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10-03-2017

Dia (e semana) de luta em Pelotas


Foto: Liana Coll/ADUFPEL Uma caminhada até o INSS da cidade foi um dos pontos altos das atividades do dia 8

O plenário da Câmara de Vereadores de Pelotas ficou lotado durante o Dia Internacional da Mulher, na quarta-feira (8). Na ocasião, através de uma audiência pública, foi lançada a Frente Parlamentar em Defesa do Direito da Mulher, e debatidas pautas que integram as lutas diárias das mulheres pelotenses.


A vereadora Daiane Dias foi quem comandou a bancada, acompanhada das companheiras de casa Fernanda Miranda, Cristina Oliveira e Zilda Bürkle, também participantes da Frente que irá buscar a ampliação de políticas públicas em prol das mulheres no município. Em sua fala, Fernanda Miranda se emocionou e destacou o real significado do dia 8 de março. “Data para lembrar das nossas lutas, de tantas mulheres que morreram para que tivéssemos os direitos que temos hoje. Não é uma data de homenagens, é uma data que marca uma luta, são 100 anos da Revolução Russa, marcada pelos movimentos das mulheres trabalhadoras”, disse.



Já Cristina Oliveira disse que estava muito feliz, e que o dia também era de comemoração. “A gente diz que é um dia de luta e sempre será um dia de luta. Mas hoje é um dia feliz, pois podemos comemorar a nossa vitória de poder ter lançado a Frente Parlamentar. E é um privilégio e uma honra muito grande pra gente poder representar todas as mulheres da nossa cidade”.


A vereadora Zilda Bürkle destacou a união das mulheres. “Eu diria inicialmente, que hoje é um dia muito feliz. Me sinto lisonjeada ao ver esse plenário repleto de tantas mulheres guerreiras e todas representando as suas comunidades”. 


Por fim, Daiane Dias falou sobre sua luta, por mais mulheres dentro da Câmara de Vereadores “Porque nós mulheres tínhamos que ter nosso espaço, nós mulheres, tínhamos que ter voz e vez, ninguém melhor que uma mulher pra saber e conhecer das nossas deficiências, dificuldades, lutas e anseios diários”. Hoje, quatro mulheres compõem pela primeira vez a bancada da Câmara do município, composta por mais 17 vereadores. 


A prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas, foi representada pela secretária de Governo, Clotilde Victória, que enfatizou: “Dia 8 de março é dia de reflexão sobre os direitos da mulher”.


A audiência pública teve continuidade a partir da participação de convidadas das parlamentares que falaram sobre violência contra a mulher, saúde da mulher, a mulher no campo, a mulher negra, a busca por direitos iguais e leis trabalhistas mais justas, entre outros assuntos. O microfone também foi aberto para aquelas que desejassem participar e expor suas reivindicações.


A reforma da Previdência Social


Dentre todas as falas, uma costumava se repetir: as causas trabalhistas das mulheres. O principal destaque da audiência foi sobre a reforma da Presidência Social, proposta pelo governo do presidente Michel Temer. Grande parte das mulheres presentes acredita que o projeto é uma regressão a todos direitos trabalhistas conquistados até os dias de hoje. “Contra o desmonte de políticas conquistadas, contra a reforma da Previdência, que precariza cada vez mais o trabalho das mulheres. Que mata a esperança da empregada doméstica que há pouco tempo teve reconhecimento como trabalhadora”, enfatizou Fernanda.


Com a reforma, mulheres teriam de possuir o mesmo tempo de contribuição, em anos, que os homens, trabalhando assim cinco anos a mais do que na atual conjunção da Previdência. O principal problema disso, destacado por boa parte das parlamentares, convidadas e mulheres presentes, é que a maior parte das mulheres, hoje, vive duplas ou triplas jornadas de trabalho, cuidando da casa, das crianças e em empresas.


Zilda destacou a busca por direitos mais justos para as trabalhadoras rurais, que atualmente vivem, muitas vezes, uma tripla jornada. “A mulher agricultora tem múltiplas atividades. Além de cuidar da casa, dos filhos, nós temos uma grande participação no trabalho árduo no campo dos nossos maridos. Os direitos das mulheres do campo precisam ser atendidos”, afirmou.


A votação do novo texto para a Previdência deve ser passar pela Câmara dos Deputados até abril. No final da audiência, as mulheres caminharam até a frente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) de Pelotas para protestar.


As homenageadas*


Os demais parlamentares puderam homenagear mulheres pelotenses, através do prêmio Mulher Doce Guerreira, criado pelo vereador Marcos Ferreira. Confira a lista de homenageadas:


Elisete Augusto de Angelis, pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular;


Daniela Brizolara, sambista, cantora, locutora e educadora musical, graduada em Artes com habilitação em Música pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), presidente do Conselho Municipal de Cultura e vice-presidente da Escola de Samba Academia do Samba;


Cleuza Maria Gonçalves, contadora, professora, atuante na educação e profissionalização de jovens, ligada às Pastorais da Diocese de Pelotas;


Suelen Cardoso Barreto, fundadora do projeto esportivo Mulekada, onde atende mais de 80 crianças nos bairros Fátima e Navegantes;


Ana Ilca Saalfeld, juíza titular da 4ª Vara do Trabalho, professora universitária e criadora do Brechó Jurídico, onde a renda é revertida às instituições beneficentes de Pelotas;


Kelly dos Santos Soares, assessora parlamentar e estudante de Fisioterapia;


Maria Helena Lubke Jeske, empresária e administradora de empresa;


Bruna Costa da Silva, modelista de costura, acadêmica de Administração e defensora dos animais;


