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Quem passa hoje por São Lourenço do Sul ainda vê algumas marcas físicas do dia 10 de março de 2011. Marcas estruturais visíveis, expostas. Vê também a reconstrução sendo moldada por todos os lados, com ruas reconstruídas, a Praia da Barrinha sendo recuperada com projeções de melhora em sua estrutura à beira da Lagoa dos Patos. Vê também 20 pontes do interior tomando forma e sendo construídas novamente, desta vez, todas de concreto. Unidades habitacionais estão sendo reformadas e o Camping Municipal será revitalizado. São Lourenço, depois da maior enxurrada que se tem conhecimento na história do município, mostrou que pode receber turistas e que a economia da cidade está superando as dificuldades do ano passado. Em fevereiro a vinda de pessoas de outras cidades para desfrutarem as praias de água salgada de São Lourenço superaram as expectativas ansiosas de moradores e comerciantes.
São Lourenço mudou. A cidade e as pessoas. A enxurrada de março de 2011 é hoje lembrada com tristeza, mas com a certeza de que o povo é solidário e fez com que a ajuda e o carinho fossem maiores que o medo e as adversidades que vieram. “Dói ver minha história ir com a água, mas o que me reconforta é este sentimento gostoso de que as pessoas se preocuparam em ajudar como podiam. Praticamente tudo que tenho agora me foi doado. Essa preocupação com todos era muito boa”, disse Ana Luiza Pereira Silveira, que mora próximo ao Arroio São Lourenço e que já havia enfrentado algumas enchentes, nenhuma tão violenta quanto a de março de 2011. Ana estava construindo uma casa mais alta, ao lado da sua, para que a família não sofresse mais com as enchentes. No dia 10 de março, ela ouviu durante a madrugada algumas vozes e um som. Levantou-se e resolveu se deitar novamente, quando voltou a ouvir o carro de som, desta vez mais perto, avisando que todos pegassem seus documentos e saíssem de suas casas. “Achei que colocando meus pertences de maior valor na casa em que estava construindo conseguiríamos salvar muita coisa, mas a água subiu muito rápido, e a correnteza ficou muito forte”, disse Ana. Ela, o marido e a filha tentaram sair pelo telhado da casa, mas foram resgatados pelo irmão que se amarou na casinha de boneca da filha de Ana, que havia virado de cabeça para baixo e conseguiu colocá-los num local mais alto.
O bote com os salva-vidas chegou de manhãzinha, e o trajeto até uma área seca demorou cerca de 40 minutos. Foram duas semanas de limpeza para conseguirem voltar à casa. Segundo Ana Luiza, muitas pessoas passavam e entregavam água, cobertas, comida, e até ração para os cachorros. “Algumas doações que eu recebia, repassava a pessoas que também estavam precisando e isso me deixava mais reconfortada. Alguns dias depois de toda situação, me sentei e pensei que tínhamos conseguido vencer, que estávamos todos bem. Hoje posso dizer que apesar de apreensiva, estou bem”, falou Ana, que aos poucos está comprando alguns utensílios e aparelhos que faltam para sua casa.
Outros, que de outras formas também foram atingidos pela enxurrada, ajudaram a resgatar inúmeras pessoas por toda cidade. Sérgio Szomorovszky é uma dessas pessoas. Com seu barco e alguns tripulantes, sua equipe, como ele mesmo disse, saíram pelo centro da cidade e resgataram pessoas dentro de casas, pessoas que não queriam deixar o lugar onde estavam, por medo ou apreensão. Algumas das pessoas resgatadas por Sérgio ficaram algumas horas em sua casa, onde também entrou um pouco de água, até que a água baixasse e elas pudessem ser atendidas pelas ambulâncias que estavam em outras partes da cidade. “As pessoas que estavam em cima das casas, nos telhados, pediam água, e nós fomos buscar água para elas. Todos ajudavam, enquanto resgatávamos as pessoas, outras as retiravam do barco e as deixavam seguras e outras ainda viravam o barco para retirar a água que ficava dentro para que pudéssemos voltar e procurarmos mais gente” relembra Sérgio. O barco, que tinha espaço para quatro pessoas, comportou no dia 10 de março de 2011 até 11 pessoas por vez. “Cada um ajudava como podia, um homem serviu de guia para me dizer onde tinham pessoas dentro das casas, outro deu seu lugar no barco para um casal de idosos e saiu nadando, mesmo com toda correnteza. Com toda a destruição, surgiu também uma maior harmonia entre todos da cidade”, disse Sérgio, que na noite do mesmo dia foi até à barragem com pessoas da manutenção, ficando por lá até de madrugada. Sete pessoas morreram na enxurrada e mais de 100 pessoas foram resgatadas de helicóptero naquele dia.
Cada um que estava na cidade naquele dia tem uma história para contar, mas todas tem em comum a superação e a felicidade de ter com quem contar. Um ano após todo caos e tristeza, São Lourenço recebe das mesmas águas que machucaram, o alento da Lagoa dos Patos com água salgada, límpida e transparente, fazendo com que fosse lembrada por suas belezas naturais, reconhecidas nacionalmente, e também, pelo reconhecimento de que através de uma comunidade e com seu empenho, a superação fala mais alto.
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