Quarta, 24 de junho de 2026, 07:01h
Home Variedades
Utilizar o serviço de um táxi na vida moderna urbana como forma de transporte pode ser uma prática natural e que, inclusive, “passa batido”. É acenar - ou solicitar o serviço através de um aplicativo do celular -, o carro para, informa-se o destino, o caminho se desenrola - às vezes com silêncio, outras com conversa e música ao fundo -, chega o destino final, pagamento é feito, fim de papo.
No entanto, muitos pelotenses, ao abrirem a porta do táxi de número 229, sem saber quem o conduz, costumam admirar-se. Isso porque ali no volante está a motorista, Valdete Rosa, carinhosamente chamada de “Val”. Ao analisar os perfis dos taxistas pelo Brasil inteiro, as mulheres são minoria. Mesmo que a entrada nesse mercado tenha crescido 162% nos últimos cinco anos, em São Paulo, por exemplo, apenas 5% dos táxis são dirigidos por mulheres, conforme os dados da Associação das Empresas de Táxis de Frota do Município de São Paulo (Adetax) e do Departamento de Transportes Públicos (DTP).
Conforme o Sindicato dos Taxistas e Transportadores Autônomos de Passageiros de Pelotas, a cidade conta hoje com 334 placas/táxis rodando pelas ruas, conduzidos por cerca de mil profissionais, entre proprietários e auxiliares. Enildo Rediess, diretor financeiro do Sindicato, explica que nessa soma não entram ainda os folguistas, que atuam aos finais de semana, por exemplo, para cobrir os horários. O Sindicato dos Taxistas de Pelotas, inclusive, é presidido por uma mulher. Tânia Pinto está à frente do órgão.
No entanto, nada de folguistas, auxiliares e demais atores. Val é protagonista de sua própria história. Criada em uma família onde seu pai era taxista, ela afirma que a profissão dele nada teve a ver com os seus caminhos. A pelotense, de 42 anos, que trabalhava como vigilante no Aeroporto Internacional de Pelotas, enfrentou o desemprego até ser levada, por acaso, a uma nova empreitada. Quando estava em busca de uma vaga de emprego para o esposo, foi surpreendida por um convite para que ela mesma assumisse o cargo de taxista.
Depois de passar no teste, Val foi chamada e passou a atuar, embora que por poucos meses, como taxista em um ponto no bairro Cohab Tablada. “Fui cheia de medo e consegui desenvolver um bom trabalho”, conta, relembrando sempre com carinho do colega que realizou o inesperado convite e fez com que ela descobrisse a profissão “do coração”.
Não demorou muito para que Val então comprasse o próprio carro, protagonizando a própria história de fato. Quando isso aconteceu, há um ano, ela trabalhava sozinha, mas agora conta com a divisão das horas de trabalho - e de funções como cuidar dos três filhos - com o esposo.
No táxi 24 horas, ela explica que as segundas, terças e quartas-feiras são os dias mais calmos, fazendo com que as quintas, sextas-feiras, sábados e domingos sejam os dias com rotinas intensas de corridas. Esporadicamente, ela se mantém também no ponto localizado na rua Lobo da Costa, no Centro da cidade. “Eu sou apaixonada por isso. Já fiquei 20 horas dirigindo direto. Agora, o Luiz [esposo] está me ajudando”, diz.
A delicadeza nos cuidados com os clientes e o bom humor, entretanto, dividem espaço com a postura mais firme, que entra em cena nas corridas noturnas. “Na noite eu mudo, assumo outra postura do que eu sou no dia a dia, bem mais ogra”, conta, dizendo nunca ter passado por situações de perigo.
Apesar das longas horas dirigindo no final de semana - a agenda de Val “bomba” junto com a agenda de eventos da cidade, já que seu público é majoritariamente jovem -, Val adota a postura zen no trânsito. No dia da reportagem, a equipe do Jornal Tradição Regional passou uma tarde inteira “dirigindo” com ela e, de fato, é como se o caso do trânsito lá fora nem existisse. “Eu sou meio zen. Tento entender o lado das pessoas, se elas estão estressadas, em um dia ruim, isso vai passar depois. Eu rio muito, sou podre de palhaça. Pode entrar [no carro] a pessoa mais estressada do mundo, eu aguento todo o estresse dela, e depois de deixar no destino, eu penso ‘ah, deixa ela, daqui a pouco ela melhora’, para aquilo não me atingir”, brinca, dizendo que, na verdade, o único “inimigo” na rotina é a exaustão física, quando as pernas adormecem pedindo descanso.
