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24-03-2017

Especial JTR: Defensores seguem incansáveis na busca pela preservação da memória arroio-grandense


Foto: Luciara Schneid/JTR Luta pela restauração do prédio da primeira Câmara Municipal deu origem ao grupo

A memória e a história de Arroio Grande possui defensores obstinados, que mais do que resgatar o passado do município, quer mantê-lo vivo nos corações e nas mentes dos arroio-grandenses. Trata-se do Grupo Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande, formado em 2013, a partir de mobilização pelo Facebook e que segue firme no seu objetivo de despertar na comunidade da terra de Irineu Evangelista de Sousa, o “Barão de Mauá”, a importância de resgatar e manter o patrimônio histórico do município. “É conhecendo os problemas do passado que vamos achar as soluções para o presente e o futuro”, ressalta uma das criadoras do grupo, a bacharel em Letras, Carla Silveira Machado.


Seu nome, inevitavelmente já está registrado na história, pela iniciativa, juntamente com o do advogado e historiador Sérgio Silveira Canhada, do fazendeiro José Paulo Ramos da Silveira, da professora de Artes Eliana Carvalho Lúcio e do bacharel em Geografia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Antônio Augusto Franco, e de inúmeros outros arroio-grandenses cuja imagem na cidade não há mais como dissociar dos Defensores.



Há um ano surgiu a ideia, ainda em maturação, de transformar o grupo em uma associação, a fim de obter o status de organização não-governamental (ONG), pois a causa pelo que luta não é apenas virtual, dizem. “Buscamos fomentar a discussão, o despertar da população, a popularização da história e as nossas publicações têm esta intenção”, dizem. O grupo mexe com emoções, interagindo, manifestando opiniões, ressaltam.


Mais do que buscar a preservação da memória material está o resgate da memória imaterial, dos fatos históricos, que muitas vezes não são considerados verdadeiros por falta de registro oficial ou se perdem entre papéis amarelados pelo tempo e esquecidos em alguma gaveta. “Não existe um livro sobre a história, fundação, trajetória, acontecimentos e, principalmente, sobre a importância de Arroio Grande na Revolução Farroupilha”, dizem os Defensores. Segundo eles, a remontagem da história do município requer muitas pesquisas e eles são incansáveis na busca por estas referências.


Em pesquisa no Arquivo Histórico Nacional, Carla obteve referências de Manoel de Souza Gusmão e da esposa Laureana Maria da Silveira, que foram os primeiros a chegar, se estabelecer em terras de parentes e pedir a concessão de uma sesmaria. Em 1803, o núcleo habitacional de Arroio Grande já é citado com um arroio de água boa e de pastagem para os cavalos. Eles afirmam que o município era uma referência farroupilha para o descanso dos cavalos e aquisição de alimentos. “São fatos que precisam ser registrados, pois Arroio Grande precisa resgatar a sua importância durante a Revolução Farroupilha”.


Um fato que pode ser decisivo para isso é a comprovação de que Joaquim Teixeira Nunes foi sepultado no município. Um registro de 26 de novembro de 1844, pesquisado pelo Grupo, diz que ele foi sepultado com mais três combatentes no Largo da Capela Curada de Nossa da Graça. “Naquela época, as pessoas eram registradas e sepultadas na Igreja”, ressaltam.


Joaquim Teixeira foi militar e revolucionário brasileiro, conhecido, durante a Revolução Farroupilha, como o Gavião. Foi o segundo comandante do Corpo de Lanceiros Negros, constituído de escravos libertos. Era considerado o maior lanceiro de sua época. Era também reconhecido como líder abolicionista e defensor dos direitos dos negros.


No Massacre dos Porongos, seus lanceiros negros teriam sido traídos e mortos. Foi derrotado e ferido no Arroio Chasqueiro, na Batalha de Arroio Grande, em 26 de novembro de 1844, último combate farroupilha em território riograndense. Impossibilitado de defender-se após ter o seu cavalo derrubado com boleadeiras, foi lancetado pelo alferes Manduca Rodrigues, que lutava pelos imperiais comandados pelo Moringue, e degolado por Eliseu de Freitas. 


