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História de Piratini é guardada em prédios e ruas do século XIX
Repleta de fatos marcantes, a cidade de Piratini, que no domingo (6) completa 226 anos de fundação, guarda consigo uma história ímpar, trazida de geração para geração e idolatrada pelos gaúchos.
Local conhecido como “Serro Pelado”, pertencente a um distrito de Rio Grande, a região no sul do Rio Grande do Sul era muito almejada por castelhanos no século XVIII que, insistentemente, tentavam apropriar-se daquelas terras.
Esta insegurança provavelmente tenha sido o principal fator que motivou o chefe militar Rafael Pinto Bandeira a indicar a ocupação da área. A solicitação de Bandeira foi acatada pela rainha de Portugal, Dona Maria I, que ordenou, em 6 de julho de 1789, a criação de um povoado naquele local.
As terras, pertencentes a José Antônio Alves, foram permutadas com aquele estancieiro. Posteriormente, foram se “achegando” açorianos vindos de algumas regiões, como Porto Alegre e Viamão. Ao total, 48 casais ocuparam, a pedido do Império, aquele povoado. A escolha dos açorianos deu-se devido aos seus conhecimentos sobre agricultura que poderiam ser utilizados naquelas terras.
Eles ficaram estabelecidos a margem direita do rio Piratinym Mirim (atual Passo do Batalha). No local, produziam algodão, trigo, cevada e demais produtos. Havia um morador chamado Antônio José Vieira Guimarães que, devido a devoção dos açores a Nossa Senhora da Conceição, doou um terreno para construir uma capela para a santa.
Com a construção do local de orações, foi-se formando um núcleo nas proximidades da capela. A povoação, aproximadamente em 1790, foi denominada Nossa Senhora da Conceição do Piratinym.
Com seu crescimento gradual, no ano de 1815 foi elevada à categoria de Freguesia, título que abrigou por 17 anos, até ser elevada a Vila, em 1832. No mesmo ano, foi fundado em Porto Alegre o Partido Farroupilha, que logo tomou grandes proporções em todo o Estado.
Com aquiescência da maçonaria, o Partido Farroupilha nasceu com ideais republicanos e libertários, baseados nos mesmos ideais da Revolução Francesa, que coincidentemente começou no ano de fundação do povoado de Piratinym, tendo término somente em 1799.
Um dos fatores que culminaram na criação deste partido foi a independência do Uruguai, em 1828. O Rio Grande do Sul sofria com os altíssimos valores dos impostos cobrados pelo Império, principalmente sobre o charque. Acredita-se que esse alto valor tenha sido o estopim para a guerra que então surgia.
Um grupo que incluía Bento Gonçalves, então coronel e líder do Partido Farroupilha, reuniu-se para encontrar meios de dar um fim àquela indigesta situação. Naquele momento, fortalecia-se ainda mais a causa republicana.
Em 19 de setembro de 1835, os farroupilhas partiram da residência de José Gomes de Vasconcelos Jardim, em Pedras Brancas (atual município de Guaíba), e ocuparam a capital, Porto Alegre. O presidente de Porto Alegre, Antônio Fernandes Braga, embarcou em um navio e evadiu para Rio Grande. Contam livros que Gomes Jardim e Onófre Pires entraram triunfantes em Porto Alegre. Ali estava deflagrada a Revolução Farroupilha.
Com influencia de piratinienses, no dia 11 de setembro de 1836, nas proximidades do rio Jaguarão, o coronel Antônio de Souza Neto proclamou a República Rio-Grandense. A partir daquele momento, o Rio Grande do Sul passou a ser um país, e a revolução tornou-se uma guerra, a Guerra dos Farrapos.
No dia 8 de outubro de 1835, Antônio de Oliveira Nico, juntamente com 100 homens armados, ocupou a Vila de Piratinym. A tropa farroupilha rendeu e destituiu todas as autoridades imperiais. Todavia, o presidente da Câmara e aqueles que aderiram a causa não foram depostos. Devido a sua localização estratégica, a vila foi escolhida como Capital dos Farrapos.
Bento Gonçalves foi eleito como presidente da República Rio-Grandense. Porém, como estava preso no Rio de Janeiro nesse período, Gomes Jardim assumiu a presidência.
Já empossado, Jardim teve três atos de grande valia. Ele promoveu Bento Gonçalves de coronel a general, criou a bandeira da República Rio-Grandense, que se tornou a bandeira do Rio Grande do Sul, e elevou a Vila de Piratinym a categoria de cidade.
Transferido do Rio de Janeiro para uma prisão do Forte do Mar, na Ilha de Itaparica, na Bahia, Bento Gonçalves contou com a ajuda da maçonaria para fugir. Ele ludibriou os guardas e jogou-se ao mar, de onde seguiu nadando até um barco que o aguardava.
Levado primeiramente até Santa Catarina, Gonçalves foi acompanhado por um vaqueano até Piratinym. A viajem a cavalo foi desgastante, mas o general conseguiu chegar à Capital da República. No dia 16 de dezembro de 1837, tomou posse como presidente da República Rio-Grandense.
Circulou na cidade o jornal “O Povo”, responsável por trazer todas as notícias sobre a Guerra dos Farrapos. Produzido pelo italiano Luigi Rossetti, sua primeira edição foi lançada em 1º de setembro de 1838.
Como imperiais rondavam a cidade, a fim de atacá-la, os republicanos optaram por mudar o governo para Caçapava do Sul. A viajem durou cerca de 16 dias, e estima-se que 18 carretas tenham sido levadas.
Outro fato que ficou marcado na história da cidade foi o Combate dos Porongos, em 14 de novembro de 1844. Os farroupilhas estavam acampados no “Serro dos Porongos”, então município de Piratinym, que atualmente pertence a Pinheiro Machado, quando foram veemente atacados por tropas imperiais, sob o comando de Francisco Pedro de Abreu, o Moringue.
Pegos de surpresa, acredita-se que mais de 300 lanceiros negros foram mortos. Teixeira Nunes, um dos principais líderes dos lanceiros negros, foi atingido e, posteriormente, morto pelo imperial Manduca Rodrigues. Especulações indicam que o general farroupilha David Canabarro tramou com Moringue a emboscada de seus próprios homens.
Com a assinatura do Tratado de Ponche Verde ou Paz de Ponche Verde, em 1º de março de 1845, o Rio Grande do Sul voltou a ser uma província. Piratini foi rebaixada pelo Império novamente à Vila, condição que teve por 93 anos, até 1938, quando conquistou o título de cidade.
O próprio barão de Caxias dizia que Piratini era a terra mais farroupilha que existia. Contudo, ela foi a maior prejudicada com o final da guerra. De acordo com o livro Roteiro Histórico e Sentimental, de Davi Almeida, os municípios de Arroio Grande, Bagé, Candiota, Canguçu, Cerrito, Herval, Hulha Negra, Jaguarão, Pedro Osório, Pedras Altas e Pinheiro Machado pertenciam a Piratini.
Neste domingo, Piratini completa mais um ano de existência. São 226 anos de histórias, memórias e, principalmente, de honras e glórias. Como cita o próprio refrão do Hino de Piratini, “O teu povo se orgulha de ti, Piratini conheceu a vitória. O teu povo se orgulha de ti, Piratini que ficou na história”.
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