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27-06-2016

Especial JTR: Dentista canguçuense relembra dia do Golpe Militar no Brasil em 1964


Foto: Alex Pires Silveira viveu momentos difíceis no período da ditadura militar

O ano era 1964. O dia, 1º de abril. O Brasil sofria um golpe militar e, apesar da data, não era nenhuma brincadeira. Todo o país se viu afetado pelo o que ocorria, inclusive na Região Sul, como era o caso do estudante canguçuense do curso de Odontologia, ainda ligado à Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), Luiz Carlos Valente da Silveira. Ele, que era presidente do Diretório Acadêmico e tinha 21 anos, viu todas as articulações estudantis serem encerradas, já que mantinham um conhecimento da realidade do país. “Infelizmente, durante esse período, não tive condições de, dentro do Diretório, fazer um trabalho de articulação”, lamenta Silveira, que também trabalhava em uma emissora de rádio AM, onde perdeu a condição de noticiarista por não poder emitir suas opiniões.


Ele recorda perfeitamente daquele 1º de abril e relata que, por seu emprego no rádio, já conseguia perceber uma articulação para o golpe, mas que ainda não entendia o porquê da movimentação dos militares. Foi naquele dia que notou o que se estava vivendo era um estado de exceção. “Muitos brasileiros foram pegos de surpresa porque não havia um clima tão próprio para que houvesse um golpe militar. Nós sabíamos que nosso presidente estava tentando fazer reformas de base que nós, estudantes, achávamos interessantes, mas que não estavam de acordo com o que pensava o grande capital brasileiro e os militares”, conta.



O golpe foi responsável por grandes atribulações na vida do dentista, que precisou ficar recluso durante cerca de um mês em um local afastado da faculdade, em uma fazenda de amigos no interior de Canguçu que nem seus pais sabiam onde ficava. Após esse período, ele ficou sabendo que era possível retornar, mas que não poderia exercer nenhuma outra função que não fosse a de estudante. Os anos seguintes foram muito difíceis e incluíram o fechamento do Congresso e de tudo o que poderia levar à uma ideia de contragolpe, o que segundo Silveira não era o seu desejo. “Nós queríamos um país democrático, que pudesse ter suas instituições políticas em pleno funcionamento”. Isso, no entanto, não acontecia. O que havia era o cerceamento das liberdades individuais, e muitos de seus colegas foram presos ou acabaram fugindo do Brasil. Silveira só não foi preso, no dia do golpe, porque estava em Canguçu e, em uma das paradas ao retornar para Pelotas, um de seus amigos, sabendo que ele seria preso ao chegar na rodoviária pelotense, o tirou do ônibus e o levou de volta para Canguçu. Mas pelos próximos anos, os estudantes tiveram que se apresentar no quartel para confirmar que estavam estudando e trabalhando. Na rádio, as forças armadas se faziam presente através de um pelotão que ficava 24 horas no local para impedir que qualquer notícia que ferisse quem comandava a nação fosse dada. 


No dia 1º de maio do mesmo ano, eles fizeram um protesto, soltando foguetes na praça Coronel Pedro Osório em direção ao quartel general, em Pelotas. “Não houve represália porque não nos encontraram. Nós fizemos esse ato e fomos imediatamente para a Casa do Estudante, que era perto”, relembra. 


Segundo Silveira, muitas pessoas não perceberam o que estava ocorrendo no país. Em Canguçu, pessoas foram presas e até torturadas, e muitos habitantes nem sequer ficaram sabendo. Quando o então prefeito, Emir Squeff, foi cassado, a população ficou perplexa, sem entender o motivo da cassação após apenas sete meses de governo. Era um período de medo constante, onde sabia-se que a qualquer momento uma manifestação onde estivessem reunidos estudantes ou políticos poderia ter um espião que levaria as informações aos órgãos de repressão. Dentro da universidade, por exemplo, era comum que colegas fizessem isso. “Infelizmente, nessa época o nosso sistema de educação foi completamente desmontado. E ainda hoje temos sequelas do que ocorreu há 50 anos atrás. A educação sofreu muito porque foi desbaratada, e veio a aliança para o progresso, que colocou um tipo de educação que não era condizente com as nossas realidades”.


Corrupção


Uma das maiores reclamações do povo brasileiro atualmente é a corrupção que assola o país. Mas Silveira frisa que nos tempos da ditadura militar não era diferente. O que era diferente é que, enquanto o regime militar comandava o país, não se tomava conhecimento disso, ou então, não se podia denunciar. “O que hoje ocorre é que há corrupção, mas temos, dentro das nossas liberdades democráticas, oportunidades de denunciar e levar até a cadeia os que estão fazendo esses atos ilícitos”, explica ele, citando muitas obras que foram realizadas porque havia muito dinheiro sendo recebido, sobretudo dos Estados Unidos, o que aumentou a dívida externa. “Depois de muitos anos é que ficamos sabendo disso”. 


Por isso, o dentista se entristece ao ver, nos dias de hoje, políticos exaltarem a ditadura que havia no Brasil, já que limitações das liberdades dos indivíduos, sejam individuais ou coletivas, são atos contra a natureza humana. Ele crítica a atitude de um deputado que, durante a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, dedicou o voto a um torturador, pois não há nada pior que um país com exceções e limitações na liberdade de seus cidadãos. 


Regime cubano


Ele, no entanto, evita comparações com a ditadura cubana. De acordo com ele, Cuba viveu um momento extremamente difícil antes da revolução promovida por Che Guevara, onde havia um cerceamento de liberdades e o povo era escravizado.


Ele concorda que, com a revolução, as liberdades também sofreram, mas acredita que isso ocorria, principalmente, para os que antes oprimiam os cubanos. “Com o passar do tempo, muitos saíram de lá, mas se conseguiu que a população tivesse uma participação e uma melhoria de vida. Sabemos que a saúde é um exemplo mundial e que não há analfabetos em Cuba. E, agora, o país está se abrindo ao mundo. Foi um processo difícil, conheço porque já estive em Cuba, mas lá notei que havia entre o povo uma solidariedade, uma alegria muito grande, apesar da pobreza do país. Por isso, não creio que tenha sido a mesma coisa que aconteceu no nosso país. São dois fatos completamente diferentes”, argumenta. 


Golpe no Brasil


Questionado sobre as afirmações de que o Brasil vive hoje um golpe, Silveira diz não haver ambiente para isso. Mas ele afirma ser necessário melhorar o Congresso, onde ainda se observa que os que estão lá vão para tirar proveito próprio.


Por isso, os brasileiros devem pensar melhor nos candidatos em que irão votar. “Não vamos votar em quem não tem consciência política, nem consciência de brasilidade. Isso é um aprimoramento da nossa democracia. Não acredito em ambiente de golpe”, finaliza. 


Redator: Tradição Regional



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