A interatividade entre os Defensores, apesar de estar muito atrelada à rede social, por vezes sai do virtual e sempre que possível se reúnem para idealizar ações e traçar um objetivo, como foi o caso desta entrevista, na casa de Carla e que contou com a presença de Antônio Augusto Franco e do médico veterinário e agropecuarista, Pedro Peres Mendes. A meta mais recente é a recuperação do prédio localizado na esquina das ruas Marechal Floriano e Doutor Monteiro (foto). A casa construída em 1889, pertenceu ao coronel Francisco de Paula Alves, um dos mais importantes líderes dos movimentos anti-escravagista e republicano de Arroio Grande.


Com idades e ofícios diferentes, os Defensores são movidos pela convicção sobre a importância de resgatar esta memória e mais do que isso, mantê-la viva. Cansados de assistir passivamente à ruína de um patrimônio histórico erguido ao longo de mais de 200 anos de história, a discussão no Facebook obteve a adesão inicial de 1.168 pessoas, pelo menos 700 residentes no município. Hoje, o grupo conta com 5.476 seguidores.


A grande preocupação e que deu origem ao grupo foi a recuperação e restauração do prédio onde funcionou a primeira Câmara de Vereadores, na instalação do município em 22 de dezembro de 1873. A casa possuía funções executivas e, por isso, foi também o primeiro prédio da administração municipal. O imóvel, localizado na esquina das ruas Herculano de Freitas e Doutor Monteiro, bem no Centro da cidade, que estava em via de desabar, hoje está recuperado e de posse do poder público. No local, funciona hoje o Museu Visconde de Mauá.


A construção do século 19 foi ainda local de nascimento de Herculano de Freitas, outra figura ilustre do município e que se destacou no cenário nacional como jurista, deputado, senador, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), diretor da Faculdade de Direito de São Paulo, entre outros cargos. Trata-se de uma construção simples e pequena, com aproximadamente 114 metros, mas que guarda imenso significado histórico. Foi uma longa batalha, até a desapropriação do prédio, que era objeto de disputa judicial entre os herdeiros e a sua restauração. Fechado desde 2003, ao longo dos anos teve uso sempre como prédio público e serviu de sede para um cartório e a promotoria pública, entre outros.


Até hoje não existe um inventário oficial sobre a quantidade de prédios históricos existentes na cidade e que guardam as características arquitetônicas trazidas pelos povoadores. Muitos foram demolidos e outros, como o Clube Instrução e Recreio, hoje Clube do Comércio, com data anterior a 1902 quando começou a funcionar como entidade social, foram totalmente descaracterizados. Este prédio que estava interditado desde o mês de fevereiro de 2013, pelo Corpo de Bombeiros, é alvo de esforços entre a diretoria da casa e a Prefeitura para sua reforma e reabertura.


Mas há também aqueles que são cuidadosamente preservados por seus proprietários, especialmente os que servem de moradia para as famílias tradicionais de Arroio Grande e que permanecem na posse dos seus descendentes desde a construção, como o das famílias Teixeira de Almeida e Maciel e Silveira Machado. Alguns sofreram intervenções necessárias ao longo do tempo, outros se resumem a ruínas, como a casa do padre Neves, outra figura popular e de grande prestígio na cidade. Do primeiro engenho da cidade restou apenas a chaminé. A antiga Pharmácia Maciel, prédio datado de 1881, guarda uma arquitetura única e preservada. A Chácara dos Leões, que pertenceu ao coronel Francisco de Paula Alves, vulgo Chico Alves, primeiro presidente do Partido Republicano e fundador da Sociedade Abolicionista, está abandonado e parte do muro já ruiu. A casa desperta o imaginário sobre como era a vida na Arroio Grande de 1899. 


Redator: Tradição Regional



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