Segunda, 29 de junho de 2026, 06:21h
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De família tradicional, bem conceituada e que fez e continua a fazer história em Pelotas, é o advogado e gastrônomo Aldo Parsso Caruccio, empresário da Confeitaria Berola, situada na avenida Bento Gonçalves, nº 3.721.
Em um bate-papo informal, ele contou um pouco da sua trajetória com o doce, o qual faz parte de sua vida não só profissional, mas também enquanto filho de Pelotas. Cidade cultural e histórica que respira a arte em cada traçado de suas ruas, depois da época do sal, veio o doce a embalar os saraus de famílias nobres até cair no gosto e agrado popular, plantando então a semente de nome Fenadoce.
Como filho desta terra, Caruccio se curvou a arte do doce, e de uma forma totalmente simpática, descontraída e leve, recebeu para uma entrevista exclusiva o Jornal Tradição Regional em sua casa.
Jornal Tradição Regional – Conte um pouco da sua ligação com o doce?
Aldo P. Caruccio – Sou advogado, formado em Direito. Fiz também administração de empresas, além de ser formado em gastronomia, em padaria e confeitaria.
Minha mãe é advogada há 42 anos e sempre quis ter um filho advogado, mas eu sempre gostei de trabalhar com o público, mais gratificante do que isso não existe, porque a pessoa entra e vê um balcão lindo, maravilhoso. O próprio pelotense já enche os olhos, imagina uma pessoa vinda de fora.
É como se fosse um parque de diversão de uma pessoa adulta, e não é papo de vendedor, é verdade. Tu vendes alegria, como disse esses dias uma senhora para mim: “Não tem como tu ficar triste aqui dentro”. Doce é alegria, traz felicidade, é uma coisa maravilhosa de se fazer, é perfeito.
Posso então te dizer que é uma coisa prazerosa, não tem algo melhor do que isso. Eu gosto de trabalhar com o público.
JTR – Por que trabalhar com o doce te dá tanto prazer?
Aldo P. Caruccio – Porque tu vê a pessoa pagar um valor “X” pelo doce e, juntamente com o paladar, ela saboreia o prazer daquele doce, fazendo questão de lembrar da avó, da mãe, da sogra, e acaba levando uma caixinha de doces para presentear. É o encontro de gerações através da história. Como, por exemplo, a fala de uma moça: “minha avó gosta de doce mais tradicional, já o meu irmão do bombom de morango”, que é um dos doces mais vendidos para a gurizada, pois é bem jovial.
JTR – Então o doce é pensado de acordo com a faixa etária?
Aldo P. Caruccio - Sim. Há 1 hora atrás, um rapaz esteve aqui e pediu 10 docinhos, e como é hábito meu, disse a ele que se quisesse ele podia me perguntar sobre algum, porque tem muita variedade, talvez não conheça e não saiba identificar que doce é, do que é feito. Então, me coloco à disposição, caso queiram perguntar, deixando o cliente bem à vontade.
No desenrolar da conversa, o cliente pediu que eu escolhesse para ele. Essa atitude não é comum, mas às vezes acontece. Sendo assim, escolho os melhores que eu tenho na casa, mas eu preciso saber para quem tu vais dar: para uma senhora? Um jovem? Uma criança? Pois existem doces que vão dos mais tradicionais aos mais contemporâneos.
As senhoras preferem o olho de sogra, o bem casado, o camafeu, uma panelinha de coco, o ninhozinho, que é bem conservador, bem como o quindim, que é o nosso carro-chefe.
Só para teres uma ideia, vendemos semanalmente em torno de 800 quindins.
JTR – Trabalhar com doce requer muito cuidado, muita atenção?
Aldo P. Caruccio – Exatamente, pois tem que se ter muito cuidado mesmo, principalmente quando os vendemos para pessoas que vão realizar viagem, pois tem doces que são resistentes, outros não tanto.
Agora mesmo a tarde teve um outro caso, de pessoas com intolerância à lactose, glúten. É uma coisa gigantesca, mas aqui nós temos doces sem lactose, sem glúten, porque o quindim por exemplo, é puro ovo, açúcar e coco fresco, não tem lactose (leite) e nem glúten (farinha).
Todo esse empenho nos recompensa, veja só. Veio um senhor empresário de Caxias do Sul, dono de uma linha de colchões, e disse o seguinte: “Vou voltar aqui novamente, porque a minha esposa, depois de velha, começou a ter intolerância tanto à lactose quanto ao glúten, e o que encontrei aqui nesta confeitaria foi um diferencial.”
