Segunda, 08 de junho de 2026, 09:06h
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Um acidente grave não foi empecilho para que Roberto Garcia, o Carreirinha, continuasse a exercer a profissão
“Sou um iluminado, pois me preparo e consigo estar bem psicologicamente para dar amparo, mas quando não mais é possível, consigo filtrar e seguir em frente, pois logo a seguir existirão outros na mesma situação”. Essa frase pertence não só a um motorista da Secretaria Municipal de Saúde de Piratini, que roda, em média, dez mil quilômetros por mês transportando pacientes com doenças graves, mas também é de alguém que ao volante conheceu de perto o maior risco que um condutor pode enfrentar ao trafegar diariamente pelas estradas do país: o acidente de trânsito.
Em 2010, Roberto Garcia, o Carreirinha, de 39 anos, motorista concursado há dez anos pela Prefeitura Municipal, chocou a kombi que dirigia contra um caminhão. O resultado foi a perda da perna esquerda. Ao recuperar-se e, enquanto aguardava a prótese, a vontade de guiar novamente suprimiu possíveis medos e traumas deixados pela colisão e sequela. “Logo que deixei o hospital passei a usar a muleta para empurrar o pedal da embreagem do meu carro, e isso me ajudou a começar a ganhar novamente a autonomia”, relembra.
Decidido a não se aposentar por invalidez ou exercer uma função burocrática devido à lesão, Carreirinha teve ao seu lado a obstinação do secretário da pasta de Saúde, Diego Espíndola, que decidiu adquirir um veículo adaptado. São quase oito anos transportando enfermos para Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande.
“Foi acertada a decisão, não me arrependo disso, pois é um servidor público que fez por merecer toda a nossa mobilização e confiança, não somente dos gestores, mas, inclusive da comunidade, que elogia seu trabalho, o que acontece porque nessa função ter tranquilidade e calma não é para todos, então é missão de vida a dele de ser motorista da saúde, que é algo bem complexo”, avalia o chefe que confia sua segurança a Carreirinha e exemplifica isso contando um fato: “Nas viagens longas ele é um dos dois que me transportam. Lembro de uma vez em que viajávamos com outro secretário de Saúde e este perguntou: como você tem coragem de viajar com um motorista amputado? Respondi: se juntarmos nossas pernas, as minhas e as suas secretário, não vamos reunir a experiência que o Carreirinha tem em uma só perna”.
Na profissão que escolheu para a vida e na área em que trabalha, Carreirinha sabe que ser sensível e solidário é algo imprescindível para seu cotidiano. “Impossível não se envolver emocionalmente. Convivo com os dois lados: a alegria e a frustração, pois ao mesmo tempo em que transporto pessoas que, com câncer, por exemplo, vão semanalmente à busca da cura e a conseguem em determinado ponto do tratamento, em proporção bem maior, infelizmente me deparo com aquelas que saem do consultório sem qualquer esperança de sobrevida, e quando estas param de viajar comigo por partirem, eu que construí uma amizade e tinha uma afinidade com estas realmente sinto”, sintetiza.
Mas o motorista gosta e se satisfaz mesmo quando a viagem de retorno para casa é recheada de sorrisos e esperança por parte daqueles transportados que já alcançam o objetivo, a cura, e passam a se deslocar somente para revisões. Ao contrário de quando as notícias não são boas e o trajeto muitas vezes é em silêncio, a alegria e o bom astral dos pacientes o deixam satisfeito e lhe dão novamente a certeza de que estar atrás de um volante é realmente a profissão que sonhou para si.
“Que bom que também compartilho e vivencio estes momentos. As pessoas, voltam com o sorriso no rosto, têm uma força de vontade, fé e superação que são admiráveis, e quando não tiverem e o resultado não for bom, o que tenho para dar é carinho e uma palavra de conforto”, conclui.
Redator: Tradição Regional
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