Maria Inês Pepe, conhecida por fazer parte de diversas ações solidárias, como o “Sopão de Rua Sete de Setembro”, que ocorre há mais de 15 anos;


Dalvina Siqueira, da Colônia Posto Branco, que participou de várias conquistas e benefícios para a comunidade da Colônia;


Angela Blaas Raffi, que, junto ao seu esposo e filhos, acreditou na cultura da uva no interior da cidade de Pelotas;


Marli Matias, com mais 30 de anos de vida esportiva, já participou de oito edições da Corrida de São Silvestre. Vencedora de vários títulos em sua modalidade representando Pelotas atualmente na luta contra uma doença que lhe tirou os movimentos das pernas;


Rosana Soares, escritora e tem seu trabalho divulgado no site Recanto das Letras. É idealizadora do projeto de literatura artesanal e de ações voluntárias com crianças e adolescentes na cidade;


Clotilde Vitória, formada em Pedagogia, pós-graduada em Orientação Educacional e mestre em Psicopedagogia, ex-diretora da Secretaria de Cultura e atual secretária de Governo;


Míria Rogélia, atual presidente em exercício da Associação de Aquicultores do RS;


Maria Terezinha Lemos Martins, a Tia Tê, fundadora do Centro Espírita Irmão Marcello;


Daiane dos Reis Mendes, presidente da Associação de Amigos, Mães e Pais de Autistas e Relacionados (AMPARHO);


Mara Meireles, funcionária pública municipal, onde presta serviços à comunidade pelotense;


Gisele Moraes Rodrigues, carnavalesca, presidente da Escola de Samba Mirim do Mickey, destaque pela atuação à frente das ações populares promovidas pela entidade a qual representa;


Rosemeri das Neves dos Santos, vice-presidente do Sindicato dos Servidores Municipais do Saneamento Básico de Pelotas, ligada a diversos movimentos sociais.


*Com informações da Assessoria de Imprensa


O dia delas, por elas


“Esse 8 de março tem uma característica um pouco diferente dos outros. Ele está sendo chamado internacionalmente como uma greve geral para pautar até mesmo o modo de produção da sociedade. Então, ele é uma pauta anticapitalista, além de feminista. Pois entendemos que o sistema como está formado contribui para que a operação às mulheres continue. E acho que, mais do que nada, em Pelotas pensar a cultura machista, onde nas escolas a gente não tem políticas municipais para desconstruir isso. Enfim, a gente tem diversos casos de agressão a mulher, estupros, é muito comum, infelizmente, a gente ver notícias de filhos que batem nas mães e isso tudo é uma responsabilidade do município de fazer políticas públicas, ou ter algumas ações que ajudem a desconstruir essa cultura”. Maiara Marinho, estudante de Jornalismo da UFPel


“O dia 8 de março pra nós, mulheres, historicamente é construído como um dia de luta, para mulheres que são de organizações sociais, sindicatos e movimentos estudantis. E esse ano a gente vem sofrendo com ataques do governo, que vem com uma série de ataques contra nós, mulheres e juventude. Nesse 8 de março, a gente está lutando contra a pauta da reforma da Previdência, que retira muitos direitos já conquistados no decorrer da luta das mulheres nessas últimas décadas, que é igualar o tempo de aposentadoria de 65 anos para homens e mulheres, e com 25 anos de contribuição ao INSS, que antes era de 15 anos. Então, a nossa pauta nacionalmente é ser contra a reforma da Previdência. Sou militante pelo 8 de março e pela vida das mulheres”. Samara Christ, militante do Levante Popular da Juventude


“No dia de hoje, dia das mulheres, apesar que a gente ache que isso tenha que ser pautado todos os dias, temos duas pautas primordiais: violência contra a mulher, desde a violência física, até a violência do lar, onde não se reconhece o trabalho da mãe, da mulher, da companheira, e a reforma da Presidência. Apesar de afetar toda a população brasileira, a reforma afeta muito a mulher, que perde cinco anos do seu tempo de aposentadoria, que já era concedido por compreender que as mulheres fazem um terceiro turno, mesmo que não esteja escrito em lugar algum. Mas se a gente entender que a mãe carrega um filho, e se sente responsável por prover e cuidar daquele ser, então acaba trabalhando mais horas que um homem. Também se olharmos na iniciativa privada, onde a mulher recebe menos que o homem, ela deveria ter um turno reduzido, ou um número menor de anos de trabalho para fazer a compensação. Isso é extremamente desumano com a condição de ser humano que vivemos. Isso tudo então é um conjunto, a violência contra a mulher, e as reformas, que não devem ser combatidas só no 8 de março, mas durante todos os dias”. Maria Tereza Tavares Fujii, coordenadora geral do Sindicato dos Servidores da Universidade Federal de Pelotas (AsufPel).


“Eu acho que uma das pautas que tem que ser destacada e que precisa ser revista é a violência que acontece contra a mulher, e que vemos o agressor sendo solto. E isso é bem decepcionante para as mulheres que já sofreram agressão. Logo, precisamos rever as leis e deve ser pautado sempre”. Denise, coordenadora da Casa Luciete - Mulheres Vítimas de Violência.


Violência contra a mulher*


- Pelotas é a 4ª cidade do RS com mais registros de lesões corporais contra a mulher


- O município encontra-se em 11º lugar referente ao número de mulheres que sofreram estupro em 2016


- A Princesa do Sul é a 8ª cidade no hanking com mais crimes de feminicídios no Rio Grande do Sul


*Dados do relatório de 2016 da Secretaria Pública do Estado


Denuncie


Delegacia da Mulher: (53) 3225 6888 - (53) 3225 8702


Brigada Militar: 190


Polícia Civil: 197


Redator: Tradição Regional



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