Esta fala me deixou muito feliz, pois a gente acaba buscando fazer um atendimento diferenciado. Todas as minhas funcionárias quando tem alguma dúvida fazem questão de perguntar. A maioria delas está preparada. Na realidade, 99% do que sei eu faço questão de passar para elas desde o início. É uma forma de parceria que eu preciso, porque os meus funcionários me representam aqui, se eu precisar sair, eles vão estar esclarecidos.
JTR – E em relação a Fenadoce, como foi o teu engajamento?
Aldo P. Caruccio – A Fenadoce é mais a fábrica que cuida, é quem organiza juntamente com a Xana Gallo, a qual sempre faz questão de trazer lançamentos, todos os anos, de doces novos.
Teve um ano em que ela lançou o Céu de Nozes, o Sete de Abril, Pelota, em homenagem a Pelotas, o Terra Doce, que é feito com uma fruta mediterrânea, doce este muito gostoso, que é um copo de chocolate com creme de chocolate.
Então, geralmente, é a Xana Gallo que cuida dessa parte, porque a Berola estrategicamente fica na Fenadoce, no Centro, cercada pelas demais confeitarias e, muitas vezes, as pessoas vão pegar um docinho e este já esgotou. A gente não dá conta, porque se vende 70, 80, 90 mil doces por semana ou em um final de semana, é uma coisa impressionante.
JTR – E quanto à logística da Berola em relação aos doces?
Aldo P. Caruccio – É preciso ter uma logística totalmente preparada, qualificada para suprir, reabastecer os docinhos. A equipe fica pronta, se prepara para este período. Como são doces artesanais, é importante saber que na fábrica 100% é manual, até a cobertura, no caso o glacê, do bem casado, o pão de ló.
JTR – E quanto a oportunidade de frentes de trabalho?
Aldo P. Caruccio – É parecido com o final de ano, nesta época se recebe muitos currículos para contrato temporário, onde algum funcionário pode se destacar e acabar ficando para trabalhar na fábrica.
JTR – Em relação à certificação ou autenticação dos doces, quais são as características, as exigências?
Aldo P. Caruccio – Acredito que a Associação das Confeiteiras se uniu e fez uma autenticação dos doces, os quais deveriam apresentar um padrão, um estilo ou um modelo, ou seja, padrão exato dos doces.
Nós tivemos um problema no que diz respeito a essa certificação. Uma senhora veio comprar nossos doces e perguntou a uma funcionária se tinha selo de Pelotas, e a funcionária ficou me olhando sem saber o que responder, visto que essa é um tipo de informação que nunca passei a elas.
Então falei para a senhora que nós não temos o selo de Pelotas hoje porque, para se obter o mesmo, é preciso ter a receita exata dos doces de Pelotas e, nós, ou seja, a fábrica, usamos a receita dos doces da dona Berola.
JTR – Podes pincelar um pouco da história da dona Berola?
Aldo P. Caruccio – Conta a história que Getúlio Vargas se apaixonou pelos doces da dona Berola, a qual fazia os casamentos das charqueadas, os aniversários, jantares, enfim, fazia muitas festas em toda a região, como Rio Grande, Bagé, Pelotas, Piratini.
Em uma dessas situações, Getúlio Vargas, que não era presidente da República, conheceu os doces e se encantou por eles. Quando teve oportunidade de colocar os doces em evidência, não sei se por aquela coisa de essência do gaúcho, de mostrar, de ter orgulho, quando ia para o Catete, no Rio de Janeiro, sempre levava os doces ou então a dona Berola e sua equipe para fazê-los. E graças a Vargas, esses doces acabaram se espalhando perante a sociedade mais elitizada, porque as pessoas que frequentavam os almoços presidenciais eram os deputados, os comandantes, os capitães, tenentes, pessoas mais elitizadas.
Essas pessoas comentavam como os doces eram gostosos e, daí saiu o famoso bordão: São doces de Pelotas.
JTR – E sobre os fornecedores, a qualidade da matéria-prima?
Aldo P. Caruccio – A matéria-prima para nós é fundamental, parece mentira, mas o nosso produto nacional é muito bom. Às vezes nós sofremos muito com a queda de alguma matéria-prima, como o caso de não termos nozes nacionais, que é a Pecan, e aí compramos a noz chilena, que é mais amarga, causando reclamação em massa, dá uma diferença gigantesca. Estou usando este exemplo para vocês verem a importância do fornecedor ter um produto de qualidade.
