Quinta, 18 de junho de 2026, 19:25h
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Capão do Leão está completando 35 anos de emancipação política, mas a história deste chão é bem maior do que isto. São mais de 200 anos que envolveram guerras armadas, guerras políticas, foi pago do “patrono da imprensa do Brasil”, ponto de veraneios, fornecedor de pedras para uma das maiores obras brasileiras, os moles da Barra do Porto de Rio Grande, e muito mais. Capão do Leão pertenceu aos índios, depois à Rio Grande, depois à Pelotas e, há 35 anos, pertence aos leonenses.
Até depois dos meados do século XVIII, essas terras eram habitadas somente por animais selvagens e índios Tapes e Minuanos, que as chamavam de Itá-Itá, significando, no Guarani, Pedra-Pedra ou Muitas Pedras, devidos aos grandes serros de pedra que existem na região.
Nessa época, portugueses e espanhóis estavam disputando, em brigas políticas e guerras, qual das duas nações se tornaria dona das terras onde atualmente são o Rio Grande do Sul e Uruguai. Em 1763, os espanhóis invadiram o Rio Grande do Sul (Rio Grande de São Pedro) e obrigaram os portugueses a se refugiarem em outras regiões como em terras que são hoje São José do Norte e Pelotas. Foi então que surgiu Rafael Pinto Bandeira, considerado “a maior espada continentina do sec. XVIII”.
Rafael era um guerreiro do Exército (Dragões de Rio Pardo) que, por conhecer cada canto do Rio Grande de São Pedro sem mapas, descrevia com exatidão cada serro, estrada, encruzilhada, arroio, rio e que, mesmo em noites escuras e tormentosas, jamais se desviava do caminho a seguir nestas terras rio-grandenses. Foi ele quem desenvolveu uma doutrina militar genuína: “a guerra à gaúcha”, praticada na Região Sul até 1926.
Rafael Pinto Bandeira recebeu, em 1775, do governo português, por seus feitos heroicos, a Sesmaria do Pavão e se tornou o primeiro proprietário de terras onde hoje é o município de Capão do Leão. Essa estância limitava-se ao norte com Arroio São Thomé (atual Padre Doutor/Theodósio), ao sul com Arroio Pavão (também conhecido como Contrabandista), ao leste com o Canal São Gonçalo e ao oeste com a Serra dos Tapes. Outras Sesmarias concedidas nestas terras, na época, foram: Sesmaria Piratini, a Antônio Araújo, entre o Rio Piratini e Arroio Pavão; Sesmaria São Thomé, a Antônio dos Santos Saloio, entre o Arroio São Thomé e Arroio Moreira (também conhecido como Arroio do Pestana e a Arroio Fragata); e Sesmaria Santa Ana (Sant’Ana ou Santana), ao Alferes Félix da Costa Furtado de Mendonça, entre os Arroios São Thomé e São Pedro, onde hoje fica a Estância Santa Tecla. Alferes Félix da Costa Furtado de Mendonça era casado com Ana Josefa Pereira Fernandes de Mesquita e eles foram pais de três importantes homens da história: Hipólito José da Costa, patrono da imprensa do Brasil; Padre Felício, fundador da Freguesia de São Francisco de Paula (atual cidade de Pelotas); e José Saturnino, senador do Império e ministro da Guerra. Todos moraram na Estância Santa Ana.
Outra figura importante da história da região foi o irmão de Ana Josefa, Pedro Pereira Fernandes de Mesquita, o Padre Doutor. Esse apelido não era devido a ele ser médico, mas sim por ser grande estudioso, inclusive tendo feito faculdade em Coimbra. Foi Vigário da Vara - representante do Bispo em determinada região - por 25 anos. Também foi proprietário de parte da Estância Santa Ana, onde morou com sua irmã, cunhado e sobrinhos. Teve grande participação na educação dos sobrinhos prodígios. Foi Padre Doutor que enviou solicitação, através do seu sobrinho, Padre Felício, de criação da Freguesia de São Francisco de Paula, em 1812. A primeira sede da Freguesia foi na Estância Santa Ana.