Sobre as corridas numerosas dos fins de semana, ela explica a certa forma de metodologia: de um lugar ao outro, ela leva as pessoas aos seus destinos para, em determinado momento da madrugada, buscá-las onde as deixou e levá-las novamente para as suas casas. Além disso, são estudantes que vão para suas universidades, profissionais que vão para suas empresas de trabalho, dentre outras rotinas que Val acompanha exercendo a profissão. “Eu não chamo essas pessoas de passageiros. Chamo de clientes porque são aqueles [clientes] só meus, que me mandam um ‘Whatsapp’ e já sabem que no horário que precisam eu vou estar lá”, define ela.
“É um trabalho gratificante”, afirma Val, que por falar em relacionamento com clientes, foi capaz de construir uma rede de clientela que não faz apenas uma “viagem ao destino” no carro. No Táxi da Val, as mulheres sentem-se seguras, os momentos que antecedem as festas tornam-se motivo de registros no aplicativo Snapchat por parte das clientes ao lado da taxista, que é lembrada com extremo carinho por suas “passageirinhas”, como Val costuma chamá-las, seja pela identificação causada pela representatividade feminina, seja pelo profissionalismo, bom humor e carinho com que Val costuma atuar.
Em meio às corridas de uma tarde chuvosa, Val foi buscar uma de suas “passageirinhas” fixas em casa para levá-la até a rodoviária. Era Lara Bernardi Mesquita, estudante que estava aproveitando as férias da faculdade para retornar à cidade natal, Bagé. Ela conta a experiência especial que é ser conduzida por uma mulher. “Tu fica mais com pé atrás quando o motorista é um homem, não adianta. Dá uma segurança por ser uma mulher e é ainda melhor por causa da simpatia da Val, né?!”, relata. Lara, que conheceu a profissional na saída de um shopping, por acaso, primeiro surpreendeu-se para depois tornar-se uma cliente fixa, que inclusive exibe o adesivo da taxista colado em sua carteira. “Nem em Bagé eu tinha visto uma taxista. Há oito meses em Pelotas foi a primeira vez que vi”, conta Lara.
Para solicitar uma corrida da Val, opções não faltam: seja no ponto da Lobo da Costa, por ligação no celular ou então através de uma simples mensagem no Whatsapp, o chamado será atendido. Ela visualiza o uso do aplicativo como um ponto positivo, facilitando a vida daqueles que possuem rotinas agitadas, como também daqueles que são de outras localidades.
Quando uma chamada é feita, a taxista logo pergunta o destino para fornecer com exatidão o tempo de espera e que será fielmente cumprido. Para dirigir por toda cidade como faz diariamente, Val conta com um grande auxiliar de bordo: o GPS.
“Vou morrer taxista” é o que ela responde quando questionada por quanto tempo pretende seguir a profissão. Sobre o significado de ser motorista, mais especificamente taxista, Val não precisa de muito tempo para formular a resposta: “O maior retorno é deixar as pessoas em casa com segurança”.
Prova do reconhecimento pelo trabalho diferenciado que executa, são as frases ouvidas entre um passageiro e outro, coisas como “Tu é a Val? Tu é muito famosa”. A frase não é exagero. Em uma publicação no Facebook, especificamente em um grupo direcionado para mulheres de Pelotas, o trabalho como taxista de Val foi divulgado por uma internauta, em uma época onde muitos relatos de desconforto, medo e constrangimento estavam sendo publicados por parte de jovens que sentiam-se inseguras com os serviços de alguns taxistas homens. A publicação sobre a taxista Val alcançou mais de 400 curtidas e comentários reconfortantes de mulheres ao surpreenderem-se positivamente com a indicação do serviço. Ao acompanhar as reações na internet, Val quase não acreditou. “Nunca pensei que meu trabalho fosse ser reconhecido assim. Isso é muito diferente, a gente ser necessária, isso não tem preço. Fiquei apavorada e demorei alguns dias para responder”.
Sobre a autonomia do trabalho como taxista, Val é consciente dos benefícios e dos riscos iminentes. “Não me imagino trancada trabalhando em outro lugar. Aqui, tenho total autonomia dos meus horários e autocontrole para não ficar o tempo todo trabalhando”, afirma.
Da sincera felicidade em deixar as “passageirinhas” em casa, até a ênfase no bom humor que faz com que leve até seus destinos finais “pessoas de todas as classes sociais”, Val deixa a lição para as mulheres brasileiras, motoristas ou não, que a atividade dos sonhos pode aparecer a qualquer momento e que protagonizar a própria história pode ser possível, o primeiro passo talvez seja ter coragem para começar.
O Táxi da Val conta com Wi-Fi, aceita cartões de crédito e para solicitar uma corrida basta entrar em contato pelos números (53) 9981-1112 ou 8436-1478 (Whatsapp).
Redator: Tradição Regional
Fechar X
Fechar X
Av. Imperador Dom Pedro I, 1886, sala 1 - Bairro Fragata - CEP: 96030-350 - Pelotas/RS
E-mail: [email protected] / Telefone: (53) 3281 1514
© Todos os direitos reservados