorias para aprimorar seu conhecimento. Ela já aboliu o açúcar branco de suas receitas, que por sinal não têm níveis de colesterol e os chocolates são 100% cacau, o glutén vai sendo excluído aos poucos das receitas dos cupcakes e a soja vai sendo usada em quantidades cada vez menores. Tudo para alcançar o título de “alimentação saudável”, desmistificando o pensamento de que doces fazem mal e que uma vida com intolerâncias precisa ser limitada todo tempo.


“Eu faço esse trabalho para as crianças, para fazer as pessoas felizes e o fato de ter o amor no nome é realmente ter amor em fazer isso. Eu realmente amo estar aqui. Óbvio que passar 15 dias virando as noites se torna cansativo, mas eu quero dar o melhor de mim para as pessoas”, conclui. Com seus produtos presentes em estabelecimento de Pelotas e até mesmo de Rio Grande (Cassino) e embalagens que chegam aos consumidores com mensagens “secretas” em seu interior, é possível fazer as encomendas pelo telefone (53) 8139-1221, pelo e-mail [email protected] ou através da página da Com Amor e Sem Lactose no Facebook e solicitar a tabela de produtos e preços. A primeira coisa que Suelen procura saber, se for o caso, é sobre as restrições alimentares do cliente e depois disso a criação fica por conta da casa. E do amor.


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Comentários (1)

03-04-2015 - 16h34min

Viviane, de Porto Alegre-RS, disse:

Há 1 ano convivo com o diagnóstico de intolerância à lactose. Passei a páscoa do ano passado vendo todos meus familiares comendo chocolates, enquanto eu não podia comer nada. Este ano graças a COM AMOR E SEM LACTOSE a esta páscoa vai ser diferente, muito mais doce! Parabéns Suelen, parabéns meninas!





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