Nessa época, já aparecia o nome Capão do Leão e havia um povoado neste local. Na Estância, havia o passo do Capão do Leão de Baixo, onde hoje é a ponte de entrada da avenida Narciso Silva, e o Capão do Leão de Cima, onde, aproximadamente, o Arroio Padre Doutor corta a RS-293. Devido a ter existido Suçuaranas (Pumas, Leões da Montanha) na região e estas serem muito parecidas com a Leoa Africana, os portugueses as chamavam de Leão Baio. Deste animal, surgiu o nome Capão do Leão. Capão é um pedaço de mato.
Apesar de já existir um pequeno povoado, Capão do Leão começou a crescer somente com a inauguração da Ferrovia e Estação Férrea, em 1884, e com o loteamento do Theodósio, em 1896, em 103 lotes, transformando-se em local de veraneio, principalmente de famílias pelotenses. Surgiram chácaras frutíferas, hotéis, restaurantes, teatro, cinema, clubes, e Capão do Leão foi local de famílias descansarem até os anos 60, quando os veraneios começaram a mudar para a Praia do Laranjal, loteada em 1957.
Outro crescimento dessa localidade aconteceu quando a Compagnie Française Du Port de Rio Grande do Sul comprou o Cerro das Pombas, atualmente chamado de Cerro do Estado, da Família Gastal, para exploração de pedras para a construção da Barra de Rio Grande.
No início dos anos 60, especificamente em 62/63, os leonenses, sentindo-se esquecidos por Pelotas, fizeram uma tentativa de separação, através de um plebiscito. O “sim” acabou vencendo e Capão do Leão tornou-se município, mas somente por alguns dias, pois o prefeito de Pelotas conseguiu reverter a decisão. Depois veio o golpe de 64 e, com a Ditadura Militar, Capão do Leão ficou impedido de uma nova tentativa de emancipação. Mas, em 1981, lideranças locais se reuniram e travaram uma batalha política, que resultou na emancipação, em 3 de maio de 1982. Finalmente, Capão do Leão pertencia aos leonenses.
De lá para cá foram 35 anos de história e Capão do Leão passou pelas mãos de diversos prefeitos. O primeiro prefeito foi Elberto Madruga (PMDB), que por muitos anos havia sido representante dos leonenses na Câmara de Vereadores de Pelotas. Madruga governou até 1985, quando faleceu. Quem assumiu depois foi Getúlio Teixeira Victoria (PMDB), que governou até 1988. Depois vieram Manoel Nei da Costa Neves - PFL (1989-1992); Getúlio Teixeira Victoria - PMDB (1993-1996); Manoel Nei da Costa Neves - PPB (1997-2000); Vilmar Motta Shmitt - PDT (2001-2004); Vilmar Motta Shmitt - PDT (2005-2008); João Serafim Quevedo - PDT (2009-2012); Cláudio Luiz Schroeder Vitoria - PDT (2013-2016); e, atualmente, é governado por Mauro Santos Nolasco (PT).
Há uma sensação da população que muito pouco foi feito nestes 35 anos de independência - e até pode ser que isso seja verdade -, mas ninguém pode negar o potencial que Capão do Leão possui para um bom crescimento econômico, pois possui uma localização privilegiada, perto de dois portos (Rio Grande e Pelotas), cortado por duas rodovias (BR-116 e RS--293) e por uma ferrovia, além do Arroio São Gonçalo, como opção para escoar sua produção; possui grande quantidade de terras com potencial para agricultura e pecuária; conta com uma Universidade Federal em seu território; possui uma grande população como mão de obra para o trabalho; apresenta uma beleza natural fantástica para exploração turística e, além disso, tem uma história de dar inveja a muitos municípios. Capão do Leão tem tudo para ser um lugar próspero.
Feliz aniversário, Capão do Leão! Amamos essa terra.
Redator: Arthur Victoria Silva*
*Arthur Victoria Silva é membro do Instituto Histórico Geográfico de Capão do Leão (IHGCL)
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