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25-07-2016

Especial JTR: “Acho que é uma coisa que tá no sangue”: o amor pelo caminhão que passou de pai para filho


Foto: Arquivo/Aquarela Tintas Jesus dirige o caminhão da Aquarela Tintas há 26 anos

“Veio do pai para o meu irmão, depois para mim. (...) Um vai ensinando o outro, daí tu já pega o gostinho da estrada e depois já vai”. O orgulho da profissão passada do pai para os filhos fica evidente na alegria com que Jesus Almeida Tedesco fala dos quase 40 anos como motorista. Desses 40, 26 dirigindo o caminhão da empresa Aquarela Tintas, em Pelotas. “Seu” Jesus também trabalhou na extinta Transporte Santa Rita, levando lã e pele de animais, e já dirigiu uma ambulância. “Agora, eu já não viajo mais para longe, fico só por aqui... mas já fui para São Paulo e Mato Grosso do Sul quando carregava pele”, lembra ele, com 59 anos e já planejando a aposentadoria. Mesmo com os planos de se aposentar, não quer deixar de dirigir o caminhão, que é seu companheiro há tantos anos: “eu gosto, é a minha profissão”.


“Quando eu era menor [de idade] trabalhei como estafeta, que agora é officeboy, né? Depois que saí do exército, tirei a carteira, fiz uns bicos e depois peguei na ambulância Padre Chagas, de noite”, conta, relembrando os oito anos em que transportou e socorreu vítimas. Junto com um ajudante, o motorista buscava pacientes de planos de saúde em casa e levava até os hospitais para alguns tratamentos, e só saiu do emprego porque exigiram curso de enfermagem. “Eu andava de sirene ligada e tudo! Se eu tivesse curso de enfermagem tinha ficado lá. Eu gostava, tu vive quase o tempo todo dentro do hospital, saía para um lado, saía para o outro, eu gostava muito, ali tava salvando gente”. Ainda fez um paralelo com a profissão de enfermeiro: “é que nem alguém que ‘tira’ enfermagem, faz porque gosta. Não se importa de trabalhar”.



Das longas viagens carregando pele de animais até aqui, Jesus já viu muita coisa pela estrada, e já passou por muita coisa também. Mesmo que nunca tenha sofrido acidentes graves na estrada, já teve o caminhão “jogado” para fora da BR por outro, ao desviar de uma tobata (uma espécie de pequeno trator). No final de uma ponte, o outro caminhão cruzou seu caminho e o deixou no acostamento. “Aquela lá foi por pouco, arrebentou pneu (...) se tivesse sido em cima da ponte eu tinha caído”.


A vida nas estradas lhe rendeu muitos conhecimentos sobre as máquinas que dirige e seu funcionamento: cronotacógrafos (aparelho que marca velocidade em caminhões para averiguação futura), modelos, carteira de motoristas, troca e manutenção das peças. Felizmente, além desses conhecimentos necessários, a prudência sempre foi uma grande qualidade do motorista. “Arrebentar, furar pneu, sempre acontece. Se estoura um pneu tem que cuidar para o caminhão não tombar, assim ó”, contou, gesticulando os movimentos que precisava fazer com o volante cada vez que isso acontecia.


Mesmo que os trajetos de Jesus pela estrada tenham sido até, no máximo, Porto Alegre, o veterano se preocupa com o uso de drogas e a imprudência no volante. O uso indiscriminado do “rebite” - droga sintética que inibe o sono -, segundo ele, é frequente e assustador entre os motoristas. “Aquilo ali é uma droga, eu já vi caras que vem dirigindo que nem uma múmia, nem piscam; a fisionomia muda, até o guarda rodoviário já sabe. Imagina, tem cara que dirige 20 horas sem parar”, conta.


Longe das cargas pesadas e das grandes viagens, Jesus agora transporta apenas as tintas da loja e garante que não ultrapassa o limite máximo permitido para os produtos inflamáveis. “Eu agora fico só nos oitentinha”, brinca.


Redator: Tradição Regional



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