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02-05-2016

Especial JTR: Porongos e as lembranças do massacre na Guerra dos Farrapos em Pinheiro Machado


Foto: Tainã Valadão Prefeitura realizou evento em 2014 para relembrar 170 anos do massacre

Era primavera e, assim como a estação que a sucede, os dias eram quentes e abafados; porém, na noite, a temperatura mudava e os frios intensos tomavam conta do Rio Grande do Sul.


Todos estavam cansados, fartos de uma guerra que já perdurara por quase 10 anos. Mas, no pensamento, havia um sublime ideal. Não era por impostos, política, charque ou qualquer outra ideia republicana que eles lutavam. Seus sentimentos os faziam pelear como ninguém. Desbravados à frente das tropas, eles queriam a liberdade.



Negros, eram “escravos do poder absoluto”, assim como general Neto citara em seu memorável discurso de Proclamação da República Rio-Grandense, no Campo dos Menezes, a 11 de setembro do ano de 1836.


Neto usou as falas escritas na noite anterior pelo tenente-coronel Manoel Lucas de Oliveira, que além de piratiniense, era convicto e republicano por excelência. Talvez aquele trecho não fosse direcionado especificamente aos negros, mas encaixava-se “como uma luva” naquele momento. Ao seu lado e responsável pela leitura do ato, estava o tenente-coronel Joaquim Pedro Soares, que fora um dos maiores comandantes dos lanceiros negros.


Eles eram os escudos dos farroupilhas e, na sua maioria, usavam apenas lanças longas, as quais manuseavam com destreza e perspicácia. Sempre os primeiros a entrar no campo de batalha e últimos a deixá-lo, invocavam uma força superior com cânticos africanos trazidos de seu país de origem. No Brasil e para o Império não passavam de escravos, mas ali representavam o Rio Grande do Sul e a liberdade de um povo.


Contudo, aproximava-se o fim da peleja e o sonho de alforria ficava para trás. As negociações de paz entre os farroupilhas e os imperialistas fluíam, mas um ponto em questão não era cedido por nenhuma das partes: a liberdade dos escravos.


O Império representado por Luís Alves de Lima e Silva, o Barão de Caxias, estava propondo aceitar todos os termos impostos pelos revolucionários, exceto esse em questão. E como resolver o impasse? Será que aqueles guerreiros que deram seu sangue pelo Rio Grande seriam menosprezados e inutilizados pelos farrapos, ou estes manteriam sua palavra e sustentariam suas promessas?


Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, mas a fatídica madrugada do dia 14 de novembro de 1844 ficaria marcada para a história com uma mancha imensurável de sangue no Cerro dos Porongos, na antiga Cacimbinhas e atual Pinheiro Machado.


Naquele local acampavam as forças republicanas comandadas pelo comandante-em-chefe da República Rio-Grandense, David Canabarro. Na calada da noite, uma surpresa - ao menos para os lanceiros negros, que já repousavam, depois de terem as armas recolhidas pelos farrapos.


Um ataque maciço pelos dois flancos cercou os negros, que mesmo desarmados não fugiram de sua última peleja. A tropa invasora estava sob comando do general Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, já conhecido por suas investidas aos inimigos durante a noite e madrugada.


O massacre foi incontestável e estima-se que mais de 200 negros padeceram naquela carnificina. Por ocasião da sorte ou não, o líder farrapo David Cabanarro conseguiu fugir quando iniciou o ataque inimigo.


Mas por que os negros estavam desarmados? Qual a ligação do Tratado de Paz que viria a ser assinado menos de seis meses depois do episódio? Anos mais tarde, foi descoberta uma carta supostamente enviada pelo Barão de Caxias a Moringue, informando as exatas coordenadas que deveria atacar.


Teria Canabarro traído suas próprias tropas para acabar com a já frustrada guerra ou fora ele simplesmente surpreendido e vítima de injúrias por parte dos imperialistas? Enfim, a guerra estava perdida e restou aos republicanos aceitar os termos de rendição e retornar aos domínios do Império Brasileiro.


E quanto aos verdadeiros protagonistas, os negros? Pois bem, como diz o ditado, “a corda sempre arrebenta no lado mais fraco”. Estes voltaram a ser escravizados e, assim como os revolucionários que tinham verdadeiros ideais republicanos, engoliram com desprezo a amargosa assinatura do Tratado de Ponche Verde, em 1° de março de 1845, em Dom Pedrito.


Por ora, o sonho dos republicanos rio-grandenses foi cessado, mas o de liberdade aos negros apenas começava.


Redator: Tradição Regional



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