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24-03-2017

Especial JTR: Arroio Grande cultiva a tradição


Foto: Fabrício Cruz Município foi pioneiro no Estado a implantar em suas escolas a disciplina de Tradição e Folclore

O tradicionalismo gaúcho é uma qualidade arraigada entre os arroio-grandenses e mais do que cultivar a tradição, a vivem no seu dia a dia. De acordo com o professor de História e Geografia, com especialização em Tradição e Folclore do Rio Grande do Sul, Lizandro Araújo, proporcionalmente, dos 18.949 habitantes de Arroio Grande, pode-se afirmar que 75% da população, de alguma forma, cultiva o tradicionalismo gaúcho.


“Não somente aquelas pessoas que estão diretamente ligadas de alguma forma às entidades tradicionalistas do município participam. Há os grupos que preferem os bailes e outros que gostam de participar apenas dos rodeios e festas campeiras”, salienta. Segundo ele, os jovens integram os Grupos de Danças Tradicionais (as invernadas), sejam eles do próprio CTG Tropeiros da Querência ou das escolas públicas e privadas do município. “Há também aqueles que se dedicam à música gaúcha, cantores e compositores que participam de festivais regionais e estaduais”, ressalta.



Ele destaca que Arroio Grande foi o município pioneiro no Estado a implantar em suas escolas municipais uma área totalmente voltada para a Cultura Gaúcha – a disciplina de Tradição e Folclore. Implantada em 2002 e regulamentada pelo Conselho Municipal de Educação em 2008, Araújo foi, durante seis anos, coordenador de Tradição e Folclore do município. 


Ele estima que existam, atualmente, em torno de 25 entidades tradicionalistas em Arroio Grande. Dentre estas, há 17 piquetes tradicionalistas (os dois mais antigos, fundados um mês de diferença um do outro, em 1982, são “Piquete J.J. Mendonça de Souza”, o 1º, e o “Piquete Chimarrão”, o 2º); seis grupos de cavalarianos (o mais antigo é o “Grupo de Cavalarianos da Integração”, fundado em 2000); dois CTG’s, um na zona urbana, o Tropeiros da Querência – a entidade tradicionalista mais antiga e mais importante do município - e outro na zona rural, no Distrito de Pedreiras (Vaqueanos do Sul).


Destas entidades, hoje, apenas duas são filiadas ao Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), o CTG Tropeiros da Querência e o Piquete Lanceiros de Mauá.


A participação depende de cada entidade e do que ela oferece para seus participantes em relação a eventos culturais, campeiros, esportivos e sociais. “Com exceção dos dois CTG’s que possuem um extenso quadro de associados beneméritos e efetivos, nas demais entidades tradicionalistas o número de integrantes varia muito, de 20 até 200 integrantes”, acredita.


Segundo o professor, muitos “piquetes” e “grupos” só aparecem no período Farroupilha e alguns chegam a desfilar com apenas dez integrantes. Mas, reunindo todos e com base na última Semana Farroupilha organizada por Araújo quando trabalhava na Prefeitura em 2010, chegam a duas mil pessoas que participam dos desfiles, considerando apenas os cavalarianos e incluindo os dois CTG’s no desfile. Ele salienta que após as proibições devido ao surto de Mormo no Estado, muitos deixaram de desfilar ou participar de atividades que envolvam cavalos.


Na última Semana Farroupilha, em 2016, pelos cálculos de Araújo, em torno de 800 pessoas, incluindo os que desfilaram a pé e em carroças, participaram dos desfiles. “Mas posso afirmar que todos, quando bem organizados, chegam a dois mil participantes ou mais, incluindo os desfiles dos dois CTG’s”.


A Semana Farroupilha é o principal evento do tradicionalismo no município, com atividades concentradas tanto no Galpão Crioulo do CTG Tropeiros da Querência e em sua sede campeira, como no Acampamento Farroupilha de Arroio Grande, inaugurado em 2005. Durante os sete dias de programação, a participação da comunidade em geral, especialmente tradicionalista, é intensa.


