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25-07-2016

Especial JTR: A resistência dos colonos na atividade rural: a pecuária leiteira na Fazenda Milech


Foto: Anahí Silveira/JTR Ildomar e Terezinha Milech resistem às adversidades permanecendo no campo com a atividade que mantém o sustento da pequena família

São cinco horas e o sol ainda não iluminou o dia. No entanto, a rotina diária em uma propriedade na Colônia Rincão da Caneleira, localidade de Morro Redondo, acaba de começar. É assim, entre ordenhas a cada 12 horas, limpeza após o serviço e a manutenção da lavoura, que Ildomar e sua esposa, Terezinha Milech, trabalham para manter a fonte de renda do casal, através da pecuária leiteira.


Tudo começou com a atividade da família de Ildomar, fazendo com que, desde criança, ele “se criasse tirando leite”. Há quatro anos, após o falecimento de seu pai, tornou-se associado da Cooperativa Sul-Rio-Grandense de Laticínios Ltda (Cosulati), assumindo todo o trabalho. Ele explica que, anteriormente, a produção era de pequeno volume, tomando maiores proporções nos últimos anos. “Éramos dois casais e era difícil dar certo na ordenha, na lavoura, em tudo. Eles tinham uma rotina e nós, outra. Então, passei a realizar trabalhos na feira e deixei eles à vontade”, explica Milech, referindo-se a relação entre ele, seus pais e sua esposa. Foram seis anos comercializando produtos nas feiras da cidade até assumir somente a leitaria, ampliando-a, e dedicando-se ainda à produção de milho, totalmente direcionada à ração animal. “Tudo aqui é só para o leite. A hora que o leite ‘fechar’ eu to falido”, brinca.



Atualmente, são 30 animais na Fazenda Milech - que de 32 hectares, conta com 17 deles em situação aproveitável -, sendo 22 vacas leiteiras Jersey e, destas, 16 em produtividade no momento. Em números, a produção, que já chegou a 530 litros por entrega, agora contabiliza uma média de 445 litros de leite. A entrega do leite ao caminhão da Cooperativa acontece a cada dois dias. Mas Milech lembra que a boa produtividade contrasta com momentos difíceis já enfrentados. “O mínimo, que foi de 320 litros por entrega, aconteceu quando tivemos um problema de tristeza das vacas”. O produtor morro-redondense refere-se à Tristeza Parasitária Bovina, que é o complexo de duas enfermidades causadas por agentes diferentes. Na prática, os parasitas vivem e se reproduzem dentro das células vermelhas do sangue (hemácias), destroem as mesmas a cada ciclo de multiplicação e, por isso, causam anemia intensa nos animais afetados. O tratamento é feito com drogas de efeito babesicida, anaplasmicida ou de ação dupla. “Eram 16 vacas com tristeza. Quando fazíamos o tratamento das primeiras vacas com a doença, outras duas começavam a adoecer”, relembra.


Novas tecnologias


Quanto às novas ideias, Milech se mostra acessível, entretanto, realista. “Possível de utilizar essas tecnologias é, mas faltam os recursos. Muita coisa já é feita, mas a gente só não faz mais por causa disso”, diz. Uma expressão popular no meio rural dá conta de que, para ser produtor de leite, é preciso de A.M.O.R.: Alimentação, Manejo, Organização e Raça. Ao ouvir, Milech concorda, mas pondera: “e gostar das vacas também, né?!”.


As dificuldades no campo


“O que eu senti mais é que as coisas começaram a mudar de preço e o leite não estava acompanhando. Então, começou a reduzir, apertar, apertar...”, conta, ao elencar as principais dificuldades no setor diante de um período de incertezas econômicas, sobretudo nos meses de março e abril deste ano. “Teve um mês que não pude nem fazer o ‘rancho’”. Naquele momento, a preocupação de Ildomar fazia completo sentido diante de um cenário ainda maior: em fevereiro de 2016, por exemplo, a produção de leite no Rio Grande do Sul caiu quase 6%, segundo dados da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP), e, para piorar, o preço do milho - componente da mistura que alimenta os animais - estava até 60% mais alto em relação a 2015.


Entretanto, segundo o site MilkPoint, a projeção é de que preços até R$ 1,30/litro pagos ao produtor sejam possíveis ao longo de 2016. “Nesse mês [julho], o preço do leite tem aumentado bastante, assim como a produtividade. O clima ajudou muito. Antes, eu não sei o que acontecia, mas o pasto não vinha nunca. Minha sorte é que eu tinha silagem”, diz.