O produtor te passa um produto para oferecer doces com qualidade, porque se não apresentar tal referência, percebe-se uma grande diferença.
São pequenos detalhes que fazem toda a mudança.
JTR – O tema da feira este ano é “Uma Festa Completa”. O que te diz esta temática?
Aldo P. Caruccio – Acho que a Fenadoce, na verdade, é uma festa para todos, mais do que completa até, onde o pobre, o rico, todo mundo participa. Para mim, sempre foi completa, porque sem o doce, sem a gente, a festa não teria sentido. Mesmo com toda a infraestrutura, as pessoas vão lá por causa da gente, do doce.
Nós completamos a festa, por ser o doce o carro-chefe deste evento.
JTR – E quanto à infraestrutura da Berola, do local?
Aldo P. Caruccio – Procuro ter muito cuidado, agora mesmo fiz a encomenda de uns ladrilhos portugueses para decorar o ambiente.
O cliente tem que se sentir aconchegado desde o primeiro momento que adentrar nesse espaço, se sentir acolhido pelo doce de todas as formas possíveis.
JTR – E quanto as funcionárias da Berola? Podes comentar um pouco como é a atividade?
Aldo P.Caruccio – A relação é de grande confiança, tanto que vou pedir para as minhas duas funcionárias que estão aqui conversarem contigo.
JTR – E uma mensagem para a 23ª Fenadoce, enquanto participante ativo, empresário que já vem trabalhando e acompanhando toda esta historicidade?
Aldo P. Caruccio – Que as pessoas aproveitem, se divirtam, e que adocem suas vidas, porque a gente corre atrás. O brasileiro é um povo que parece que, quanto mais apanha, mais dá risada. É uma coisa impressionante. Então está na hora da gente se divertir, é uma festa que temos para nossa região, importante para nós. Portanto, a gente tem que proporcionar esse evento para nossa região. Deveriam ter mais festas iguais ou maiores, que passassem entretenimento, diversão e cultura para a comunidade, até mesmo com valor mais acessível, o que eu acho que seria mais justo.
Funcionárias falam sobre a Berola
JTR – Como é o dia a dia na Berola, recebendo as pessoas, trabalhando com doce?
Valderez M. Lopes – É alegre trabalhar com doces e o público, a clientela que vem aqui é muito educada. O ambiente é familiar, desde o patrão até as colegas.
JTR – Qual é o doce mais vendido?
Valderez M. Lopes – É o quindim, este é o carro-chefe de Pelotas, principalmente para quem não é daqui, como de Porto Alegre, Paraná, Rio de Janeiro e outros lugares. E aqui, em nossa cidade, o quindim é muito pedido, geralmente pelas pessoas com faixa etária acima de 30 anos. As com menos de 30 preferem o bombom de morango.
JTR – Qual é o doce preferido de vocês?
Valdirez M. Lopes – Ninho glaciado.
Elise Á. R. da Silva – Bombom de morango.
JTR – Como é o movimento na Berola no período da Fenadoce?
Valdirez M. Lopes – É bem movimentado durante a semana, mas com certeza, aumenta quando acontecem eventos em Pelotas, por isso que é importante divulgar a parte turística.
JTR - Foi difícil gravar o nome dos doces?
Valdirez M.Lopes – No começo, eu demorei um pouquinho, mas depois consegui assimilar rapidamente.
Elise Á. R. da Silva – Não, em torno de uma semana. O patrão é uma pessoa muito boa, que tem paciência em explicar doce por doce, sua composição, tudo.
JTR – O que representa a Fenadoce para vocês?
Valdirez M. Lopes – Acho muito bom, porque é uma oportunidade para a cidade evoluir.
Elise Á. R. da Silva - Também vejo como um acontecimento muito importante, porque o turismo que a Fenadoce traz para Pelotas traz vantagens para a região.
JTR – Deixem uma mensagem para esta Fenadoce, representando o local em que vocês trabalham:
Valdirez M. Lopes – Comam doces, sejam bem felizes nessa Fenadoce 2015.
Elise Á. R. da Silva – Que aproveitem bem a Feira e visitem principalmente a Berola, prestigiando nossos doces tradicionais.
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