No entanto, outros eventos reúnem as entidades tradicionalistas e seus integrantes participam ativamente, tais como, o Rodeio Crioulo, promovido pelo CTG Tropeiros da Querência em sua sede campeira, no mês de março, dentro da programação de aniversário do município; festas campeiras realizadas no Parque de Rodeios Nossa Senhora Aparecida , situado no Passo do Simão, alguns metros após o bairro Promorar; Cavalgada em Homenagem à Nossa Senhora Aparecida, realizada no mês de outubro e  promovida pelo Parque de Rodeios Nossa Senhora de Aparecida; Missa Crioula em homenagem à Padroeira da Cidade, em dezembro, promovida pela Igreja Matriz.


“Às vezes, algumas entidades, as mais organizadas, promovem jantares dançantes e almoços com intuito de angariar fundos para promoção de eventos ou cobrir despesas com a Semana Farroupilha, pois todos os anos, para o desfile, os piquetes e grupos fazem ‘camisas novas’, assim como lanças e outros acessórios para compor o momento”.


A tradição na história do município 


Segundo o historiador, em Arroio Grande, as primeiras iniciativas de resgate das tradições gaúchas datam dos primeiros anos da década de 1950. Houve tentativas de fundação de, pelo menos, dois CTG’s neste período, mas não houve mobilização pós a assinatura das atas de fundação para pôr em funcionamento tais entidades. Mas, em 1955, no dia 21 de agosto, um grupo de jovens arroio-grandenses, liderados por Nézio Teixeira, Alberto Carriconde, Astolfo Conceição e Irene Conceição, reuniu-se para criar um Grupo Folclórico destinado ao resgate da cultura sul-rio-grandense denominado de “Farroupilha”. 


A intenção surgiu após o grupo ter participado de um “baile caipira” no Clube Caixeiral, onde seriam responsáveis pelo “casamento na roça”. Como já conheciam algumas danças gaúchas, acabaram por misturar as duas culturas: caipira e gaúcha. Foi então que resolveram criar um grupo que se dedicasse a divulgar e a cultuar o folclore e os usos e costumes tradicionais e verdadeiros do Rio Grande do Sul. A primeira dança tradicional apresentada pelo Grupo Farroupilha foi o “Maçanico”. Costumavam se reunir, de quatro a cinco vezes na semana, para conversar e tratarem de assuntos que contribuíssem para o crescimento do grupo, aperfeiçoando seus estudos sobre o Tradicionalismo Gaúcho.


Após muitos estudos, o Grupo foi crescendo e ganhando destaque na região, passando a receber inúmeros convites para apresentações nas cidades vizinhas e em eventos escolares e culturais de Arroio Grande. Com tanto sucesso e trabalho reconhecido, era chegado o momento de oficializar o Grupo. A ata de fundação (oficial) foi lavrada em 21 de julho de 1958, quando foi eleita e empossada a primeira diretoria, tendo Nézio Teixeira como presidente (ainda não era utilizada a expressão “patrão”). Neste mesmo ano, aconteceu o 1º Desfile Farroupilha, sob responsabilidade do Grupo Folclórico Farroupilha. As comemorações do “20 de setembro” começaram ao meio-dia, na Sociedade Agrícola Pastoril e Industrial, onde foi servido um churrasco.


Após o almoço, realizam um desfile a cavalo pelas principais ruas da cidade – “os gaúchos conduzindo suas prendas na garupa do pingo”. Na Praça de Esportes, realizaram demonstração de danças gaúchas e, à noite, encerraram com baile no Caixeiral. E assim prosseguiu o Grupo Folclórico Farroupilha pelos anos que seguiram sua fundação: muitas festas, apresentações, concursos de Primeira Prenda, Semana Farroupilha e, a cada ano, crescendo e ganhando mais destaque e importância, ficando pequeno para uma simples denominação de “Grupo”, conta Araújo.