Silagem é o produto oriundo da conservação de forragens úmidas (planta inteira) ou de grãos de cereais com alta umidade (grão úmido) através da fermentação em meio anaeróbico, ambiente isento de oxigênio, em locais denominados silos. Na alimentação de bovinos de leite e de corte, bubalinos e ovinos, a silagem de grãos úmidos, por ser uma alternativa de alimento com concentrado energético, complementando a silagem de planta inteira, resulta em uma dieta eficiente e de menor custo.


A produção leiteira gaúcha é a segunda maior do Brasil, perdendo apenas para a de Minas Gerais, e seguida muito de perto pela do Paraná. Reflexo disso é que, desde o ano 2000, a produção leiteira no Brasil cresceu 104%, um recorde entre todos os demais países.


Novidade no panorama gaúcho


No dia 24 de junho, o governador José Ivo Sartori assinou o decreto que regulamenta a Lei do Leite, criada, de forma pioneira no país, em conjunto com várias instituições que fazem parte da cadeia leiteira, desde o produtor até a indústria.


Com a nova lei, as indústrias ficam responsáveis pelo controle do leite a partir do momento em que o produto sai do produtor, até chegar ao consumidor.


As indústrias, os produtores , os transportadores e o governo têm 180 dias - desde a data de assinatura do decreto - para se adequarem à nova regra.


Transparência e qualidade na produção leiteira


Em maio deste ano, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) lançaram o Sistema de Monitoramento da Qualidade do Leite (SIMQL). O software permite gerenciar dados da rede brasileira de laboratórios e monitorar de forma ágil e transparente a qualidade do produto entregue pelos laticínios.


O SIMQL analisará os dados sobre a qualidade das amostras do leite que o produtor envia aos laboratórios da rede que compõem o Plano Nacional da Qualidade do Leite. A ferramenta desenvolvida pela Embrapa gerenciará um banco de dados que poderá ser acessado até de um celular, obtendo informações sobre a qualidade do leite por macro, ou microrregião, por cidade ou por produtor. Os dados estarão disponíveis para o governo, empresas, universidade, e centros de pesquisa, com os quais o setor leiteiro poderá elaborar políticas públicas e interagir com outros dados da produção de leite.


A permanência no campo


Com as duas filhas morando na zona urbana de Pelotas, Ildomar e Terezinha, apesar do grande apreço pela lida no campo, permaneceram na atividade rural por uma questão de sobrevivência. Quando questionado sobre qual a motivação em permanecer no setor leiteiro, mesmo com a baixa produtividade no momento em que seu pai ainda assumia a Fazenda, Milech enxerga a insistência como fator determinante. “A gente sabe que tem as contas para pagar, então tem que se virar. Não tinha escolha. Se mexeu com o banco, tem que pagar depois, e a única renda era o leite, então tinha que insistir, até conseguir”, afirma, mostrando-se esperançoso com o atual momento, dizendo enxergar a famosa “luz no fim do túnel” em função dos bons preços pagos pelo leite.


“É difícil, mas a gente tem que seguir”, diz Terezinha, sobre a realidade no campo.


Já Ildomar, que trata todos os assuntos com muito bom humor, revela que nem sempre é possível manter as boas energias. “Tenho bastante bom humor, não é pouco. Mas tem dias que ‘o cara’ fica bem aborrecido, e como fica, mas vamos levando... A esperança sempre é a de que vai melhorar”.


Cooperativismo


Visto como uma estratégia para o desenvolvimento do setor leiteiro, o cooperativismo reflete a união entre pessoas para que o futuro da produção seja garantido com bons resultados. Assistência técnica, acesso a mercados, redes de coleta, qualificação profissional. São vários os eixos no sistema das cooperativas e Milech destaca sua condição de associado à Cosulati com os devidos receios de uma época crítica para a economia nacional e mundial. “Às vezes, a gente fica preocupado porque com essa crise não se sabe do futuro. Vontade eu fico é de investir mais, mas e se chega a ‘dar zebra’?”, diz, completando: “mas é aquela coisa, se a colônia anda bem, tudo funciona bem. Se a colônia anda mal, cada vez piora”.


O produtor explica que outra forma de incentivo está no cultivo de pastagens perenes para o gado leiteiro, impulsionado pela Emater. A produção de leite à base de pastagens já vem sendo preconizada pela empresa há bastante tempo, pois, segundo técnicos, garante um menor custo de produção, maior tempo de utilização das pastagens e maior suporte de animais por área. Agora, Milech aguarda ser contemplado com a aplicabilidade da técnica, através da liberação de financiamento do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais (Feaper).


O que é ser colono?


“Olha, ser colono é um orgulho que a gente tem de ser. Desde criança sempre fomos colonos. Precisava ter mais incentivo só, mas... Pelo menos, se não fosse o colono, os da cidade também não viviam, né?!” - Ildomar Milech


Redator: Tradição Regional



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