Em 21 de agosto de 1965, em assembleia geral realizada na sede do Sindicato Rural, os então associados do Grupo Folclórico “Farroupilha” resolveram transformá-lo em um “Centro de Tradições Gaúchas” (CTG), ato que foi recebido com muito entusiasmo por todos. Passaram então, a escolha de nome, símbolos e lema para a nova entidade tradicionalista.


Entre várias sugestões e discussões, foi vencedora a denominação “Tropeiros da Querência”, sugerida pelo senhor Adilson Feijó, inspirado em um grupo musical muito conhecido na década de 50 que costumava apresentar-se no Programa “Rodeio Coringa”, da Rádio Farroupilha de Porto Alegre. Como lema, foi adotada a frase “Tropeando pelo Rio Grande, laçamos a tradição”. Para a bandeira, dois modelos foram apresentados, vencendo a sugestão de Dilmar Nunes, fazendo referência à figura de um “tropeiro” (chapéu, lenço e laço). O primeiro Patrão do CTG “Tropeiros da Querência” foi Nézio Teixeira, grande incentivador do Tradicionalismo em Arroio Grande. 


Os estatutos do CTG foram baseados nos estatutos sociais do “35 CTG”, de Porto Alegre, e do “Mate Amargo”, CTG da cidade do Rio Grande. Neste mesmo ano, durante a Semana Farroupilha, foi eleita a 1ª Prenda do CTG, Norma Rodrigues.


Em 1970, o “Tropeiros da Querência” filia-se ao MTG – fundado em 1966 –, passando a compor a então 22ª Região Tradicionalista (RT). Em 1977, Arroio Grande passa a compor a área de abrangência da 21ª RT, permanecendo, com destaque, até os dias atuais. Em 1975, no dia 21 de agosto, após longa campanha para arrecadação de materiais de construção e legalização do amplo terreno adquirido no bairro São José, é inaugurado o Galpão Crioulo do CTG (atual sede social), na gestão do patrão José Thomaz da Silva. O Galpão Crioulo é um dos mais belos CTG’s da Zona Sul do Estado.


Ao longo de quase 52 anos, muitas prendas e peões levaram o nome do CTG há vários recantos do RS através dos concursos culturais. Foi palco de inúmeros encontros de patrões da 21ª RT. Incentivador do tradicionalismo gaúcho no município, foi o idealizador do projeto que criou a Disciplina de Tradição e Folclore em Arroio Grande, assim como o Festival Nativista Estudantil (FENAE). Foi o CTG Tropeiros da Querência, ainda, o responsável pela elaboração e aprovação do projeto que trouxe, em 2005, o Desfile Temático para a Semana Farroupilha.


 


Principais eventos promovidos pelo CTG ao longo do ano:


Março: Rodeio Crioulo Joaquim Teixeira Nunes (1ª edição em 2001);


Abril: Atividades culturais em comemoração ao Dia do Tradicionalista, do Churrasco e do Chimarrão;


Maio: Jantar-baile em homenagem ao Dia das Mães;


Junho: Festa Junina à Moda Gaúcha;


Julho: Concurso Interno de Prendas e Peões e Fandango de Aniversário do Galpão Crioulo;


Agosto: Fandango de Aniversário do CTG e Jantar-baile em homenagem aos pais;


Setembro: Semana Farroupilha (intensa programação, culminando com Rodeio na sede campeira);


Outubro/Novembro (dependendo da definição de cada patronagem): Fandango da Prenda Jovem (realizado desde 1978);


Dezembro: Baile de posse da nova patronagem.


Além destes, o CTG Tropeiros da Querência, através de sua patronagem, prendas e peões titulados e associados, participa ativamente de todas as atividades e programações oficiais promovidas pelo MTG e pela 21ª RT. 


Em janeiro deste ano, o Tropeiros da Querência recebeu destaque da 21ª RT, como a entidade “mais atuante em 2016”.


Redator: Tradição Regional



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